Era uma vez um rapaz que morava no Condado de Mayo. Seu nome era Guleesh. O mais belo monte fortificado ficava a pouca distância do frontão de sua casa e ele tinha o hábito de sentar-se sobre o belo barranco de grama ao seu redor. Uma noite, apoiado sobre o frontão da casa, olhava para o céu, observando a bela lua branca por cima de sua cabeça. Depois de ficar nessa posição por algumas horas, disse a si mesmo: “É uma grande tristeza eu não ter ido embora deste lugar. Gostaria de estar em qualquer outro lugar do mundo, mas não aqui. Bom mesmo é ser como você, lua branca”, disse ele, “que fica circulando do jeito que gosta e nenhum homem consegue detê-la. Eu gostaria de ser como você”.
Mal as palavras saíram de sua boca, ouviu um grande barulho como o som de muitas pessoas correndo juntas, falando e rindo, zombando uma das outras. O barulho passou por ele como um redemoinho e ele ficou ouvindo enquanto o som entrava morro adentro.
- Por minha alma, disse, ele – vocês estão muito alegres e eu vou segui-los.
Eram hostes de duendes, apesar de ele não ter se apercebido logo disso e seguiu-os. Lá ele ouviu amúsica dos povos mágicose cada um dos homens gritou o mais alto que podia:
- Meu cavalo, os arreios e a sela! Meu cavalo os arreios e a sela!
- Está aí – disse Guleeshh – meu rapaz, nada mal. Vou imitá-los – e gritou alto como eles.
- Meu cavalo, os arreios e a sela! Meu cavalo, os arreios e a sela!
E no mesmo instante surgiu um belo cavalo com um arreio de ouro e uma sela de prata bem diante dele. Ele saltou para cima do animal e no mesmo instante viu claramente que o monte estava cheio de cavalos e de gente miúda montada neles. Um dos homens disse a ele:
- Vem conosco esta noite, Guleesh?
- Certamente – disse Guleesh.
- Então venha – disse o homenzinho.
E saíram todos juntos, cavalgando como o vento, mais velozes que os mais velozes cavalos que você já viu nas caçadas, mais velozes que a raposa e os cães que a perseguem.
Eles dominaram o frio vento do inverno à sua frente e o vento atrás deles não os dominou. Sem parar a corrida, não fizeram uma única pausa até chegarem à orla do mar. Então cada um deles disse:
- Eia, para cima! Eia, para cima! – e no mesmo instante subiram para o ar e antes que Guleesh tivesse tido tempo de ver onde estava, eles desceram para a terra firme novamente e continuaram a viagem velozes como o vento.
Finalmente pararam e um dos homens perguntou a Guleesh:
- Você sabe onde está agora?
- Não sei não –, disse Guleesh.
- Está na França – disse ele. – A filha do rei da França vai se casar hoje à noite, ela é a mais bela mulher que o sol já viu e precisamos fazer o máximo que pudermos para levá-la conosco, se conseguirmos carregá-la. E você deverá vir conosco para colocarmos a jovem na garupa de seu cavalo e levá-la embora, pois não é conveniente para nós colocá-la sentada atrás dos nossos. Mas você é de carne e sangue e ela poderá se segurar bem em você para não cair do cavalo. Está satisfeito, Guleesh e vai fazer o que estamos dizendo-lhe?
- Por que não estaria satisfeito? – disse Guleesh. – Estou satisfeito, com certeza e tudo o que você me mandar fazer eu farei, sem dúvida nenhuma.
Apearam de seus cavalos. Um dos homens disse uma palavra que Guleesh não entendeu e no mesmo instante eles foram içados. E Guleesh se encontrou, junto com seus companheiros, no interior do palácio. Lá dentro uma grande festa acontecia. Não havia um único nobre ou cavalheiro do reino que não estivesse presente, vestido de cetim e seda, ouro e prata.
A noite estava brilhante como o dia, com todas as luminárias e velas acesas e Guleesh teve que fechar os olhos por causa da claridade. Quando os abriu de novo e olhou em volta, pensou que nunca vira algo tão belo quanto o que estava vendo ali. Havia umas cem mesas espalhadas pelo recinto e cada uma delas estava cheia de comes e bebes, bolos e doces, vinhos e cervejas e todas as bebidas que um homem já viu. Os músicos estavam nas duas extremidades do salão e tocavam a mais doce música que os ouvidos de um homem já ouviram. Havia jovens mulheres e homens no meio do salão, dançando e rodopiando veloz e levemente. Havia muitos jogos e muitas pessoas fazendo graças e rindo, pois uma festa como aquela não acontecia na França havia mais de vinte anos, porque o velho rei não tinha filhos vivos, só aquela filha e ela ia se casar com o filho de outro rei naquela noite.
