Não sabia explicar o que estava sentindo. Ao mesmo tempo que queria vê-lo, não queria. Melanie sentira falta dele e sabia que aquele espaço dentro dela jamais seria preenchido por outra pessoa, mas havia se passado muito tempo desde que os dois pararam de se falar. Ele ainda estava em sua memória, marcado em seu corpo e carregado em sua alma, mas ela aprendera, mesmo que de forma árdua, a aguentar ficar de pé sem usá-lo como apoio. Aprendera a continuar sem ele e por mais doloroso que fosse, havia sido uma experiência completamente nova. Sem Ethan ela pensava que iria morrer e seu padrinho sabia muito bem o quão perto ela chegara de realmente fazê-lo, mas não o fez no final das contas. Acontece que Melanie percebeu como seria o mundo dela sem Ethan e vê-lo outra vez seria como regredir, ela esqueceria de tudo que havia aprendido e só focaria nele. Era sempre dessa maldita forma.
Jamais poderia preferir deixa-lo por uma escolha egoísta, pois cada parte dela era direcionada a ele. Contudo, a Gray queria que ele também conhecesse um mundo sem ela. Melanie não estava dividida sobre aquilo, mesmo que soubesse que ele gostava dela e que se importava também sabia o quão danosa uma vida ao lado dela poderia ser. Principalmente naquele momento onde mais segredos de seu passado vinham à tona. Seria egoísmo arrastar Ethan consigo. Seria egoísmo fazê-lo sofrer novamente. Já não conseguia olhar direito no espelho graças a mágoa que criara por si mesma por tê-lo feito sofrer daquela maneira.
Ethan já havia dito que precisava dela, mas aquela frase sempre a fazia rir, de certa forma. A Gray se lembrava muito bem uma vez, já há muitos anos, quando os dois haviam passado quase a madrugada inteira conversando sobre as coisas mais ridículas que passavam por suas mentes e o Rosenfeld estava a ponto de adormecer, mas não o fez sem antes sussurrar aquelas palavras. Melanie lembrava também que havia sorrido logo em seguida e balançado negativamente a cabeça. “Não, Eth. Sou eu quem precisa de você.” Ela sussurrara de volta, mas o garoto já estava entregue ao próprio inconsciente.
Lembrar daquilo foi o que a acordou para a situação em que estava. Melanie já havia chegado em casa e agora encarava a porta da frente ainda com o celular no ouvido mesmo após Ethan ter desligado. Ela ainda precisava dele. Precisava urgentemente e de forma quase desesperada, mas não queria ser ela a ditar a situação. A escolha era dele, poderia livrar-se do peso que era ter Melanie Gray como melhor amiga ou poderia… Não deixou que a mente vagasse por aquele lado. Preferia pensar que Ethan não seria tolo feito ela para embarcar novamente naquela história caótica que os dois tinham.
Girou a maçaneta e empurrou a porta, adentrando em sua residência. Mal teve tempo de pensar no que poderia dizer, pois a imagem dele foi a primeira coisa que viu ao tocar o piso de madeira. E tudo aconteceu exatamente como ela havia previsto que aconteceria. Melanie se esqueceu de todas as ideias que preenchiam sua mente e tudo que existia agora eram os olhos de Ethan. Havia ficado um tempo absurdo sem ao menos olhar para ele e não conseguiria expressar em palavras quanto sentia falta daquilo. Por essa razão ela nem ao menos se moveu. Perdeu-se nos olhos dele por um tempo até sentir os próprios olhos marejarem, eram lembranças demais.
Apertou a mão firmemente em torno da alça de sua bolsa, fechando a porta com um dos pés antes de caminhar para a bancada da cozinha e abri-la meramente para voltar a perder o folego ao encarar a varinha embrulhada. Hesitou por alguns segundos antes de empurrar o objeto para o lado e puxar a pasta com as informações que havia separado sobre os de Martel. Fechou a bolsa rapidamente e voltou-se na direção de Ethan, agora caminhando até ele. Fez questão de manter certa distancia antes de erguer a pasta para ele, sem olhá-lo nos olhos uma segunda vez. Precisava se concentrar no que estava fazendo e a presença dele não ajudava em absolutamente nada.
-Essas são cartas que o meu pai manteve. São de um homem chamado Hector de Martel. O… o seu pai. –Engoliu em seco, tentando manter o tom estável, mas realmente não fazia ideia de como Ethan iria reagir. –Eu já sei disso faz quase uma semana, mas eu espero que você entenda que eu precisava saber se isso não era outro joguinho deles. O Nico me ajudou bastante com essa parte e nós conseguimos descobrir mais do que as cartas revelavam. Os de Martel foram amaldiçoados e Hector estava temendo pela linhagem dele e pedindo ajuda a meu pai para isso. Eles começaram a negociar com um tal de R, que seria de Rosenfeld, para que ficasse com uma criança. No começo eu pensei que Hector estava temendo pela própria vida, mas não. Ele estava temendo pela sua vida. Meu pai foi o responsável pela transição entre de Martel e Rosenfeld, por essa razão ele manteve contato com os Rosenfeld mesmo anos depois. –Contraiu os lábios, erguendo as orbes azuis lentamente em direção às dele. –Essa é sua família de verdade. Você é um de Martel. E… e eu estou certa disso, completamente certa. Principalmente com as informações que você conseguiu. –Melanie nunca fora do tipo que tagarelava quando estava nervosa, mas a situação exigia que ela falasse só que o nervosismo a fazia ficar mais hiperativa do que costumava ser.
