NĂŁo existe uma forma exata de descrevĂȘ-lo. Ele simplesmente existe. Passa, continua, nĂŁo espera ninguĂ©m e, quando percebemos, aquilo que era presente jĂĄ se tornou lembrança.
Por isso, talvez uma das maiores demonstraçÔes de carinho que alguém possa oferecer seja simplesmente ficar.
Ficar quando vocĂȘ nĂŁo estĂĄ bem.
Ficar quando vocĂȘ nĂŁo tem nada interessante para dizer.
Ficar quando o silĂȘncio Ă© tudo o que vocĂȘ consegue oferecer.
Eu não estou falando de uma preocupação qualquer.
Estou falando daquela preocupação que permanece.
Daquela pessoa que realmente quer saber como vocĂȘ estĂĄ, que percebe quando alguma coisa mudou no seu olhar, que tenta entender o que existe por trĂĄs do seu silĂȘncio e que nĂŁo quer apenas saber como foi o seu dia, mas o que estĂĄ por dentro.
Quer conhecer aquilo que vocĂȘ quase nunca conta. Quer entender suas inseguranças, seus medos, suas pequenas alegrias. Quer conhecer o seu Ăntimo, mesmo sabendo que existem partes suas que vocĂȘ passou a vida inteira escondendo.
E talvez seja justamente isso que torne algumas pessoas tĂŁo especiais.
Elas chegam perto de vocĂȘ quando vocĂȘ estĂĄ no fundo do poço.
NĂŁo precisam perguntar.
NĂŁo precisam questionar.
Não precisam forçar nada.
Elas simplesmente percebem.
Sentam ao seu lado e permanecem ali.
Em silĂȘncio.
Mas presentes.
E, às vezes, é tudo o que alguém precisa.
Porque existem dias em que vocĂȘ nĂŁo precisa de conselhos. NĂŁo precisa que alguĂ©m encontre uma solução para os seus problemas. NĂŁo precisa ouvir que tudo vai ficar bem.
VocĂȘ sĂł precisa que alguĂ©m fique.
Que alguĂ©m divida alguns minutos da prĂłpria vida com vocĂȘ.
E isso, para mim, Ă© uma das formas mais bonitas de afeto.
Porque ninguém é obrigado a ficar.
Ninguém é obrigado a ouvir.
Ninguém é obrigado a conhecer aquilo que existe por trås de uma pessoa que estå tentando esconder que não estå bem.
Mas quando alguém escolhe fazer isso, estå entregando uma coisa que nunca poderå recuperar:
o prĂłprio tempo.
E talvez a gente sĂł perceba o valor disso quando entende que o tempo Ă© uma das poucas coisas que nĂŁo podemos devolver.
Dinheiro e lar pode ser recuperado.
Objetos podem ser substituĂdos.
Pessoas podem até voltar.
Mas aquele momento especĂfico?
Aquela conversa?
Aquela noite em que alguém decidiu permanecer ao seu lado?
Nunca mais volta.
Por isso, eu acredito que nenhum ser humano deveria subestimar a importùncia de uma presença.
Pois queremos companhia.
Queremos presença.
E nĂŁo estou falando sobre redes sociais, mensagens ou sobre ter centenas de pessoas acompanhando a nossa vida.
Estou falando sobre o que Ă© real, e quero muito viver o que Ă© real.
Sobre alguĂ©m que olha para vocĂȘ e realmente enxerga vocĂȘ, a empatia que nĂŁo precisa ser explicada.
Sobre uma conexĂŁo Ăntima, construĂda atravĂ©s de conversas sinceras, de silĂȘncios confortĂĄveis, de pequenos gestos e da liberdade de poder ser quem vocĂȘ realmente Ă©, sem precisar fingir que estĂĄ tudo bem.
Um diĂĄlogo aberto, sincero e humilde.
Sem precisar criar expectativas.
Sem precisar exigir nada em troca.
Apenas duas pessoas compartilhando um pouco daquilo que possuem de mais precioso:
o tempo.
Sabe porque? a pior coisa que tem Ă© viver lembrando do tempo que jĂĄ foi perdido e tambem em qual a gente ficou esquecido, por quem a gente mais amou um dia.
E talvez seja por isso que eu tenha aprendido a ser tĂŁo grato por quem permanece.
Eu sei que as pessoas tĂȘm suas prĂłprias vidas, seus prĂłprios problemas, suas prĂłprias dores e seus prĂłprios motivos para seguir em frente.
Então, se alguém decide dividir um pedaço da própria vida comigo, eu não quero tratar isso como algo pequeno.
Quero valorizar.
Quero lembrar.
Quero agradecer.
EntĂŁo, se eu pudesse dar algum conselho â se Ă© que estou em posse disso, considerando todas as minhas circunstĂąncias â, seria simples:
Aproveite bem o tempo com as pessoas que se preocupam com vocĂȘ.
NĂŁo espere perdĂȘ-las para perceber o quanto a presença delas significava.
NĂŁo espere a distĂąncia para sentir saudade.
NĂŁo espere o silĂȘncio para perceber o quanto aquelas conversas eram importantes.
Porque eu mesmo nĂŁo posso garantir que estarei aqui amanhĂŁ.
E talvez seja justamente por saber disso que eu tenha aprendido a valorizar tanto a companhia de quem escolhe dividir seu tempo comigo.
Inclusive, algumas pessoas aqui, eu sempre fui grato pelo tempo que elas dedicaram a conversar comigo.
Obviamente, entre elas, houve pessoas superficiais.
Pessoas que foram e que talvez nem tenham percebido o significado que tiveram em determinados momentos.
Porque, apesar de tudo, apesar das pessoas que foram embora, apesar das conversas que terminaram, apesar dos momentos em que achei que ninguém realmente se importava...
Eu ainda consigo reconhecer o valor de quem esteve e estĂĄ comigo.
Ainda consigo agradecer.
Ainda consigo sentir carinho.
E, para alguém que passou tanto tempo se sentindo sozinho, alguns minutos de companhia podem significar muito mais do que qualquer pessoa imagina.
E confesso...
Eu?
Estou um pouco feliz com isso.
Sim, vocĂȘ nĂŁo entendeu errado.
Estou um pouco feliz.
E, talvez, depois de tanto tempo tentando sobreviver ao vazio, perceber isso seja uma pequena forma de felicidade.
Simples, mas verdadeira.