A festa já durava três dias e na terceira noite ela deveria se casar. Era justamente a noite em que Guleesh e os duendes haviam chegado, esperando, se pudessem, levar consigo a jovem filha do rei.
Guleesh e seus companheiros estavam na extremidade do salão, onde havia um belo altar decorado e dois bispos atrás dele aguardando para casarem a jovem, tão logo chegasse o momento certo. Ninguém conseguia ver os duendes, pois eles haviam pronunciado uma palavra mágica ao entrarem no salão que os deixara invisíveis como se nem estivessem ali.
- Diga-me qual delas é a filha do rei – disse Guleesh, quando começou a se acostumar com o barulho e as luzes.
- Não consegue vê-la ali, diante de você? – perguntou o pequeno homem a quem dirigira a palavra.
Guleesh olhou para o local que o homenzinho apontava com o dedo e ali ele viu a mulher mais adorável que já existiu em todo o mundo, pensou ele. A rosa e o lírio competiam em sua face e não se podia dizer qual deles venceria. Seus braços e suas mãos eram alvos como o cal, sua boca vermelha como um morango maduro, seu pé pequeno e leve como a mão de alguém, seu corpo era esbelto e suave, seu cabelo caia da cabeça em madeixas de ouro, seu vestido era tecido em ouro e prata e a reluzente pedra do anel em sua mão brilhava como o sol. Guleesh ficou quase cego com toda a beleza e a graça que irradiavam dela; mas quando olhou de novo, viu que havia traços de lágrimas em seus olhos e que ela estava chorando.
- Não pode ser – disse Guleesh – que haja tristeza nela, quando todos ao seu redor estão tão alegres e felizes.
- Ela está mesmo triste – disse o homenzinho – pois é contra sua vontade que está se casando; não sente amor pelo homem com quem vai se casar. O rei ia dá-la em casamento há três anos, quando ela tinha somente 15 anos de idade, mas ela disse que era jovem demais e pediu ao pai que esperasse passar mais alguns anos. O rei lhe deu um ano e depois outro, mas não quis lhe dar nem mais uma semana, nenhum dia além disso, pois nesta semana ela completa 18 anos e já é tempo de se casar. Mas de fato – disse ele, torcendo a boca de um jeito horrível -, de fato, ela não vai se casar com nenhum filho de rei, se depender de mim.
Guleesh compadeceu-se muito da jovem senhora quando ouviu isso e partia-lhe o coração pensar que seria necessário para ela casar-se com um homem de quem não gostava ou o que era pior, ter como marido um duende horroroso. Não disse uma palavra, porém não conseguiu deixar de maldizer a má sorte que lhe era destinada, por estar ajudando as pessoas que iriam raptá-la de seu lar e de seu pai. Começou a pensar no que poderia fazer para salvá—la. Mas não pode encontrar o meio:
- Oh! Se eu pudesse ajudá-la e dar-lhe alívio – pensou -, não me preocuparia se vivesse ou morresse, mas não vejo nada que possa fazer por ela.
Ele viu o filho do rei aproximar-se dela e pedir-lhe um beijo, mas ela afastou a cabeça. Então Guleesh ficou com ainda mais pena dela quando viu o rapaz pegar em sua mãozinha suave e branca e a levar para dançar. Enquanto dançavam, rodopiaram perto do lugar em que Guleesh se encontrava e ele pode ver claramente que havia lágrimas em seus olhos.
Quando a dança terminou, o velho rei, seu pai e sua mãe, a rainha, aproximaram-se e disseram que aquele era o momento certo para o casamento, que o bispo estava pronto, que estava na hora de colocarem o anel no dedo da noiva e passarem-na ao seu marido. O rei e a rainha conduziram a jovem pela mão e foram todos juntos até o altar, seguidos pelos nobres e por pessoas importantes.