Havia um turbilhão de sentimentos dentro de si quando finalmente avistou a imagem nítida de Melanie dentro de casa e pôde sentir todos os momentos que passaram juntos apertados em sua mente. Era mais uma vez em que ele sentia uma imensa vontade de chorar, dizer o quanto a amava e a guardar junto de si apenas para ter a certeza momentânea de que não a perderia novamente. Ele sabia que eles iriam se perder e se achar várias vezes se aquilo se prolongasse, no entanto preferiu se mergulhar em um mundo de fantasia onde ele e ela eram pessoas comuns que se amavam. Ambos tinham total noção de que aquilo era só um sonho impossível, ele principalmente embora estivesse pensando naquilo.
Acabava perdendo a si mesmo entre as lembranças, apreciando o calor que aquilo trazia para ele. Recordava-se perfeitamente da sua adolescência, quando prometera para si mesmo que nunca se apaixonaria pois era furada, mas lá estava ele, perdidamente fodido por causa da garota que costumava ser sua melhor amiga. Ela era incrível, apesar dos defeitos. Não tinha opção a não ser amá-la. Mas seu peito se encheu de decepção ao notar que ela não andava em sua direção, porém para o balcão da cozinha. Seu olhar a seguiu, e ele ainda não conseguia proferir uma palavra, com medo de falar algo que não deveria. Foi uma boa escolha, porque cada palavra dita por Melanie foram como facas se cravando em sua pele, carne e roçando em seus ossos.
Num comum ato que sempre costumava repetir quando estava nervoso, passou uma mão pelo rosto e começou a andar de um lado pro outro. Ainda eram informações demais para processar, e ele não sentia nada além de nervosismo, raiva e confusão. Ao encarar a mais nova outra vez, sabia perfeitamente que logo estaria falando além do que deveria. Novamente passaria dos limites e a nova vítima era ninguém menos que a sua melhor amiga.
“Uma semana...” Sua voz seria quase inaudível se aquele local da casa não tivesse uma ótima acústica. Era possível observar a negação e loucura em seus olhos. Passou a encarar uma das paredes, não tendo certeza de que conseguiria olhar no rosto dela e falar tudo o que estava querendo falar. “Eu precisei de esperança nessa semana, nesses meses... eu precisava acreditar em alguma coisa mesmo que fosse um truque ridículo dos seus pais, até porque isso não seria possível a esse ponto da história. Você sabe muito bem que eles são ótimos em apagar rastros que podem comprometer os atos cruéis que eles cometeram ao longo dos anos.” Murmurou, fechando os olhos e apertando os punhos. “Você me privou de saber sobre mim durante muito tempo e ainda não me disse que já sabia quando eu te liguei. Me deixou pensar que você estava surpresa e mega aliviada com a notícia, mas já sabia. Esse tempo todo você já sabia e não teve coragem de me encarar pra contar. Enquanto isso eu passava noites sem dormir apenas para tomar a decisão de ir ou não ir na casa do Marcus.” Suas falas saiam misturadas com risadas claramente irônicas e algumas lágrimas ameaçavam cair quando se deu por si. “O pior de tudo é que eu ainda te amo.”
Em um movimento brusco, retirou a mochila das costas e pousou os objetos que recolhera da mansão Rosenfeld no balcão. Precisava retomar o foco, e certamente, se lamentar pelo romance mal resolvido não era uma boa forma de começar a fazer isso. “Encontrei uma página de um diário do Marcus, dizendo claramente o que ele pretendia fazer com a minha presença. Ele me usou para ter vantagem social. Fui nada mais que um projeto ridículo de Marketing pra ele.” Comentou, suspirando em seguida. Recolheu as cartas que Melanie trouxera, começando uma leitura que aparentemente o deixaria abalado.
Seu coração apertou quando viu o desespero que Hector tinha em salvar sua vida do mal que estava por vir. Ele tinha mais que uma pessoa se importando com ele e só fora saber com vinte e dois anos nas costas. Acabava sendo uma merda ter falado tanta coisa a toa. Tinha a certeza de que logo estaria amolecido com aquilo, porém ao ler algo escrito ali, quase desabou.
“Meu nome... eu sou Jean-Charles de Martel. Eles queriam me dar esse nome.” Sussurrou para si mesmo, perdendo seu olhar entre o chão da casa.