No Sofar com... Samuel Úria
“Samuel Úria é o nome artístico de Samuel Úria”. O cantautor de Tondela começou o seu percurso na FlorCaveira, uma das mais distintas editoras independentes portuguesas. Com quinze anos de carreira, Samuel Úria conta com uma mão cheia de álbuns de originais, fora os lançados noutras colaborações, sendo que o seu mais recente trabalho é o Carga de Ombro (2016). Letrista exímio, responsável por alguns dos melhores versos cantados na língua portuguesa, Samuel Úria é blues, folk e rock no seu estado mais virtuoso. Após uma actuação arrebatadora no Sofar Sounds Lisbon, falámos com o músico sobre o seu mais recente trabalho, o processo de composição como exercício de auto-crítica e o panorama da música nacional actual.
Como foi a experiência no Sofar Sounds Lisbon?
Foi óptimo. Confesso que mandei uma mensagem ao meu manager hoje a dizer que estava a chover e que as pessoas não iam sair de casa. Estava um ambiente incrível, mesmo acolhedor, e ver de repente a sala a encher foi muito bom. Gostei muito de ver os músicos que me precederam, Medeiros/Lucas, que já estava à espera de ver há muito tempo, como também a Lince e o Orlando. Foi mesmo muito bom.
O Carga de Ombro (2016) é um disco com um ênfase grande no tom autobiográfico, com uma abordagem introspectiva que resulta, entre outras coisas, num conjunto de anotações dirigidas ao “eu” das canções. Já lhe chamaram o teu “Carrie & Lowell”. Fala-nos um pouco deste álbum e do seu processo de composição.
O processo de composição é sempre um bocado autista, até porque eu não quero chatear as pessoas nem estar a pisar calos quando estou a fazer músicas. Nesse sentido, os discos são irremediavelmente autobiográficos, até porque a matéria-prima que está mais à mão é a minha. Mas normalmente não são exercícios de ego, são mais exercícios de auto-crítica, apesar de achar que as lições que estou a retirar para mim próprio podem ser úteis para alguém, assim uma pessoa em mil que um dia consiga compreender mais ou menos os recados que eu estou a dar para mim. É uma bagagem que está sempre um bocado presente quando estou a compor: as minhas composições para mim próprio com o crivo de tudo o que eu acho que podia melhorar e que podia dar mais vezes a mão à palmatória.
Isso está sempre presente e não é só por achar que me é conveniente estar a dar uma ensaboadela. Em termos criativos, ajuda partir desse ponto em que eu tenho a certeza que existem coisas que eu tenho de corrigir na minha vida, ajuda quando tenho uma folha branca à frente saber que vai ter de aparecer alguma coisa, porque se não aparecer eu devo estar armado em bom a achar que não há nada que eu precise de melhorar. Isto pode parecer a coisa mais pedante para se dizer, mas o processo criativo fica sempre facilitado quando assumimos que temos de passar por uma prova de fogo de humildade e de achar que há coisas que têm de ser refeitas. Nesse sentido, acho que a inspiração não me falta porque os defeitos também não me faltam.
Os alinhamentos dos teus álbuns juntam um conjunto de imaginários sonoros diferentes (folk, pop, rock) que contribuem imenso para a atmosfera de cada tema. A construção de uma viagem com diversos universos sonoros é um desafio?
É, de facto, um desafio. Neste disco chamei para trabalhar comigo o Miguel Ferreira porque eu sabia que ele ia ampliar alguns universos musicais e ia aos sítios certos das coisas que eu sabia que queria e, por dificuldades ou por pequenez técnica, sobretudo em relação a teclados que não são propriamente uma coisa que eu domine tal como os sintetizadores, sabia que o Miguel ia ser um bom tradutor das minhas ideias e ia concretizá-las. Costumo dizer que podia ser uma “prótese” engraçada das minhas ideias.
Mas isso não só é um desafio como também, às vezes, os discos funcionam como um reflexo da minha prateleira de discos que não é só de um estilo, e eu quando estou a pensar nas canções não quero ficar refém de dizerem “O Samuel Úria é um cantautor folk e faz voz e guitarra”. A voz e guitarra é-me útil porque há alguma desenvoltura em fazer canções à guitarra, mas depois também gosto que essas canções não fiquem estanques e não fiquem reféns desse esqueleto inicial, às vezes até para fugir das expectativas das pessoas que gostam de discos mais coesos. A coesão poderia servir, se calhar até teria melhores críticas ou um público mais fiel se fosse mais coeso na maneira como visto as minhas canções, mas eu ia aborrecer-me se tivesse que pensar num disco só num estilo. Um dia poderei fazer um disco em que o lado conceptual tem que ver com a própria estrutura musical e não com a identidade das canções ou das letras sobretudo, mas para já eu gosto que o lado conceptual tenha essa disparidade.
