Tendências de Segurança da Informação para 2019
Mais um ano se inicia e, como prática comum, especialistas das mais diversas áreas comentam as suas visões sobre tendências para o ano. Temos acompanhado alguns especialistas na área de Segurança da Informação e propomos um apanhado dos principais tópicos que lemos (e concordamos), bem como introduzimos alguns pontos de vista particulares sobre posicionamento, potencial ou participação do Brasil frente a essas tendências e seus respectivos desafios.
Iniciamos por um tópico no qual temos dedicado bastante tempo de estudo e que já publicamos alguns artigos aqui.
Ataques avançados e persistentes patrocinados por Estados/Nações
Acreditamos que haverá avanços significativos na dissimulação e ocultamento, dificultando sobremaneira o trabalho de computação forense. Grupos como Shadow Brokers, Lazarous Group, Fancy Bear, Carbanak, Iron Tiger, Equation Group, dentre outros, buscarão técnicas aprimoradas para encobrir seus rastros, minimizando suas assinaturas de ataque, e tornando a detecção e a atribuição de autoria mais difíceis. É provável que surjam no próximo ano novas ferramentas adaptadas a alvos específicos, aumentando a especialização dos ataques direcionados.
Atribuição de autoria em ataques avançados já é tarefa bastante difícil e em alguns casos a investigação leva bastante tempo. Este artigo comenta um caso de atribuição a um grupo da Rússia. Dá para ter uma ideia da dinâmica da investigação e dos desafios. Além disso, atribuições podem gerar problemas diplomáticos, então, às vezes parece melhor silenciar e realizar alguma ação de represália também dissimulada. Pode ser que algumas grandes potências declarem mais abertamente eventos desta natureza neste ano, sobretudo os EUA de Trump, com menos papas na língua. Temos ainda a incógnita da Inglaterra pós Brexit e sua postura com respeito às relações internacionais.
Acreditamos também em uma consolidação da tendência da priorização dos ataques sobre as empresas de telecomunicações e provedores de serviço de internet, pois servem de ponte para ataques secundários. O acesso à infraestrutura de tais empresas também facilita a dissimulação de novas intrusões e fornecem outros insumos que podem ser interessantes para outros tipos de atividade como dados de usuários, telefonemas, mensagens de texto, histórico de localização geográfica, contatos e muito mais. É uma prato cheio para serviços de inteligência estrangeiros e é bastante provável que este tipo de atividade se intensifique em 2019.
Atividades de inteligência com foco em contrainformação também devem se expandir, como por exemplo, campanhas de influência direcionadas utilizando mídias sociais. Influência política parece estar se tornando uma arma cada vez mais importante neste novo cenário de guerra 4.0. Ainda dentro do quesito influência política, acreditamos que veremos também um aumento na "qualidade" das noticias falsas (fake news) pelo mal emprego da inteligência artificial e de tecnologias avançadas de renderização de rostos humanos, por exemplo. Lembre-se que na guerra da informação, muitas vezes, é difícil saber que é realmente seu aliado.
Em relação ao Brasil, existe claramente um recente movimento de reconstrução das atividades de inteligência em nível institucional, voltada para segurança de Estado. Vemos com extrema importância o emprego de instrumentos, ferramentas e mecanismos que possam ampliar a escala de tais atividades.
Não temos dúvidas que já existem portas abertas para acesso estrangeiro dentro de nossas redes institucionais, algumas delas escondidas e apenas esperando a necessidade de serem exploradas. Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Há que se trabalhar a favor dos nossos interesses como Nação.
Ataques a Infraestruturas Críticas Nacionais
Na carona do tópico anterior eu apontaria as Infraestruturas Críticas (em geral) dos países como alvos principais dos grupos patrocinados, além das já citadas infraestruturas de telecomunicações.
Nos parece que em 2019 o ataque a Infraestruturas Críticas pode ser uma das formas mais comuns de se concretizar ações baseadas rivalidades intra-estatais. O espaço cibernético, além de facilitar o limite do emprego da violência (selecionando-se os alvos e os efeitos) é um ambiente propício para "anonimização". Ainda que seja possível impactar na perda de vidas humanas, ataques cibernéticos a infraestruturas críticas tendem a ser vetores de perda financeira, seja pela interrupção de serviços ou mesmo pelo atraso no desenvolvimento científico-tecnológico, no caso de sabotagens específicas.
