O aplicativo já estava em modo de suspensão mas foram inúmeras as vezes que me peguei querendo escrever. Eu quis falar sobre como eu me sentia estranho, preso, alheio a mim mesmo e numa rotina que me incomodava. Meses de terapia pareciam não ser suficientes para me elucidar tantas incógnitas quanto ao que me causava tanta insatisfação. Também quis escrever sobre alguém que ainda é uma questão mal resolvida. Ainda desperta coisas que eu não gosto de admitir nem para mim mesmo. Coisas que eu fecho os olhos e as vezes acordo nas madrugadas com um rosto em mente, me perguntando por quê esse fantasma ainda me assola. Eu culpo o calor e a intolerância a lactose, mas minha insônia tem nome e sobrenome. Eu fico preocupado com o castelo de cartas que construi e me pergunto se ele vai cair na minha cabeça, mesmo já morando nele. Eu me sinto sozinho porque me afastei de tudo e todos, mas não me sinto mal por isso. Ninguém vive sozinho e até minha psicóloga sabe que eu não viveria sem ninguém, mas é tão exaustivo lidar com gente. E hoje, na minha volta triunfal para o diário eletrônico, num dos meus escassos momentos de solitude, eu bebo sozinho pela primeira vez. Me embriago para ter clareza sobre todos os pensamentos que tenho medo de confrontar sóbrio.


