Se este disco passa por diferentes sons, influências e até mesmo diferentes volumes é porque se calhar a mensagem também passa por isso e gosto dessa paridade.
Mas mesmo com toda a diversidade, há uma linha que une tudo.
Eu fico contente quando as pessoas me dizem isso. Quando estou a escrever e quando estou no processo de produção identifico essa linha que é comum a tudo, mas depois penso que se calhar as pessoas não vão entender qual é a linha comum ou vão achar que é uma mera manta de retalhos. Mas fico muito contente quando existe um reconhecimento dessa coesão.
A componente visual deste álbum está também muito forte, não só no que toca a capa mas também por causa das ilustrações para cada canção. Quem foi o autor as mesmas?
Fui eu. Eu sou forreta, então para não ter que pagar a um ilustrador chego-me à frente e complemento o próprio universo visual. Fica um produto muito centrado em mim, de facto, mas, lá está, também não me estou a tornar mais bonito na maneira como me desenho. Até nos desenhos que faço há uma auto-crítica que acho que é necessária. Isto não é auto-comiseração, é mesmo auto-crítica, não espero que as pessoas me venham dar palmadinhas nas costas e me digam que não é bem assim. Há a necessidade que esta auto-crítica seja um argumento de apresentação e na componente visual isso também acontece, e julgo que as pessoas vão perceber que não me estou a fazer de coitadinho, mas a auto-criticar-me.
O movimento/editora FlorCaveira contribuiu muito para aquilo que é hoje o panorama musical português e influenciou o surgimento de outros colectivos Do It Yourself com muita qualidade. Enquanto membro da editora, sentes que foram essa alavanca que motivou muitos a fazerem música?
Eu sinto isso quando sou confrontado, sobretudo com músicos mais novos que prezam esse legado. Quando nós o fazíamos, brincávamos muito e fingíamos que éramos os maiores porque isso era uma espécie de exercício de estilo, mas não acreditávamos mesmo naquilo. Até o resgate do português, de fazer pop português e a cena do Do it Yourself e do lo-fi, aquilo era tão feio, tão bruto e tão propositadamente tão mal produzido que brincávamos com esse pedantismo e achávamos que as outras pessoas ou nos iam detestar ou nos iam detestar. De facto, é uma surpresa não só quando há malta mais nova que de facto nos confronta com essas influências mas depois também quando há malta mais velha que anda cá há mais tempo e que consegue traçar um panorama do que é que foi feito nos últimos quinze anos da música nacional e refere a FlorCaveira atribuindo-lhe não só essa importância do DIY e de assumirmos as edições caseiras como discografias, mas também o lado muito forte de resgatar o português e de não menosprezá-lo. O português não era um mero veículo para as canções, muitas vezes as canções é que eram um veículo para o português. Sinto-me muito lisonjeado, honra-me que isso seja considerado como um patamar importante na música nacional quando isso para mim e para nós não era importante, era natural.
O futuro da música portuguesa está em boas mãos? Qual foi a última banda nacional por quem te rendeste?
Acho que o futuro da música portuguesa está em muito boas mãos. Agora, como nunca, tem havido quantidade e qualidade a acompanhar. É verdade que no meio da quantidade há coisas com as quais não simpatizo mas acho que têm aparecido muitas bandas boas. Nos anos 90, surgiram muitas bandas que queriam imitar os Ornatos Violeta e agora acho que há bandas que têm uma identidade muito própria e, claro que há muitos miúdos de que eu gosto, como o Éme e o Luís Severo. No caso do Severo, não é um disco de estreia porque ele tinha trabalhos como o Cão da Morte, mas o disco de estreia como Luís Severo é de uma maturidade que é inacreditável. E eu tenho de referir os Capitão Fausto. Nunca conheci malta que vivesse tanto a música como eles vivem. Vivem a música 24h por dia e ainda por cima vivem juntos, então estão sempre a pensar em maneiras de se destacarem a fazer música e a traduzirem tudo o que façam em música. O último disco deles é singular porque tens ali canções, não é só experimentalismo, e no meio de tanta experiência surgem canções muito boas. Gosto muito do disco.
Entrevista: Inês Henriques e Filipa de Sousa
Fotografias: Inês Sousa Vieira

















