No Sofar com... Postcards
Os Postcards são uma banda de folk rock vinda da capital do Líbano, Beirute, formada em 2012. O grupo é composto por Julia Sabra (ukulele, bandolim, guitarra e voz), Marwan Tohme (guitarras e voz), Pascal Semerdjian (bateria, harmónica e voz) e Rany Bechara (baixo, teclado e voz). Contam com dois EPs editados: Lakehouse saiu em Setembro de 2013, What Lies So Still foi lançado no ano passado, no mês de Julho, e a data de lançamento do álbum de estreia está prevista para o início do próximo ano. Antes de continuarem a sua tour europeia, os Postcards fizeram uma última paragem no Sofar Sounds Lisbon e trouxeram com eles o melhor do indie folk. Depois do concerto, falámos com eles sobre como a música pode salvar vidas, a cena musical do Líbano e o que esperar do novo álbum.
Como foi a experiência no Sofar Sounds Lisbon?
Julia: Foi fantástico.
Pascal: Sim, foi muito bom porque nós tocámos no Sofar em Beirute e foi num apartamento muito pequeno, estavam lá vinte pessoas, era isso que tínhamos em mente. Este espaço é fantástico e as pessoas são maravilhosas.
Marwan: Não estávamos mesmo nada à espera disto
Julia: E é tão íntimo, é bom. Estes são os melhores tipos de concertos.
E estão a gostar de Portugal? Lemos que adoram este país.
Pascal: Sim, adoramos Portugal! Especialmente Lisboa.
Julia: Acho que mais cedo ou mais tarde vamos mudar-nos para aqui.
O vosso álbum de estreia vai ser lançado no próximo ano. Black and White soa um pouco diferente dos últimos trabalhos por ser mais pop e eléctrico. O que é que nos podem dizer deste novo álbum?
Pascal: A Black and White foi uma música que saiu de forma muito diferente, aconteceu tudo muito rápido.
Julia: Estamos mesmo a começar a gravar.
Pascal: Sim, e normalmente andamos para a frente e para trás com as nossas músicas mas esta encaminhou-se naturalmente. Também não escrevemos músicas que sejam tão pop mas gostámos do resultado, portanto gravamo-la porque soava tão bem e depois começámos a trabalhar no álbum.
Julia: Mas o álbum é um pouco mais pop, ainda que tenha este elemento de folk.
Pascal: Ainda assim a Black and White não prevê o álbum.
Julia: Sim, não é exactamente como o resto do álbum, mas é mais pop. Continua inspirado no rock e no folk mas não tanto como anteriormente.
Pascal: Nós estamos mais relaxados a escrever canções, por isso não pensamos tanto nos detalhes, escrevemo-las simplesmente e vemos o que fica bem.
Neste single falam sobre os dias áureos antes da guerra. Como é que o conflito vos afectou enquanto músicos e banda?
Julia: A guerra acabou no início dos anos 90, nós não passamos por isso dado nascemos por volta dessa altura, mas sentimos o efeito da guerra no Líbano. A ideia destes dias áureos passa por acharmos que tudo era melhor antes da guerra, como nos anos 60 em que éramos a Paris do Médio Oriente, o Líbano estava a passar pela sua Época Áurea e, embora seja verdade nalguns aspectos, não havia estabilidade a nível politico e continuavam a existir muitos problemas. As pessoas olham para o período antes da guerra como se tivesse sido a melhor altura de sempre.
Pascal: Além disso, nos anos 60 as fotografias eram muito mais caras do que agora, por isso acho que eles só tiravam fotos aos sítios bonitos, como a baixa onde estão os bons autocarros e por aí. Nem toda a gente tinha um iPhone.
Julia: (risos) Sim, é um ponto interessante! Mas pessoalmente não nos afectou tanto dado que éramos a geração que nasceu depois da guerra, não sabemos como era antes da guerra e não passámos por ela, por isso não estamos tão traumatizados, mas estamos habituados a viver nestas condições estranhas e adaptamo-nos a isso.
Pascal: No entanto, os síndromes pós-guerra estão por todo o lado no Líbano porque não tivemos um fim de ciclo real depois da guerra.
Julia: Mas nós somos a geração que se adapta e simplesmente anda para a frente, independentemente de tudo. Isso às vezes é bom e outras vezes mau porque te leva a ignorar as coisas más que acontecem dado que sabemos que estão sempre a acontecer, mas é o que é.
Lemos um excerto muito interessante que dizia que a vossa música cria um lugar de paz e segurança no meio de toda a violência e caos que há no mundo. Sentem que a vossa música pode ser mesmo ser mesmo este lugar seguro onde sentimos paz?
Marwan: Pessoalmente, a música é um refúgio desde novo e acho que assim o é para o resto banda, por isso se calhar fazemos uma tradução inconsciente desse sentimento.
Julia: As pessoas esperam que a música desta região seja toda sobre os problemas sociais. As bandas mais famosas como os Mashrou’ Leila - não sei se os conhecem - falam sobre todos os problemas, mas connosco as pessoas sentem que a música não representa a forma como vivemos e não acho que tem de o fazer. Mesmo que falemos do nosso país, e às vezes falamos dos seus problemas, a nossa música é mais uma fuga disso.
Pascal: Mas eu acho que inconscientemente a nossa música o faz [representa o modo de viver no Líbano] porque nós ignoramos a situação de forma a vivermos vidas tranquilas, também somos influenciados por artistas estrangeiros e esta bolha que criamos conforta-nos e leva-nos para longe do nosso país. As pessoas que nos vêem também sente que, por vinte ou trinta minutos, podem desligar-se do país porque a música relembra-lhes de algo que não o Líbano.
Que artista ou grupo de artistas do Líbano devíamos definitivamente conhecer?
Julia: Bem, tantos. Há uma cena musical a desenvolver-se, na verdade. Os mais famosos são os Mashrou’ Leila, eles cantam em árabe num género de indie rock.
Pascal: São a primeira banda indie que foi bem-sucedida no Líbano.
Julia: E fora do país também, estão em tour um pouco por todo o lado.
Marwan: Há uma banda chamada The Incompetents que eu gosto muito pessoalmente.
Julia: E os Scrambled Eggs!
Pascal: Sim, os Scrambled Eggs são uma banda de pós-punk.
Julia: Também temos o Charlie Rayne, que é um artista de folk muito bom, e os Interbellum, mas esse é um projecto temporário. A cena musical é pequena no Líbano, há poucos bateristas lá, então o Pascal toca em várias bandas como os Interbellum e os The Wanton Bishops. Também grava imenso com os The Bunny Tylers.
Pascal: Também temos o Fadi Tabbal, que é o produtor de muitos artistas e tem imensas bandas, é um guitarrista óptimo. E o Charbel Haber que, para mim, é o artista experimental por excelência. Temos uma cena experimental muito boa a acontecer.
Marwan: Sim, temos imensas bandas que devem ir pesquisar, nós não conseguimos nomear todas as bandas boas!
Entrevista: Inês Henriques e Filipa de Sousa
Fotografias: Iñigo Sanchez










