Obrigada por ter sido.
A Ășltima coisa que te disse, antes de ir, foi "obrigada".
Obrigada por ter sido meu companheiro, por um dia ter sido luz dentro da minha vasta escuridĂŁo.
Obrigada por ter sido calmaria, na minha indiscutĂvel confusĂŁo.
Obrigada por ter sido generosidade, no meu infindĂĄvel egoĂsmo. Por ter mostrado o caminho, quando me mostrava perdido.
Obrigada pelo afago, por ter aberto o peito, por ter pulado no abismo do amor. Obrigada por ter arriscado estar ao meu lado, mesmo dos dias de pavor.
Obrigada pelas noites bem dormidas, pelas mal dormidas, por ter me dado o prazer da sua companhia, por ter me dado tempo, espaço, abraços, laços, entrelaços.
Obrigada por ter feito o café, pelo cafuné, por encostar o pé no meu pé. Pelas manhãs de domingo, na moto, no carro, no parque, na sala, no cinema, no jogo, o almoço e a janta.
Obrigada por partilhar a vida comigo, por ter colocado minha roupa para lavar, por ter colocado o arroz no fogo, por ter feito o molho do peixe. Obrigada pelo passeio, pela rosquinha de canela, pelo suco de laranja, pela ĂĄgua de cocĂŽ.
Cuidou de mim, regou-me as flores do jardim, fez brotar frutos, fez o amor crescer com a mais verde das folhagens. Me deu frutas na boca, me deu flores na cabeça, me fez brotar ideias.
Obrigada por ter me abraçado quando me senti só, quando quis chorar, quando quis morrer. Obrigada por enxergar em mim a amizade, um coração bom, um caderno com tantas påginas a se preencher.
Obrigada amigo por ter tido o cuidado, a paciĂȘncia, o respeito. VocĂȘ foi um lapso feliz num capĂtulo triste. VocĂȘ era radiante, ofuscava qualquer sinal de infelicidade que apitava ao redor. VocĂȘ sentiu em mim, conforto de ter perto um colo amigo, um colo familiar.
Obrigada por repartir comigo tuas experiĂȘncias e as demais infinitas que te permitiste viver ao meu lado. Pelas brincadeiras, risadas, gargalhadas, pelas bobagens, pelas boas histĂłrias.
Obrigada por ter me presenteado com o maior dos presentes que eu poderia receber. Minha pequena jĂłia.
Eu sigo um caminho difĂcil. Pesado. Cansado. Hoje me sinto sobrecarregada, incapaz. Eu me sinto sĂł. VocĂȘ se foi de mim cedo demais. VocĂȘ foi antes mesmo de eu acordar desse sonho. VocĂȘ morreu, em alguma momento, perto de mim, ali dormindo na mesma cama. VocĂȘ se foi e nunca mais foi o mesmo, eu jĂĄ nĂŁo era mais nada para vocĂȘ. Me restou o silĂȘncio. Do amor lindo que tivemos, dos dias bons e dias ruins, das boas e mĂĄs histĂłrias, dos dias de glĂłria e dias de derrota, dos choros e risos, dos sucessos e fracassos, dos elogios e xingamentos, me restou o silĂȘncio.
Nada me sobrou, eu nĂŁo deveria estar ali. Eu nĂŁo fui o que vocĂȘ queria que eu fosse, vocĂȘ jĂĄ sabia que eu iria embora. VocĂȘ nĂŁo me avisou que nada mais havia sobrado para mim. VocĂȘ me tirou o direito de ter de vocĂȘ alguma lembrança boa. De vocĂȘ eu ganhei, para o resto dos meus dias, o silĂȘncio. E se naquele dia, no dia em que eu te disse "obrigada por tudo", o aviĂŁo nĂŁo tivesse pousado? E se naquele dia, em que eu esperei qualquer palavra sua, eu tivesse ficado ao seu lado? Teria me restado apenas o silĂȘncio?
VocĂȘ acha que a culpa de tudo,Ă© minha. VocĂȘ acha que quem saiu fui eu. VocĂȘ acha que eu tomei a decisĂŁo. Mas estava tudo em suas mĂŁos. O tempo todo. VocĂȘ me acostumou com sua ausĂȘncia, vocĂȘ me acostumou a sempre ter saudade, e nunca ter presença. VocĂȘ me mostrou que eu nĂŁo era bem-vinda, que eu nĂŁo deveria estar ali. VocĂȘ me fez acreditar que era um estorvo, um incĂŽmodo. VocĂȘ tenta me culpar, mas eu estava tentando ter vocĂȘ de volta. VocĂȘ nĂŁo era mais meu, me pergunto, serĂĄ que um dia chegou a ser?
Das palavras que vocĂȘ me dedicou, quantas usou para se convencer que gostava de mim? Das noites que sonhava com a nossa famĂlia, quantas realmente vocĂȘ planejou ter uma famĂlia comigo? Dos dias em que se esforçou para me surpreender como companheiro, quantos foram sinceros? Quantos dias foi forçado? Quantas vezes disse o que eu queria ouvir, para me convencer que vocĂȘ era a pessoa certa? No que mais eu devo acreditar, meu caro silĂȘncio? Eu, dona do laço da sua alma, Akai Ito, hoje falo com teu silĂȘncio. SilĂȘncio.
Eu mereci. SilĂȘncio.
Eu acreditei. SilĂȘncio.
Eu apostei. SilĂȘncio.
Te segui na vida que escolhestes. SilĂȘncio.
Eu estive lĂĄ. Me doei. Me importei. Escrevi. Cuidei de vocĂȘ. Abracei vocĂȘ. Ouvi vocĂȘ. Amei vocĂȘ. Eu amei vocĂȘ.
Ganhei, silĂȘncio.
Mas na partida eu resolvi te agradecer. Hoje eu estou forte. Hoje eu estou deprimida. Mas estou forte. VocĂȘ me mostrou o que eu nunca mais vou querer para minha vida, confiar, acreditar, viver, partilhar, a vida com uma fantasia, com uma mentira. Hoje vocĂȘ me provou que dĂĄ para viver a vida dentro de um teatro, com falas ensaiadas, belas, refinadas, com palavras escolhidas de um dicionĂĄrio de palavras que caĂram em desuso, para que o outro tenha a impressĂŁo de que o significado dela seja para fora deste plano terreno. Coisa de alma. Hoje vocĂȘ me mostrou, provou, que vocĂȘ consegue o que quer.
Estou tocando a vida, com a minha primeira filha, terei mais no futuro, terei alguĂ©m tambĂ©m, terei a mim mesma numa versĂŁo muito mais agradĂĄvel. A vida me guarda muita felicidade, eu sei que mereço. NĂŁo o silĂȘncio, desse eu me desfaço. Quero distĂąncia.
SilĂȘncio.












