On every list I've ever sent you're the gift I'd love the best | Epilogue.
NY, 25 de Dezembro de 2021
O bom humor de David não poderia estar melhor naquele dia. Deitado no sofá, balançando os pés ao som de uma música que tocava apenas em sua cabeça, ele olhava para a grande árvore de natal que estava em um canto da sala de estar, com as luzes brilhando para ele como se fossem pequenas estrelas. Já era tarde, todos os familiares e amigos que haviam decidido passar a véspera de natal com ele e sua família já tinham ido embora. Até mesmo sua esposa estava dormindo – ele mesmo havia sugerido que ela fosse se deitar –, mas Dav não conseguia passar mais do que 20 segundos de olhos fechados. Aquele tinha sido um dos melhores natais de sua vida: sem brigas bobas entre os pais, ou os avós tendo que manter a paz à mesa, ou ele passando boa parte do tempo dentro do quarto, desenhando. Não, este havia sido completamente diferente e isso o estava deixando com um sorriso de orelha a orelha e sem vontade nenhuma de dormir.
O que também estava deixando-o daquela forma, provavelmente mais do que qualquer outra coisa, era o pensamento de que aquele era o primeiro natal de Thalia, sua filha. Por mais que ela não fosse lembrar no futuro ou entender a importância deste dia até ser um pouco mais velha, ele fizera de tudo para que fosse especial: comprara vários presentes, ficara brincando com ela quase que o dia inteiro e ainda tentara assistir Toy Story, mostrando-a cada um de seus bonecos quando eles apareciam na televisão. E ainda havia o fato de que Gwen, sua irmã, estivera lá e que fora ótimo ver sua carinha de felicidade quando mostrara a ela um grande embrulho - seu presente de natal. Quando mais novo, a última coisa que ele queria ter era uma irmã. Mas agora não podia negar que era totalmente apaixonado por ela e o quão bom fora tê-la ali, passando um dos dias mais importantes do ano com ele.
David piscou. Não havia percebido até então, mas tinha passado mais tempo com os olhos abertos do que o normal e agora eles ardiam. Levou as mãos aos olhos e pressionou levemente os dedos contra eles. Não sabia que hora era aquela, mas tinha quase certeza de que logo iria amanhecer. Sentou-se, sentindo as costas doerem por ter ficado um longo tempo na mesma posição, e se espreguiçou. Ainda não queria ir para o quarto, mas sabia que Clarissa não ficaria feliz se acordasse e ele não estivesse ao seu lado. Então olhou uma última vez para a árvore e se pôs de pé.
Subir as escadas nunca fora tão desanimador. Se pudesse, teria ficado na sala até Clary acordar para finalmente poder abrir todos os seus presentes, mas obrigou-se a subir cada degrau com rapidez para chegar logo ao andar superior. Até chegar ao quarto, David teria que seguir por um grande corredor cheio de portas, uma delas sendo a do quarto de Thalia. Era de se esperar que ele passasse direto, uma vez que sabia que sua menininha estava dormindo e que não tinha nada de errado com ela – se tivesse, a primeira a saber seria Clarissa, já que praticamente dormia agarrada à babá eletrônica. Ainda assim, ele não pode resistir ao desejo de entrar em seu quarto para vê-la dormir. A porta estava entreaberta, portanto ele só teve que empurrar um pouco a porta e entrar sem fazer barulho algum.
O abajur decorado com constelações estava ligado, o que fazia as paredes ficarem cheias de estrelas, e iluminava o curto caminho que tinha que fazer para chegar ao berço da filha. Tirou os sapatos antes de começar a caminhar, no entanto isso não o impediu de fazer barulho. Como sempre, sua atenção ficara somente em Thalia dormindo e com isso acabou esquecendo-se que logo ao lado havia a poltrona que Clary usava para observar ou ninar a filha até ela dormir. Seu dedo mindinho bateu no canto da poltrona e ele não conseguiu segurar o pequeno grito de dor que veio em seguida. Tarde demais percebera que Thalia acordara com o barulho, e teve que apressar-se para fechar a porta do quarto, seguindo nas pontas dos pés até o berço e tirando a menina dali.
– Ei, princesa, não chore, por favor. Foi só o papai fazendo barulho sem querer. – Pediu ao que a garota respondeu com mais choro. Olhou para a porta, esperando que Clarissa entrasse ali correndo, mas nada aconteceu. Acho que tenho mais tempo, pensou. – Vamos lá, Thalia, você vai acabar acordando a sua mãe e ela vai vir ralhar comigo. Você quer que isso aconteça? – Por sorte, a menina foi aos poucos parando de chorar depois disso. David deu um beijo demorado em sua bochecha como agradecimento e teve o prazer de vê-la sorrir; os olhinhos azuis fechando rapidamente e os poucos dentinhos aparecendo. Sorriu também. – Obrigado.