Quando chegaram perto do altar e se encontravam a não mais de cerca de quatro metros dele, o pequeno duende esticou o pé diante da jovem e ela caiu no chão. Antes que ela fosse capaz de se levantar, ele jogou algo sobre ela, disse algumas palavras e naquele mesmo instante, a donzela sumiu do meio deles. Ninguém conseguia vê-la, pois aquelas palavras haviam-na tornado invisível. O pequeno duende segurou-a e levantou-a por trás de Guleesh. Nem o rei, nem ninguém os viu e lá foram eles através do salão até chegarem à porta de saída.
Oh! Virgem Santíssima! Foi um Deus nos acuda, um turbilhão, gritos, espantos, todos procurando a jovem desaparecida diante dos olhares dos presentes, sem que tivessem visto o que provocara aquilo. Os fugitivos passaram pela porta sem que ninguém os detivesse ou os impedisse, pois ninguém os viu e cada um dos homens disse:
- Meu cavalo, os arreios e a sela!
- Meu cavalo, os arreios e a sela! – disse Guleesh.
No mesmo instante o cavalo estava na sua frente, pronto para ser montado.
- Agora salte para cima, Guleesh – disse o homenzinho –, coloque a jovem na garupa e então iremos embora. O amanhecer não está distante de nós agora.
Guleesh a ergueu até a garupa do cavalo e saltou para cima da sela dizendo:
- Eia, cavalo – e seu cavalo e os outros também começaram a correr até chegarem ao mar.
-Para cima! – disse cada um dos homens.
- Para cima! – disse Guleesh. E no mesmo instante o cavalo subiu e deu um salto nas nuvens, só descendo na Irlanda. Não pararam ali, mas correram até o local em que se encontravam a casa de Guleesh e o monte. E quando estavam quase chegando, Guleesh mudou de direção, pegou a jovem em seus braços e desceu do cavalo.
- Eu evoco e faço o sinal da cruz em você para que seja minha, em nome de Deus! – disse ele.
E ali mesmo, antes que a palavra saísse da sua boca, o cavalo caiu no chão e o que havia dentro dele era na verdade o tirante de um arado, do qual eles haviam feito um cavalo. Todos os outros cavalos também haviam sido feitos desse jeito. Alguns estavam cavalgando velhas vassouras, outros, galhos quebrados e outros ainda talos de cicuta.
Ao ouvirem o que Guleesh dissera, os duendes gritaram:
- Oh! Guleesh, seu palhaço, ladrão, que nenhum bem aconteça a você. Por que você aplicou esse golpe em nós? Mas eles não tinham o poder de pegar a jovem, depois que Guleesh a consagrara para si mesmo.
- Oh! Guleesh, não foi uma boa coisa que você nos fez, nós que fomos sempre tão gentis com você. Que vantagem temos nós agora por termos viajado à França? Mas não se preocupe, seu palhaço, você nos pagará por isso. Acredite, você vai se arrepender. Não conseguirá nada de bom dessa jovem – disse o pequeno homem que falara com ele no palácio antes. E ao dizer isso, aproximou-se dela e lhe deu um tapa na lateral da cabeça.
- Agora, disse ele – ela não vai mais falar. E então Guleesh, que utilidade ela terá para você muda desse jeito? Está na hora de irmos embora, mas juro que vai se lembrar de nós.
Ao dizer isso, estendeu as duas mãos e antes que Guleesh pudesse dar uma resposta, ele e o restante dos duendes haviam desaparecido dentro do monte, fora de sua vista e ele não mais os viu.
Guleesh virou-se para a jovem e disse:
- Graças a Deus eles se foram. Você não prefere ficar comigo em vez de ficar com eles?
Ela não respondeu. “Ainda está perturbada e triste”, disse Guleesh para si mesmo e falou-lhe novamente:
- Temo que você tenha que passar esta noite na casa de meu pai, senhora, e se há algo que eu possa fazer por você, diga-me, eu serei seu criado.
A bela jovem permaneceu em silêncio, mas havia lágrimas em seus olhos e suas faces ficaram pálidas e coradas, alternadamente.
- Senhora – disse Guleesh - diga-me o que você gostaria que eu fizesse agora. Eu nunca pertenci a esse bando de duendes que raptou você. Sou filho de um honesto fazendeiro e fui com eles sem sabe de nada. Se eu conseguir enviá-la de volta a seu pai eu o farei e peço-lhe que agora faça o que quiser de mim.
Ele olhou para sua face e viu sua boca movendo-se como se fosse falar, mas nenhuma palavra saiu dela.
- Não pode ser – disse Guleesh – que você esteja realmente muda. Pois eu não a ouvi falar com o filho do rei no palácio esta noite? Ou será que o demônio realmente fez você ficar muda quando bateu a mão horrorosa em seu maxilar?
