Problematizar é prisão perpétua, sem condicional, hábeas corpus; tornozelos algemados que caminham em uma só direção, sem possibilidade de curva. Configura trabalho escravo, ou mesmo assédio moral: não há folga nos fins de semana, não há paz integral no barzinho de sexta, no almoço de família. Também não disponibiliza botão de liga ou desliga, não diferencia ambientes ou situações, não deixa dormir e faz parecer às vezes quase pesadelo quando acordada. Problematizar é aquele pedaço de bife difícil de mastigar, impossível de engolir. É enxergar sem escolha através de lentes de aumento tão potentes que fazem as têmporas doerem tamanha nitidez que se apresenta, é como ver fantasmas diante dos céticos, é quando 2+2 sempre dá 5 pra quem escuta. É beber limonada em grupo e só você sentir o amargor - que saudade às vezes de quando era doce, leve, simples. É sobre levantar bandeiras às vezes esquecidas, incômodas, das quais o tempo retirou a cor. É quando tudo perde a graça: a piada, o anúncio, a canção, o vídeo feito só mesmo pra gargalhar; problematizar não te permite os dentes mostrar. Te torna alvo instantâneo e certeiro dos comentários da turma do aconchego: "Lá vem aquela que sempre balança nossos cobertores". É caminhar sem vestes enquanto chove lá fora, é na verdade nunca estar mesmo "aqui dentro". É desproteção, desnutrição, é estar "no tempo", à mercê do clima, do tom, do feeling. É saber tudo e não saber nada, é quando a gente aprende ao passo que "ensina" o que já captou, é passar a chama acesa adiante, com todo cuidado pra que não se apague e que chegue o mais longe que puder. É deixar caírem pedaços de fé pelo caminho e resgatá-los logo à frente, num movimento cíclico onde novas peças sempre se acrescentam. Problematizar é uma surra, é sangue, é sentir as veias pulsarem ora pela impotência, ora pelo acerto temporário. É quando nada mais passa sem filtro, sem regulação, e a gente se questiona, "O que fiz com minha diversão? Com o riso solto de outrora?" Não tem dia nem hora. Aqui, lá, hoje, amanhã, agora. Problematizar me tirou as calças e o sutiã, em certa medida me afastou dos céus, dos seus, dos meus, me incorporou nova identidade, me presenteou em teoria e prática, é minha chave na tomada, minha consciência de tão cheia, abafada, quase afogada em si; é na verdade tudo que mais sonhei e que mais temi. É muito além de uma simples parte do que sou, é o mais novo ou mais antigo ingrediente primário dessa mistura que por vezes sola, por vezes vinga. É chão de terra, areia nos olhos e o anseio pela água gelada que alivia e que se encontra sempre a um palmo ou a um braço de distância.