Depois disso, David ficou caminhando pelo quarto com Thalia nos braços, tentado fazê-la dormir novamente, mas não teve muito sucesso. Ao que parecia, agora que tinha sido acordada, ela não queria saber dos ursinhos que o pai lhe mostrava ou se as canções de ninar que ele estava inventando na hora eram boas; só queria ficar com os olhos abertos. – Sua mãe é quem sabe contar histórias, princesa, se está esperando por isso para dormir... – Começou a dizer, porém logo se lembrou dos livrinhos com contos de fadas que tinha comprado para ela. Colocou-a no berço e saiu correndo do quarto para pegar um dos embrulhos que estava embaixo da árvore de natal. Voltou para o quarto na mesma velocidade que tinha saído, rezando mentalmente para que a filha tivesse pegado no sono nos poucos momentos em que a havia deixado sozinha. Mas isso não tinha acontecido.
Ele colocou a poltrona um pouco mais perto do berço e rasgou o embrulho, mostrando os livrinhos a ela. – Que tal o papai ler um pouquinho para você? – Pegou o primeiro livro e sorriu. – Quer escutar a história da Rapunzel? – Perguntou e começou a ler, olhando-a vez ou outra para ver se ela tinha finalmente dormido, mas a menina não havia puxado a mãe apenas a cor dos olhos. Thalia olhava para ele de uma maneira que fazia parecer que queria que ele continuasse lendo os livrinhos. Já tinha lido Rapunzel, A Branca de Neve e A Pequena Sereia quando finalmente desistiu e ficou olhando-a. Não sabia o que fazer para que ela dormisse e agora finalmente sentia-se cansado. Pensou em cantar mais uma vez, mas duvidava que funcionasse agora. Thalia, por sua vez, ficava olhando para o pai enquanto abraçava o Buzz Lightyear de pelúcia que Dav tinha comprado para ela no dia de seu nascimento.
Dav ficou de pé e olhou em volta. A solução agora era recorrer a Clarissa e esperar que ela fizesse mágica e colocasse a filha para dormir. Tirou a menina do berço, juntamente com o Buzz, e saiu do quarto. Enquanto caminhava pelo corredor, David brincava com menina e a fazia rir com as suas caretas. Quando chegou ao quarto, ele levou o dedo até a boca, pedindo para que a menina ficasse quietinha, mas aquele realmente não era seu dia de sorte. Sem querer deixou o Buzz cair no chão e Thalia deu um gritinho de desespero que acabou com a ideia de acordar Clarissa com calma. Os olhos da esposa encontraram-se com o dele e Dav fez uma careta realmente feia. Abaixou-se para pegar o Buzz e seguiu para a cama, entregando sua princesinha à esposa. – Eu juro que não queria acordá-la, eu só fui ver se estava tudo ok e aí... Tentei de tudo, acho que ela não gosta de dormir quando estou por perto, então a trouxe para você fazer suas mágicas, mas também não queria te acordar dessa maneira. – Explicou-se. – Dav, eu estou acordada desde que você gritou. – Ouviu-a dizer e deitou-se na cama, levando as mãos ao rosto enquanto Clary ria baixinho. – E não foi me ajudar por quê? – Indagou, mas as possíveis respostas eram óbvias: ou ela tinha achado fofo demais olhar David tentando colocar Thalia para dormir pela babá eletrônica ou concentrara-se demais nas histórias que ele tinha lido.
Como já esperava, Clarissa conseguiu fazer com que a filha dormisse bem mais rápido que ele. David não entedia como ela conseguia fazer aquilo, mas estava bastante grato por finalmente ver sua princesinha de olhos fechados, dormindo tranquilamente entre ele e a mãe. Aproximou-se um pouco mais das duas e sorriu para a esposa. – Depois desse trabalho todo, eu ainda terei que fazer o café da manhã? – Ele já sabia a resposta, então apenas suspirou quando ela confirmou. – Espero que nossos próximos filhos sejam como eu e durmam rapidinho, então. É claro que quero que sejam como você e me amem tanto que queiram ficar acordados quando eu estou por perto, mas vão precisar dormir rápido também ou eu vou ficar louco. – Brincou.
Olhando para as duas uma última vez, David aproximou-se para beijá-las rapidamente. Sorriu e fechou os olhos. – Feliz natal, meninas. Espero que o Papai Noel traga os presentes que vocês queriam porque eu já estou satisfeito com as minhas duas amantes de contos de fadas.