A jovem ergueu a suave mão branca e colocou o dedo sobre a língua para mostrar-lhe que perdera a voz e o poder da fala. As lágrimas correram de seus olhos como fontes e os próprios olhos de Guleesh ficaram úmidos, pois mais rude que fosse exteriormente, ele tinha um coração brando e não aguentava ver a jovem naquela aflição.
Começou a pensar no que deveria fazer. Não gostaria de levá-la consigo à casa de seu pai, pois sabia muito bem que não acreditariam nele, na história de que estivera na França e trouxera a filha do rei. Tinha medo de que zombassem da jovem senhora ou a insultassem.
Enquanto pensava no que deveria fazer e hesitava, lembrou-se do padre. “Graças a Deus”, pensou ele, “agora eu sei o que vou fazer, eu a levarei à casa do padre, ele não se negará a hospedá-la e cuidar dela”.
Virou-se novamente para a jovem e disse-lhe que não queria levá-la à casa do pai, mas que vivia no lugar um padre excelente, muito gentil que tomaria conta dela, se ela quisesse ficar na casa dele. Mas se houvesse qualquer outro lugar no qual ela preferisse ficar, ele a levaria até lá. A jovem inclinou a cabeça para lhe mostrar que concordava e o fez entender eu estava pronta a segui-lo a qualquer lugar.
- Então vamos à casa do padre – disse ele. – Ele me deve um favor e fará qualquer coisa que eu pedir. E foram até a casa do padre.
O sol estava quase nascendo quando chegaram à porta. Guleesh bateu com força e mesmo cedo como era, o padre já estava de pé e abriu a porta. Espantou-se ao ver Guleesh e a jovem, pois tinha certeza de que eles tinham vindo para se casar.
- Guleesh, Guleesh, um rapaz tão gentil como você não pode esperar até às dez horas ou até o meio-dia, mas precisa vir aqui a essa hora para se casar, você e sua namorada? Vocês deveriam saber que não posso casá-los a essa hora ou em qualquer caso, não posso casá-los legalmente.
- Mas, oh! – disse ele subitamente ao olhar novamente para a jovem. – Em nome de Deus, quem é você? Quem é ela? Como você a conseguiu?
- Padre – disse Guleesh –, o senhor pode me casa, ou qualquer outra pessoa, se quiser; porém não foi atrás de casamento que vim até aqui agora, mas para lhe pedir, por favor, que hospede em sua casa essa jovem senhora.
O padre olhou para ele como se ele tivesse dez cabeças, mas sem perguntar mais nada, convidou-o a entrar e quando os dois entraram, ele fechou a porta, trouxe-os à sala de visitas e fez com que se sentassem.
- Agora, Guleesh – disse ele –, conte-me a verdade, quem é essa jovem senhora? Você realmente perdeu a razão ou está só brincando comigo?
- Não estou dizendo uma única palavra de mentira nem brincando com o senhor – disse Guleesh –; mas foi do palácio do rei da França que eu trouxe essa jovem senhora. Ela é a filha do rei da França.
Então ele começou a contar a história toda ao padre e este ficou tão surpreso que não conseguiu evitar interrompê-lo de vez em quando ou bater palmas.
Quando Guleesh falou sobre o que tinha visto, que a jovem não estava satisfeita com o casamento que aconteceria no palácio e que os duendes o interromperam, as faces da jovem ficaram coradas e mais do que nunca ele teve certeza de que por pior do que ela estivesse agora, preferia estar assim do que ser a esposa do homem que odiava.
Quando Guleesh disse que seria muito grato ao padre se ele a mantivesse em sua própria casa, o gentil sacerdote disse que o faria enquanto Guleesh assim o quisesse, mas que não sabia o que deveriam fazer com ela, porque não tinham meios de enviá-la de volta ao seu pai.
Guleesh respondeu que sentia o mesmo e que não sabia o que poderia fazer além de permanecer quieto até que encontrasse alguma oportunidade de fazer algo melhor. Então combinaram que o padre diria às pessoas que ela era filha de um irmão seu que viera visitá-lo, vindo de outro distrito e que ele contaria a todos que ela era muda e faria o possível para mantê-los longe dela. Contaram à jovem o que tencionavam fazer e com o olhar ela mostrou que concordava com eles.
