Minha mãe
Minha mãe me batia.
Não muito.
Não sempre.
Na verdade essas agressões quase não me incomodavam, quase nem doíam. Me machucava muito mais quando batia nas coisas que eu amava.
Meu primeiro cachorro sempre foi a primeira vítima desses ataques. Ela batia nele porque ele latia muito, porque era cachorro demais pra ela suportar, sabe? Ela costumava dar umas chineladas nele e dizer que ele estava a deixando louca. Ele nunca a mordeu, nem sequer rosnou pra ela. Tampouco deixava de latir.
Essa noite pensei muito sobre isso. Sobre o quanto eu me encolhia para ser menos criança, não com medo de apanhar, mas com medo de estar deixando minha mãe louca. Ela nunca dava carinho para o cachorro. Alimentava, dava banho, remédio, educava da maneira que acredito ter aprendido a educar qualquer coisa que respirava. Era mais ou menos assim que fazia comigo.
Minha mãe não é uma má pessoa, nunca foi. Também não é a Madre Teresa de Calcutá. É minha mãe; coisas aconteceram com ela e respectivamente comigo depois.
Ela não me dava carinho e não dizia “eu te amo”, nem no meu aniversário. Percebi depois que a ansiedade do meu aniversário sempre foi pelo momento em que acordaria e minha mãe viria sem jeito me abraçar e pedir pra Deus me abençoar e coisa e tal, o mais próximo do “eu te amo”, que eu sempre tive.
Curiosamente minha mãe mudou depois que meu cachorro morreu. Não sobrava muita coisa para enlouquecê-la, eu acho. Alguns anos depois ela ganhou uma cadela, uma rottweiler, morreu ainda filhote, tinha tumor no cérebro e precisou ser sacrificada porque nas palavras do veterinário “ela pode ficar louca e morder vocês”. Vi minha mãe chorando por alguém pela primeira vez.
Numa tentativa de colocar algo dentro dela no lugar de novo, ela ganhou uma segunda cadela, com o mesmo nome da primeira. Acredito que foi uma tentativa de fazer as coisas diferentes e foi assim. Primeira vez que eu vi minha mãe amando alguma coisa.
Quando eu saí de casa minha mãe aprendeu a mandar “eu te amo” todas as noites.
Eu tenho essa teoria de que existem dois tipos de pessoas no mundo. As que só amam e não sabem nem porquê amam e as que aprendem a amar depois que algo acontece.
Minha mãe é do segundo tipo.

















