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Capítulo 40 - Socorrida.
Toda vizinhança passava como um borrão por mim. Eu estava desesperada. Corria como se não pudesse parar, como se parar fosse um motivo para chorar… E realmente era. Não sabia onde estava, fazia dez minutos que eu estava correndo. Também não sabia como iria voltar pra casa mas essa não era minha primeira preocupação. Estava passando por uma rua cheia de adolescentes, parecia-me que todos estavam bêbados, quando um deles colocou o pé na minha frente e eu caí. Foi uma cena e tanto, poderia até rir daquilo mais tarde mas eu caí em cima de alguém, o que não foi nada engraçado. Fiquei um pouco tonta com a queda mas logo me recuperei , eu estava caída no chão e tinha uma pessoa em baixo de mim. Tentei me levantar mas o máximo que consegui foi sentar na calçada. - Você tá bem? Eu: To sim, brigada. E me desculpa por ter te derrubado. - Não, que isso. Tu não tem culpa do idiota do Jorge ter feito você cair. Eu dei um sorriso fraco, não conseguia sentir minhas pernas. Jorge: Foi mal aí, sério. Eu: Não tem problema. - Tem sim! Tu não parece bem. Consegue levantar? Eu: Acho que sim. - Eu concentrei todas minhas forças para tentar levantar mas voltei a cair. Graças às forças da bondade no mundo o garoto que eu tinha derrubado me segurou e eu não dei com tudo no chão. - Com certeza tu não consegue ficar em pé. Ele se aproximou e estendeu a mão. Eu hesitei um pouco e ele deu um risinho abafado. - Não precisa ter medo não, tá de boa. - Eu segurei a mão dele. - Vem, vou te ajudar a chegar em casa. Ele passou um de meus braços por seu ombro e depois de eu cambalear um pouco ele resolvei me pegar em seu colo. Eu arfei com o movimento, simplesmente odeio ter que depender das pessoas pra andar! Não que tenha acontecido isso muitas vezes mas eu tinha birra com isso, gostava da minha independência. Ele percebeu minha cara feia e perguntou por que eu estava daquele jeito. Eu tentei mudar o foco do assunto falando qualquer coisa. Eu: Não é todo dia que se é carregada pra casa por um estranho. - Acontece que eu não sou um estranho, Ashy. Espera… O quê? Como ele sabia meu nome? De onde eu conhecia ele? Eu nem tava chapada nem nada, poderia muito bem reconhecer ele e saber o nome dele. Não que eu seja boa com nomes, não sou. Mas ele não parecia ao menos familiar a mim. - Alô?? Terra chamando Ashley! - Ele me interrompeu de meus pensamentos. Eu: É que… Eu não me lembro de onde eu te conheço. - Eu fiquei com um pouco de vergonha mas confessei. - Ah, tudo bem. - Ele riu. - Tu não tem cara de que fica ouvindo fofoca e conhece a vida de todo mundo da sala. Eu na verdade não ligo muito mas é impossível não ouvir a Mariah e a Nessa conversando sobre todo mundo o tempo todo. Foi aí que caiu minha ficha. Eu: Tu é aquele menino que eu esbarrei no primeiro dia de aula, caralho! - Eu mesmo. - Ele riu da minha cara de surpresa. Eu: Não sei seu nome e o pior é que eu nem perguntei quando você se ofereceu de me carregar HAHAHA que imbecil. - Meu nome é Théo. - Ele sorriu. Eu: Théo…? Théo: Odór, Theodor. HAHAHA. Ele parou de andar e eu virei minha cabeça pra frente. Estávamos na porta de um hospital bem grande. Eu: Achei que me levaria pra casa. Théo: Não, nem mesmo se eu soubesse onde é. Tu tem cara de garota forte, não ia deixar qualquer um te carregar por aí se tivesse bem pra andar. Eu: Garota forte? - Eu ri. Théo: Tu me entendeu. - Ele revirou os olhos e me colocou numa cadeira de rodas na entrada do hospital. Ele foi me empurrando até a recepção, eu dei meus dados e a moça disse que eu já seria atendida. Quando fui chamada Théo veio junto e nós entramos na sala da doutora elegante que me olhava com preocupação. Doutora: O que traz a senhorita aqui? Hm… Ashley. - Ela leu em uma ficha. Eu: Olha doutora, eu tava correndo muito e caí de repente, eu acho que torci o pé ou algo assim. Ela olhou desconfiada por cima dos óculos para mim e depois para Théo. Eu: Ele me ajudou a chegar aqui. Doutora: Tu pode levantar tua calça? Eu o fiz. E nossa… Era muito sangue. Eu fiquei um pouco nauseada com aquela visão e Théo arfou do meu lado. Desviei o olhar e a doutora resolveu prosseguir: Doutora: Muito bem. Vou pedir para que a senhorita faça um raio-x… Ela continuou falando e falando e depois saiu. Théo me ajudou a chegar a sala de raio-x e depois ficou esperando o resultado sair comigo. Eu: Não entendo porque ainda tá aqui, Théo. Tá meio tarde, não? Théo: Nunca ia deixar alguém machucado sozinho por aí, garota. Eu sorri. A enfermeira chamou meu nome e me entregou o resultado. Eu: Não consigo entender nada disso, o que quer dizer? Enfermeira: Tá tudo certo contigo. Foi só um corte, tu pode só passar um remédio aí e ir pra casa. - Ela apontou pra uma salinha que tinha uma placa na porta escrito “curanderia”. Théo me empurrou até lá mesmo eu dizendo que poderia andar sozinha. Uma outra enfermeira passou o tal remédio e Théo me ajudou a sair do hospital. Eu já conseguia ficar em pé e andar. Théo: Pra onde tu vai? Eu: Lugar nenhum, vou sentar aqui e tomar um ar a noite inteira. - Eu sentei na sarjeta. Ele sentou do meu lado e ficou me olhando curioso. Eu: Pode falar, vai. Théo: To a um tempo já me perguntando porque tu não deu um grito com o Jorge, nem bateu nele, nem pelo menos chamou ele de filho da puta… Se bem que seria um elogio pro quanto ele é sacana. Eu: Também não sei, Théo. Eu acho que tava perdida demais nos meus próprios problemas e também não tava afim de brigar com ninguém. Théo: Tua treta deve ser grande porque ninguém deixa o Jorge sair impune assim. Eu: Ele ainda não tá impune. - Eu ri. Théo: HAHAHAHA duvido que tu vai fazer alguma coisa. Eu: To tão impossível de fé assim? Théo: Na verdade, tu tá suja, com o cabelo molhado de suor e com uma cara de derrotada. Sem falar nessa tua calça rasgada até o joelho e esse curativo enorme. - Ele citou nos dedos, rindo mais e mais. Eu: Daqui a pouco vou bater em você em vez do Jorge. - Eu ri. Théo: Logo eu que te ajudei? - Ele fez cara de triste. Eu: Nao fique descrevendo meu estado então! - Eu ri. Ele sorriu, assentiu e olhou pra frente. Fiquei me perguntando como alguém igual a ele que teve caráter pra me ajudar podia ter amizade com alguém como o tipinho do Jorge. Théo: O que tá pensando? Tu parece inconformada. - Ele me pegou de surpresa. Eu: Só analisando o quanto o mundo é atrapalhado e injusto. - Eu ri. - E você, o que tá pensando? Théo: Nas coincidências da vida. - Ele olhou pra frente antes de continuar. - Sabe? Como as coisas ruins acontecem pra que algo bom possa acontecer ou para que tu faça algo bom. - Ele abaixou a cabeça continuou: - Quer dizer, se não fosse pela briga dos meus pais, eu não teria saído hoje e não teria te ajudado. Sabe lá até que horas tu ia ficar caída naquele chão até alguém entender que tu se machucou. - Ele não parecia muito abalado com a tal briga, talvez já tivesse presenciado muitas outras, mesmo assim eu mudei de foco e aproveitei pra tirar minha curiosidade. Eu: É… Tenho uma pergunta pra você. - Eu chamei sua atenção e ele olhou para mim. - Como alguém legal como você, que foi capaz de me ajudar, anda com alguém tanto babaca como o Jorge? Théo: Eu não sei, talvez por distração mesmo. - Ele voltou seu olhar pra frente como se também buscasse uma resposta. Eu: Distração, tá aí. Eu não me distraio a muito tempo. - Eu olhei pra minha perna machucada e confirmei meu pensamento. Théo: Andando com o Jorge eu conheci várias pessoas que podem ajudar a gente a se distrair - Ele virou pra mim e colocou um dedo em cima do nariz, respirando forte. Eu: Cheirar? Você acha que cheirar é uma boa distração? - Eu arregalei os olhos. Théo: Não. - Ele suspirou. - Eu nunca cheirei, não sei qual é a sensação. É o que eles querem dizer quando falam em distração. - Ele fez aspas com os dedos na última palavra. Depois de um longo instante, Théo se virou e me fitou. Théo: Mas e se eu fizesse? Qual o problema com as pessoas que cheiram pra se divertir? - Ele juntou as sobrancelhas. Eu: Eles não conseguem dançar direito quando o efeito passa. - Eu sorri. Théo: Você fala isso como se o propósito da vida fosse dançar. - Ele continuou me fitando com curiosidade. Eu: Nós somos feitos pra dançar, é por isso que estamos aqui. - Eu apoiei as mãos para trás do corpo e coloquei meu peso nelas, ficando inclinada na calçada. Théo respirou fundo, se