Eu jurava que eram pretos
Hoje,
me peguei olhando para vocĂȘ
por tempo demais.
E foi entĂŁo que percebi
algo que nunca havia reparado:
seus olhos nĂŁo sĂŁo pretos.
SĂŁo claros,
com um leve toque de mel,
e por um instante
eu me perguntei
como pude nunca perceber.
Eu jurava que eram pretos.
Talvez porque passei tanto tempo
tentando nĂŁo enxergar vocĂȘ.
Tentando convencer meu cérebro
de que nĂŁo sinto,
de que nĂŁo penso,
de que nĂŁo me importo.
Mas bastou olhar para os seus olhos
para perceber
o quanto tenho sabotado a mim mesma.
Porque meu coração denuncia
tudo aquilo que minha boca nega.
Ele bate diferente
quando vocĂȘ chega,
quando se aproxima,
quando me olha,
quando existe, por um instante,
algum gesto de carinho.
E eu finjo nĂŁo perceber.
Finjo que nĂŁo sinto.
Porque sentir vocĂȘ
também é saber
que posso me machucar.
Suas atitudes me confundem:
parecem dizer que vocĂȘ me deseja,
mas nunca que pretende me escolher.
E talvez seja essa a parte que mais dĂłi.
Porque eu não quero ser apenas o desejo de alguém.
Eu quero ser escolha.
Quero permanĂȘncia.
Quero alguém que olhe para mim
e nĂŁo precise ir embora depois.
E vocĂȘ...
VocĂȘ parece querer meu corpo,
minha presença,
meu carinho,
mas nĂŁo parece querer
a eternidade que meu coração
secretamente procura.
E eu nĂŁo entendo.
Talvez seja por isso
que eu continue tentando
nĂŁo olhar para os seus olhos.
Porque agora eu sei:
eles nĂŁo sĂŁo pretos.
SĂŁo claros,
com um toque de mel.
E, de algum jeito,
foi olhando para eles
que eu finalmente enxerguei
aquilo que passei tanto tempo
tentando esconder de mim.