O aumento dos dispositivos conectados a Internet amplia a superfície de ataque e muitos destes dispositivos ("coisas" de Internet das Coisas) advém de prestadores de serviços ligados a infraestruturas críticas como sistemas de telemetria e outras tecnologias conectadas às redes (elétricas, hidráulicas, de gás etc). Cada vez mais os controles físicos vão sendo trocados por controles virtuais apoiados por redes de dados, na sua grande maioria a Internet e dessa forma potencialmente acessíveis, mesmo com todas as proteções que sejam colocadas, de qualquer lugar do planeta. O benefícios do mundo em rede são gigantes, porém o risco inserido é proporcionalmente maior quanto maior é a interconexão. Para entender um pouco mais leia Sistemas de Controle Industrial (ICS) e demandas de segurança.
Para esta esta inexorável marcha rumo a digitalização é importante tomar os devidos cuidados e, principalmente, incluir bons planos de recuperação de desastres de maneira a aumentar a resiliência das Infraestruturas Críticas.
Em relação ao Brasil, tivemos recentemente publicada a Política Nacional de Segurança das Infraestruturas Críticas, que já foi um avanço, mas é preciso prosseguir na implementação dos mecanismos de implementação e controle da Política. Falamos um pouco sobre isto no final deste artigo.
Uma das pesquisas que lemos, falava sobre um número que me chocou imensamente, mas que nós confessamos desconfiar da veracidade: 1/4 das máquinas pessoais no mundo fazem parte de alguma botnet. Independente do número que já tenha sido alcançado, dizer que este número irá aumentar parece uma previsão óbvia. Considerando o crescimento explosivo da Internet das Coisas essa previsão se torna um barbada. Cabe destacar que dispositivos IoT tendem a ser mais inseguros em comparação a computadores pessoais (para saber mais leia "dispositivo IoT: não testado e perigoso!").
Além da expansão em quantidade de máquinas, enxergamos uma ampliação da inteligência destas redes também. Com os avanços da inteligência artificial os agentes destas redes se tornarão cada vez mais autônomos e as ações conjuntas deles cada vez melhor coordenadas. Não será surpresa o aumento de regulamentações referentes à segurança de dispositivos IoT. Já mencionamos um pouco sobre isso em "Regulamentações para Segurança da Informação: vem tsunami por aí?".
Com respeito às regulamentações, acreditamos que o Brasil precise ampliar um pouco seu cabedal de instrumentos. Temos muito o que evoluir nesse tema.
Em 2017 vimos a explosão dos ransomwares (WannaCry e NotPetya) e em 2018 vários casos de violação e vazamento de dados. Os crimes associados à chantagem digital continuarão existindo em 2019, previsão também óbvia. Não dá pra cravar se haverá ampliação, mas não chutaríamos que algo semelhante à febre de 2017 voltará a acontecer mesmo com a facilidade de acesso a scripts de utilização simples de ransomwares sendo vendidos a preço de banana na Dark Web. Talvez possa ocorrer uma consolidação neste tipo de ameaça, tornando os ataques mais robustos e menos acessíveis a newbies.
Outro ponto que cabe destaque é a faca de dois gumes do aumento de tráfego criptografado na Web. O remédio usado para segurança também facilita a passagem de mais agentes nocivos. Há que se lembrar que a dificuldade das ferramentas de segurança em inspecionar tráfego criptografado é também potencialmente geradora de aumento nas infecções, já que malwares podem ser escondidos no tráfego criptografado.
Um ponto que nós evitaremos fazer previsões, diz respeito a minerações maliciosas de criptomoeda (cryptojacking). Acredito que o aumento do número de ataques para dominar computadores ou dispositivos móveis e usar seus recursos computacionais para minerar criptomoedas irá depender muito do patamar de preços que as moedas possam alcançar este ano.