levantou e virou com a mão erguida para mim. Eu olhei sua mão, olhei para seu rosto e levantei uma sobrancelha. Théo: Não achou que eu ia te deixar aí a noite toda, achou? Eu peguei sua mão e ele me ajudou a levantar. Eu: Mas então, pra onde vamos? - Eu o olhei enquanto espalmava minhas mãos a minha frente, limpando as pedrinhas delas. Ele começou a andar pra direita do hospital e eu o segui, andando ao seu lado. Théo: Vamos testar sua teoria. - Ele sorriu. Ficamos andando um pouco até todo aquele lugar deserto começar a se tornar um bairro residencial. Me peguei observando o jeito engraçado do Théo andar e quando me dei conta nós estávamos na frente de um condomínio bem bonitinho. Eu: Que lugar é esse? - Eu parei e me virei pra ele. Théo: Vem logo. - Ele pegou minha mão e nós passamos pela portaria. Théo me levou até uma casa toda pintada de amarelo, abriu o pequeno portão e pegou uma chave debaixo do tapete enfrente à porta, a abriu e fez um gesto com a mão para que eu entrasse. Eu: Essa é a tua casa? - Eu adentrei um cômodo branquinho que parecia ser uma sala. Théo: Sim! Tu gostou? - Ele ascendeu a luz e sorriu pra mim. Eu: É tudo tão arrumadinho… E branco. - Eu ri e andei enquanto Théo fechava a porta atrás de nós. Théo: Cuidado! - Ele correu até onde eu estava e me segurou. Ele evitou que eu pisasse num vaso de vidro quebrado no chão. Todo o entorno do vaso tava cheio de terra. Eu: Nossa, obrigada. - Eu suspirei aliviada. Théo: Tu não tá no seu dia bom, né? - Ele riu. Eu: Realmente, to procurando encrenca hoje. - Eu ri também. Ele puxou minha mão e eu contornei a sujeira no chão. Andamos até uma porta com o nome dele no fim do corredor. Quando Théo abriu a porta meu queixo caiu. Eu: Por que seu quarto é rosa? Théo: Ah, eu sou gay. - Ele riu com a minha confusão. - Não de verdade, posso dizer isso porque já tentei, finjo que sou só para agradar aos meus pais. Eu: Que… - Eu sentei na sua cama, que estava coberta por um cobertor todo rosa pálido. Théo: Meus pais sempre quiseram um filho gay, e eu faço isso pra amenizar tudo que acontece em casa, sabe? - Ele se sentou do meu lado. Eu: Sério? - Eu ri. - Você é legal por estar fazendo isso por eles. Théo: Gosto de pensar nisso também. - Ele sorriu. - Mas não é pra jogar conversa fora que estamos aqui. - Ele levantou, abriu o armário e meu queixo caiu mais uma vez. Eu: Seu guarda-roupa é um paraíso. - Estava cheio de roupas lindas e acessórios mais lindos ainda. - Mas não é isso que homos usam! - Eu ri enquanto analisava uma legging com estampa de gatinhos. Théo: Eu disse pros meus pais que eu queria ser hipster, eles não entenderam mas concordaram. Eu: Você tá vestido de “hétero” agora. - Eu apontei. Théo: Ainda tenho umas roupas assim escondidas, afinal, me visto assim fora daqui. Agora chega de perguntas e pega logo uma roupa pra ti. Eu: Isso não serve em mim! É grande demais. - Eu peguei uma blusa preta. Théo: Essa legging serve, tenho certeza, pega. - Ele me deu a de gatinhos que eu tinha visto. - Agora a blusa vai ficar linda sendo grande. Vai tomar um banho! - Ele apontou uma porta ao lado do guarda-roupa, segurando uma toalha. Tomei um banho super rápido e me troquei cuidadosamente, com medo de mexer no curativo. A legging caiu perfeitamente em mim e a blusa não ficou tão grande. Peguei meu tênis, limpei o pouco do sangue dele e o coloquei. Recolhi as roupas manchadas do chão e joguei-as no cesto de lixo. Eu: Como eu estou? - Eu saí do banheiro procurando por Théo. Théo: Eu sabia que ia ficar legal! - Ele por sua vez estava com uma calça jeans, uma blusa branca e uma jaqueta preta. Eu: Você também tá legal, tá? Não tanto quanto eu, mas tá. - Eu o abracei e disse: - Obrigada. Théo: Que isso, Ashy. Tu é uma pessoa do bem, merece ser ajudada! - Ele riu. Eu ri e me sentei na cama, observando o volume que o curativo causava na legging, percebendo que não sentia muita dor. Théo: E aí, tu consegue andar mais? - Ele apontou para onde eu estava olhando a pouco. Eu: Com certeza. Pra onde a gente vai? - Eu o segui até a porta da frente. Théo: Rucus, melhor lugar da cidade. - Ele abriu a porta e me puxou junto. ***
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