ai. é que vai doer bastante ainda. amanhã, na sexta-feira quando você olhar para o lado e não sentir mais o perfume, o cheiro da nuca suada ou do corpo pós-sexo. e vai doer na quarta-feira que vem, porque ele gosta de futebol e você odeia futebol. e doerá similarmente aos finais de semana, que é quando ambos se lembrarão da falta e da ausência. e a dor vai incomodar quando você vir alguém parecido no metrô, no ônibus a caminho da faculdade, na praia e no supermercado. ele parecerá te perseguir todos os dias: como uma criança levada, vai se posicionar estrategicamente para que você o veja em cada canto da cidade. mesmo que ele não esteja lá, você o verá. e seu coração vai pular para fora. muitas e muitas vezes. você vai se esquecer de sair com os amigos. vai perder missas e orações. e perderá também os compromissos marcados com antecipação. a dor deitará nos seus ombros e te impedirá de querer levantar para viver. mas você vai, afinal, sofrer nunca foi sinal de fraqueza, né? nunca foi. e você vai engolir o choro às seis da tarde naquela estação de metrô onde vocês costumavam se encontrar. e vai se concentrar em tentar bloquear cada pensamento de cada movimento que se viveu e se criou. e foram tantos.
ai. é que vai doer bastante ainda. depois de amanhã. na quinta-feira. quem sabe daqui dois meses. num dia aleatório onde você parecerá feliz até lembrar. e a criança sapeca estará lá, na sua frente, tentando se mostrar. você vai tentar desviar o caminho, mas a memória permanecerá inerente a cada ambiente que vocês viveram juntos. o que vai doer, e sempre dói (não dói?) é compreender que aquela existência, naquele espaço-ambiente-lugar, não existe mais. quebrou. o altar imaculado já não é palco para cultos e orações. dói. dói perceber que não tem mais nada naquelas paredes que erguemos dentro da faculdade. que não existe nada naquela rua onde costumava-se beber e discutir política. quem está pior, brasil ou argentina? e assim por diante. doerá daqui quatro semanas, quando acidentalmente uma foto dela pulará na tela do seu celular. droga! backup às vezes pode ser uma droga. e lá se vão todas as memórias, de novo, na ponta da mente: você vai se lembrar que aquela foto fora tirada no verão de 2015, quando ela disse eu te amo pela primeira vez. você contabilizou 136 vezes. que ela disse que te amava. e que você respondeu com um eu te amo de volta. você vai evitar propaganda sobre casais apaixonados. amaldiçoará o amor vez ou outra. vai se fechar para outras possibilidades. as festas darão espaço para uma cama macia e um cobertor quente. os hábitos também mudarão: café três vezes ao dia para aguentar a pressão do trabalho, os livros ficarão em segundo plano. livrarias no centro da cidade nem tão cedo. ela amava, meu deus como amava, poesia contemporânea. e vai doer tanta coisa ainda. a maneira como um desconhecido fala sobre o Mercosul com tamanha veemência que tudo o que ela disse parecerá menor, perderá valor. a maneira como ela seguiu a vida abrirá um buraco no limite do seu peito: você pensará ‘como ela seguiu e eu fiquei aqui estagnado’. e, ai, vai doer tanto ainda. a ferida não cicatrizará com pomadas compradas na farmácia em que vocês iam para comprar camisinha. a pomada não vai anestesiar o buraco da ausência. como é que a gente cicatriza uma parte nossa que ficou pelo caminho? a ferida não vai cicatrizar daqui dois dias, às vezes até meses. ai, doerá tanto ainda.
mas pode ser que você encontre um jeito de seguir também. seguir, que pode ser tentando olhar mais para dentro de si mesmo para encontrar resquícios da sua própria luz dançando no escuro. seguir, que neste momento pode significar olhar com carinho, cuidado e afeto para o próprio coração, e, ao invés de querer arrancá-lo para fora, tentar curá-lo com a força das próximas lágrimas. quando, compreendida no próprio luto, a vida parece te arrancar do asfalto para te cultivar num jardim suspenso no meio da poluição paulistana. seguir, porque um dia para de doer. e você passará a ir nos lugares onde a dor parecia interminável e começará a dançar sua própria música. vai colocar a mão no próprio joelho e apertará os cílios para entender o milagre que é estar vivo. pode ser que a dor vá embora daqui umas semanas e quando você descobrir que não dói, ou não como antes, vai voltar àquele lugar tão dramático que semanas atrás te arrancaria o peito, a pele, a vontade de viver.
tem tanta coisa ainda, a se viver, a se expandir. tanto caminho para ser visto e desejado. e outras pessoas. e tudo novo, de novo.
pode doer hoje, amanhã e pelas próximas 39 semanas. a dor pode estender no seu coração uma vontade de nunca mais se relacionar com alguém. e ela pode tentar te fazer desistir das pessoas e da felicidade. mas ela pode ir embora. quem sabe amanhã, quando você estiver lavando a louça, ou sábado que vem, quando você encontrar uma amiga antiga e, a partir dali, um novo caminho e estado de espírito. quando você olhar para si mesmo e entender que a pele do coração se regenera assim como os dias vêm e vão: com a intensidade de quem entende a vida, o amor brotará de novo