Acordei, tateei pelo celular em cima da cama e acendi a tela. Desci a barra de rolagem atĂ© onde sua conversa estava e me dei conta de que as minhas mensagens continuavam sem resposta. Infelizmente, nĂŁo fora a primeira vez que fiz isso na Ășltima semana, nem no Ășltimo mĂȘs. Tenho sonhado com vocĂȘ numa frequĂȘncia irritante, devo dizer. Embora eu consiga te expulsar da minha mente no decorrer do dia, durante a noite fico vulnerĂĄvel, vocĂȘ se esgueira pelo meu inconsciente e mostra o quanto as coisas ainda estĂŁo em aberto. Todos os sonhos sĂŁo ridiculamente simples, ou vocĂȘ me liga e eu nĂŁo atendo, ou esbarro em vocĂȘ no supermercado ou chego na faculdade e, surpresa (!), lĂĄ estĂĄ vocĂȘ sentado em uma das cadeiras do canto sala de aula. Tudo isso Ă© redondamente improvĂĄvel de acontecer na realidade, mas tĂŁo simples. SĂŁo coisas que deveriam acontecer se tudo estivesse dando certo. A gente deveria se ver rotineiramente e os meus sorrisos deveriam ser mais bem distribuĂdos do que bom dia em grupo da famĂlia. No entanto, a vida Ă© um pouco mais complicada do que isso e cada dia que passa tenho a certeza de estou cultivando algo sozinho se tornando mais absoluta. Preciso dizer que sou uma pessoa facilmente impressionĂĄvel e que me apeguei demais a algo que, provavelmente, nĂŁo passou de diversĂŁo. Mas o que posso fazer se nĂŁo tenho bagagem o suficiente para reconhecer um beco sem saĂda quando estou de frente pra ele? Preciso entrar, andar alguns minutos e dar de cara com a parede para aprender. Tenho construĂdo uma ideia de que alguns conhecimentos da vida a gente sĂł adquire empiricamente ou de forma um pouco mais direta: vocĂȘ sĂł aprende depois de quebrar a cara. EntĂŁo, eu estou aprendendo muito bem, devo dizer. TambĂ©m acho importante ressaltar que nĂŁo sinto um pingo de mĂĄgoa por causa da situação toda, eu sei que sou o errado da histĂłria e nem tenho direito de me chatear com vocĂȘ. Eu criei a expectativa e sou completamente responsĂĄvel pelo sofrimento que vem junto com ela. Mas a questĂŁo nem Ă© essa. Cada dia que passa eu fico mais feliz com essa histĂłria, mesmo que ela mal se enquadre como romance ou algo assim. Ă que vocĂȘ desencadeou uma sequĂȘncia de primeiras vezes na minha vida e eu sinto que estou amadurecendo, crescendo e me tornando alguĂ©m que sempre quis. Ă como se eu finalmente estivesse crescendo na direção que considero certa e vocĂȘ foi uma bĂșssola que me apontou o caminho e nem se deu conta. E, por isso tenho um carinho enorme por vocĂȘ. Infelizmente, ainda sonho com vocĂȘ e acordo desejando que fosse realidade, mas uma hora vai passar. Sempre passa e vocĂȘ nĂŁo vai ser diferente. No entanto, tenho um pequeno problema em acreditar em pontos finais. Talvez, no futuro, algo se desenvolva entre nĂłs. AtĂ© lĂĄ, o carinho ainda Ă© a nossa realidade.
Com carinho, Narciso. || Mitos de um amor mal sucedido I.