Então Guleesh foi para casa e quando seus familiares perguntaram onde estivera ele disse que adormecera aos pés do fosso e passara a noite ali.
Os vizinhos do padre ficaram muito espantados com a jovem que chegara à sua casa tão repentinamente, sem que ninguém soubesse de onde ela viera, ou o que viera fazer. Algumas pessoas diziam que as coisas não eram como deveriam ser e outras ainda que Guleesh não era mais o mesmo homem de antes e que aquela história era muito estranha, pois ele ia todos os dias à casa do padre e o padre tinha um enorme respeito por ele, coisas que eles não conseguiam explicar.
De fato era verdade, pois era raro o dia em que Guleesh não fosse à casa do padre para conversar com ele e todas as vezes em que ia lá esperava encontrar a jovem bem novamente, capaz de falar. Mas, oh! Ela permanecia muda e silenciosa, sem sinais de alívio ou cura. Como não tinha outros meios de falar, realizava uma espécie de conversa entre ela e ele, movendo as mãos e os dedos, piscando os olhos, abrindo e fechando os olhos, abrindo e fechando a boca, rindo e sorrindo e usando milhares de outros sinais, por isso não demorou muito para que se entendessem muito bem.
Guleesh ficava sempre pensando como poderia enviá-la de volta ao seu pai, mas não havia ninguém que pudesse ir com ela e ele mesmo nem sabia que caminho deveria tomar, pois nunca estivera fora de seu país antes da noite em que a trouxera consigo. O padre também não sabia das coisas mais do que ele, mas Guleesh pediu-lhe que escrevesse três ou quatro cartas ao rei da França e que as entregasse a compradores e vendedores de mercadorias que costumavam viajar de um lugar a outro, atravessando o mar. Mas todas se perderam e nunca uma delas chegou às mãos do rei.
Assim continuaram por muitos meses. Guleesh estava cada vez mais apaixonado por ela e a cada dia que passava ficava mais claro para ele e o padre que ela também gostava dele. O repaz temia muito que caso o rei ficasse sabendo do local em que se encontrava a filha ele a tomasse de volta. Então pediu ao padre que não escrevesse mais e que deixasse a questão nas mãos de Deus.
Assim passou-se um ano, até o dia em que Guleesh, deitado sobre a grama, no último dia do último mês do outono, começou a pensar novamente em tudo o que lhe acontecera desde o dia em que atravessara o mar com os duendes. Lembrou-se então de que isso acontecera numa noite de novembro em que se apoiava no frontão da casa e vira chegar aquele redemoinho com os duendes dentro dele. Então disse a si mesmo: “Hoje é a noite de novembro de novo, vou ficar no mesmo local em que estive no ano passado para ver se aquela boa gente aparece de novo. Talvez eu possa ver e ouvir algo útil para mim e possa devolver a fala a Mary” – este era o nome com que ele e o padre chamavam a filha do rei, pois nenhum deles conhecia seu nome de verdade. Então ele contou ao padre qual era a sua intenção e este lhe deu a sua benção.
E assim Guleesh foi até o velho monte quando chegou a noite e ficou ali com o cotovelo apoiado numa velha rocha cinzenta, esperando chegar a meia-noite. A lua subia no céu lentamente; era como um outeiro de fogo por trás dele. Havia uma névoa branca que subia dos campos de grama e de todos os locais úmidos, através da frescura da noite, depois do grande calor do dia.
A noite estava clara como um lago quando não há brisa para encrespar a água, formando ondas e não se ouvia nenhum som além do zumbido dos insetos que passavam de tempos em tempos, ou o súbito grito dos gansos selvagens ao passarem voando de um lago a outro a meia milha no ar sobre sua cabeça, ou o agudo assobio da tarambola dourada, subindo e deitando, deitando e subindo, como costuma fazer nas noites calmas. Havia milhares e milhares de estrelas brilhantes sobre sua cabeça e caía uma leve geada que deixou a grama sob seus pés esbranquiçada e quebradiça.
Ele ficou lá, de pé, por uma hora, duas horas, três horas. A geada aumentou muito a ponto de se ouvirem as gotas congeladas sob seus pés quando se mexia. Ficou refletindo e achou finalmente que os duendes não viriam naquela noite, que seria bom que ele voltasse, quando ouviu um som ao longe vindo em sua direção. E já no primeiro momento reconheceu o que era.
