Saudade é amar um passado que ainda não passou. É recusar o presente que nos magoa. É não ver o futuro que nos convida...
Pablo Neruda

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Saudade é amar um passado que ainda não passou. É recusar o presente que nos magoa. É não ver o futuro que nos convida...
Pablo Neruda

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Nada tão duro que não possa dizer posso.
Paulo Leminski
Viva hoje! Arrisque hoje! Faça hoje! Não se deixe morrer lentamente! Não se esqueça de ser feliz… Feliz… Arriscar à Fazer, para Viver Feliz!
Pablo Neruda
Existe somente uma idade para a gente ser feliz. Somente uma época na vida de cada pessoa em que se pode sonhar e fazer planos, e ter energia bastante para realizá-los, a despeito de todas as dificuldade e obstáculos. Uma só idade para a gente se encontrar com a vida e viver apaixonadamente, com o entusiasmo dos amantes e a coragem dos aventureiros. Fase dourada em que se pode criar e recriar a vida à imagem e semelhança dos nossos desejos; e sorrir e cantar, e brincar e dançar, e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e desfrutar de tudo com toda a intensidade, sem preconceito nem pudor. Tempo em que cada limitação humana é só mais um convite ao crescimento; um desafio a lutar com toda energia e a tentar algo novo, de novo e de novo e quantas vezes for preciso. Essa idade tão especial e tão única chama-se presente... E tem apenas a duração do instante que passa...
Mário Quintana, “A idade de ser feliz”
Então compreendi perfeitamente o que gerava a dor. Não era o corte com a ponta da faca, a topada na quina da cama, o amigo que não liga mais, o café que sujou o fogão, as palavras duras, as notícias na tv, obviamente isso soma-se ao fardo, mas não é ele em si. A dor era gerada pela sede insaciável do nada. Pois quando não se tinha o que queria sofria e quando conseguia almejava outra coisa para sofrer. E é por essa sede que os humanos consomem seus dias, pelos futuros que nunca virão ou que serão fadados quando chegarem. E a maior idiotice era perceber: eu também era um desses tais que nunca estava de barriga cheia.
Fernando Pessoa

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A cidade é passada pelo rio como uma rua é passada por um cachorro; uma fruta por uma espada. O rio ora lembrava a língua mansa de um cão ora o ventre triste de um cão, ora o outro rio de aquoso pano sujo dos olhos de um cão. Aquele rio era como um cão sem plumas. Nada sabia da chuva azul, da fonte cor-de-rosa, da água do copo de água, da água de cântaro, dos peixes de água, da brisa na água. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. Sabia da lama como de uma mucosa. Devia saber dos povos. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. Aquele rio jamais se abre aos peixes, ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes. Jamais se abre em peixes.
O Cão Sem Plumas, João Cabral de Melo Neto
E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto, e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los, se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em coorte, a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas.
A Máquina do Mundo, Carlos Drummond de Andrade
Não sirvo pra observar. Verso, persevero e conservo um susto de quem se perde no exato lugar onde está.
Paulo Leminski
Haja hoje para tanto ontem.
Paulo Leminski
Amar é um elo entre o azul e o amarelo.
Paulo Leminski

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Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso.
Mario Quintana
Cuidado! A nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer.
Mario Quintana, Caderno H
O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.
Mario Quintana, “Relógio”
Havia um corredor que fazia cotovelo: Um mistério encanando com outro mistério, no escuro… Mas vamos fechar os olhos E pensar numa outra cousa… Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe, Puxando a água fresca e profunda. Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas. Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros, E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões. Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu. Havia os azulejos, o muro do quintal, que limitava o mundo, Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas… Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos… As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros, O chiar das chaleiras… Onde andará agora o pince-nez da tia Tula Que ela não achava nunca? A pobre não chegou a terminar o Toutinegra do Moinho, Que saía em folhetim no Correio do Povo!… A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro. Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído. E ela nem se voltou para trás!
Mario Quintana, “Segunda canção de muito longe”
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.
Mario Quintana

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relógio parado o ouvido ouve o tic tac passado
Paulo Leminski
já me matei faz muito tempo me matei quando o tempo era escasso e o que havia entre o tempo e o espaço era o de sempre nunca mesmo o sempre passo morrer faz bem à vista e ao baço melhora o ritmo do pulso e clareia a alma morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma
Paulo Leminski