Formigueiro de Plataforma
Daniel Ferreira Barros de Araújo [1]
Foi-se o tempo em que as formigas trabalhavam num modelo suficientemente coletivista a ponto de manter a coesão social do grupo de operários. Desde a inserção de práticas neoliberais no formigueiro, os trabalhadores agora querem ser donos do seu próprio negócio. Frida, a formiga rainha, perdeu seu poder de influência, mesmo com um alto grau técnico e vocação para a oratória. A possibilidade de lucro imediato difundida pelas plataformas sob o slogan “mais vale um empreendedor na floresta do que no formigueiro”, encantava avisados e desavisados.
Vale ressaltar que o formigueiro Bricolândia do Sul foi fortemente impactado pelas medidas econômicas das gestões anteriores que, diga-se de passagem, não se preocuparam com a vinda do inverno e suas consequências. Com um ambiente político instável, fortemente polarizado e com a evidente necessidade de alfabetização digital, diversas formigas aderiram à plataforma de transporte de folhas conhecida como Furbs.
O sucesso foi imediato! Várias formigas passaram a bradar na internet que “não dependiam mais do formigueiro e de seus benefícios sociais”. Ao se conectarem à plataforma, as formigas estavam sujeitas ao gerenciamento algorítmico e vigilância do seu trabalho de forma digital e contínua. (AMORIM, MODA. 2020) Na cabeça das formigas parceiras, “nada mais satisfatório do que um trabalho sem regulamentação”, assim, o discurso neoliberal se espalhou rapidamente e nos grupos do formigueiro, composto por formigas de diversas classes sociais que, defendiam essa implementação. Formigas mais jovens, antenadas ao mercado de criptofolhas, engrossavam esse coro.
Formiga liberal, formiga parceira, formiga empreendedora, eram as estratégias ideológicas usadas pela Furbs para manter seus colaboradores sob seus auspícios de controle. (AMORIM, MODA. 2020) Dava muito certo, mas a conta não batia. Prejuízos com roubo de folhas e desgaste da formiga que trabalha mais de 12h por dia começaram a ficar evidentes, mesmo assim, o mercado tratava de acalmar os ânimos, divulgando os lucros bilionários dos fundadores do aplicativo. Claro, formigas neoliberais médias adoram bilionários. O trabalho aparentemente autônomo era extremamente controlado, todos os passos das formigas estavam vigiados (ZUBBOF, 2015).
No grupo religioso das formigas reinantes, Tonho, o operário aposentado que sonhava com a volta da ditadura das vespas, espalhava diuturnamente notícias falsas sobre o governo de Frida, a formiga rainha: “Todas as nossas folhas serão doadas a formigas amigas do governo, para nós, restarão apenas as folhas de plástico que já envenenam crianças do norte”!
A desinformação tomou conta do formigueiro, várias plataformas de vídeo e redes sociais diversas tinham caminho livre para divulgação de conteúdo falso. Pasmem! Já existiam formigas acreditando no “formigueiro plano”. Várias postagens deturpavam o valor da ciência, a eficiência do formigueiro e até mesmo a saúde das pequenas formigas, já que alguns pais deixaram de vaciná-las contra a gripe antes do inverno. (BROTAS, COSTA, MASSARANI, 2021).
O formigueiro passou a enfrentar alguns dos maiores desafios da atualidade: a precarização e desregulamentação do trabalho, a vigilância de dados e personalização das ações e a proliferação e divulgação em larga escala de desinformação, afetando inclusive a política do formigueiro.
Por falar em política, as eleições se aproximavam e candidatos da extrema vespeira articularam de forma eficaz o uso das plataformas e aplicativos de mensagens para alterar a percepção política do eleitorado. O formigueiro nunca tinha visto uma corrida eleitoral tão polarizada: neoliberais, centro-formigas, extrema vespeira (formado pela bancada da folha, da crença e do ferrão) e os operários que estavam há muito tempo no poder.
Pesquisas indicavam uma reviravolta eleitoral, o candidato da extrema vespeira Juvenal, o Tamanduá do Sul, como era conhecido, estava à frente nas pesquisas. Abaixo, a imagem do candidato Juvenal fazendo campanha para o seu eleitorado:
Não deu outra! O candidato que melhor usou as plataformas a seu favor venceu as eleições. Juvenal, o Tamanduá do Sul. O formigueiro agora aguentaria as consequências de suas escolhas por quatro anos. Juvenal venceu com um discurso neoliberal e de desregulamentação total, no entanto, a prática foi muito distante da realidade em Bricolândia do Sul.
[1] Mestrando em Educação (UNIT); Especialista em Ensino de História: Novas Abordagens (FSLF); graduado em História (UNIT); Graduado em Sociologia (UNIASSELVI); Professor na Educação Básica no Estado de Sergipe. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-0433-6782 E-mail: [email protected]
REFERÊNCIAS
AMORIM, H.; MODA, F. Trabalho por aplicativo: gerenciamento algorítmico e condições de trabalho dos motoristas da Uber. Fronteiras - Estudos Midiáticos, v. 22, 2020. DOI: 10.4013/fem.2020.221.06. Acesso em: 03 jun. 2024.
BROTAS, A.; ROCHA COSTA, M. C.; MASSARANI, L.. Enquadramentos e desinformação sobre vacina contra COVID-19 no YouTube: embaralhamentos entre ciência e negacionismo. Mídia e Cotidiano, v. 15, n. 3, p. 73-100, 30 set. 2021.
ZUBOFF, S. Capitalismo de Vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira de poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.









