Mulher
Tornar-se-á mulher aos dezoito, disse a mãe da menina, cuja vida jamais fizera jus à própria idade.
Não me tornei mulher, afinal – pensou a garota -, mas só faço mulherice. Já se viu ser coisa de menina cuidar de um bebê? Lavar? Passar? Vender na feira em troca de um troco miserável, convertido em surras por não ter adquirido o bastante?
Ora, vai entender essa coisa de maioridade. Grande coisa! Como se dois números fossem capazes de ditar as regras. São indubitavelmente inerentes a elas – conclui a garota.
Ela vira-se para encarar o fim da tarde.
Olha pela janelinha minúscula da cozinha enquanto o guisado – arduamente conquistado – assa sob a lenha. Lá fora, a liberdade: aquela que grita dentro do seu peito, aquela que está apenas a uma janela de distância.
Ela poderia muito bem pular a janela, tal como havia pulado dos onze aos dezoito, como atravessava o próprio quintal. Não precisou de anos de espera: a vida veio até ela antecipadamente, sem pedir permissão. Ela não tivera escolha senão aceitar.
Mas, decerto, não há como aceitar algo do qual não se tem escolha, não é mesmo? Aceitação não é bem a palavra; resignação, talvez. Resignada a viver a vida para a qual fora concebida e da qual fora encarregada. Até que a sua ampla liberdade lhe batesse à porta, a apenas uma janela de distância, como suplicava em preces inaudíveis.
De menina para mulher, tantas coisas lhe tornaram adulta. De todas, exceto por uma não foi favorecida: a liberdade. A dádiva de dois números que foi substituída pela inglória, também pertencente a eles. Mas ela não os alcançou, de fato; a vida apenas lhe trouxe, em uma mala de viagem, as responsabilidades do seu futuro. Talvez porque não houvesse qualquer futuro.
Talvez porque o futuro seja isto: viver o agora arrastado por ele, provando ser capaz de chegar até o final.
Se final houver.
A menina – hoje mulher, carregando outra de si no ventre – segue encarando a janela, que agora parece mais distante, menor, mais impossível de atravessar com tantas bagagens, tantos pesos.
Mas ela ainda pode ver o lado de fora.
E considera isso o bastante.