O som aumentou. No início, era como o choque das ondas numa praia rochosa e depois como uma tempestade barulhenta no topo das árvores. E então o redemoinho passou veloz para dentro do monte, com os duendes dentro dele. Tudo aquilo passou tão depressa que ele até perdeu o fôlego, mas logo voltou a si e apurou os ouvidos para escutar o que eles iriam dizer.
Mal tinham se reunido no monte quando todos começaram a gritar, vociferar e falar entre si. Então cada um deles gritou:
- Meu cavalo, os arreios e a sela! Meu cavalo, os arreios e a sela!
Guleesh, tomando coragem, falou tão alto quanto qualquer um deles:
- Meu cavalo, os arreios e a sela! Meu cavalo, os arreios e a sela!
Mas antes que as palavras tivessem saído de sua boca, outro homem falou:
- Ora, Guleesh, meu rapaz, você está aqui conosco de novo? Como está se saindo com sua mulher? Não adianta chamar seu cavalo esta noite. Aposto que não vai conseguir usar aquele seu truque de novo. Foi um bom truque aquele que você nos aplicou no ano passado, não foi?
- Foi sim – disse outro homem, - mas ele não o fará de novo.
- Ele não é mais aquele bom rapaz!
- Levar uma mulher que nunca disse a ele mais do que “Como vai?” desde aquela época no ano passado! – disse um terceiro.
- Talvez ele goste de ficar olhando para ela – disse outra voz.
- E se o tolo soubesse que há uma erva crescendo junto à sua porta e que se ele a ferver e der à jovem ela poderá ficar curada? – disse outra voz.
- É verdade. Ele é um tolo. Não fique se preocupando com ele, vamos embora.
- Vamos deixar o idiotado jeito que está.
Dizendo isso, eles subiram no ar e saíram no meio de um turbilhão do mesmo modo como haviam chegado. Deixaram o pobre Guleesh ali, de pé, onde o haviam encontrado, com os dois olhos esbugalhados olhando para eles atônito.
Ele não ficou muito tempo ali. Pôs-se de volta, pensando em tudo o que tinha visto e ouvido, imaginando se haveria mesmo uma erva junto à porta que pudesse devolver a fala à filha do rei. “Não pode ser”, disse ele a si mesmo, “que contassem isso para mim se a erva tivesse mesmo esse poder. Mas talvez o duende não tenha se dado conta quando deixou as palavras escaparem de sua boca. Assim que o sol nascer, vou procurar bem para ver se há alguma planta crescendo ao lado da casa, algo que não seja cardo ou labresto.
Então foi para casa e mesmo cansado como estava, não pregou o olho até o sol nascer de manhã. Levantou-se e a primeira coisa que fez foi sair e procurar bem no meio do capim em volta da casa, tentando encontrar qualquer erva que não conhecesse. E de fato não procurou muito tempo, quando notou uma grande e estranha erva crescendo justamente ao lado do frontão da casa.
Foi até o local e observou atentamente. Viu que havia sete pequenos ramos saindo do talo e sete folhas crescendo em cada um desses ramos e que havia uma seiva branca nas folhas. “É espantoso”, disse a si mesmo “que eu nunca tivesse notado essa erva antes. Se houver mesmo algum poder numa erva, com certeza deve estar dentro de uma erva estranha como essa”.
Ele pegou sua faca, cortou a planta e levou-a para casa. Tirou as folhas, cortou o talo e uma seiva espessa e branca saiu dela, como a seiva de um cardo quando é macerado, só que a seiva dessa erva era mais como um óleo.
Colocou-o numa pequena caçarola com um pouco de água e pôs no fogo até a água ferver, pegou uma xícara, encheu-a até a metade com o preparo elevou-o até à própria boca. Então pensou que talvez pudesse ser um veneno e que a boa gente estaria só tentando-o para que se matasse com esse truque ou que matasse a jovem sem querer. Colocou a xícara de volta, pegou algumas gotas com as pontas dos dedos e levou à boca. Não era amargo, de fato, tinha até um gosto doce e agradável. Criou coragem e tomou logo um gole, depois outro tanto de novo e não parou até ter bebido metade da xícara. Depois disso ele adormeceu e só acordou à noite sentindo muita fome e muita sede.
Teve que esperar até o dia nascer, mas estava determinado, assim que acordasse de manhã, a ir ao encontro da filha do rei e lhe dar a bebida feita com a seiva da erva.
Tão logo levantou de manhã, foi à casa do padre com a bebida na mão. Nunca se sentira tão animado e valente e de espírito tão leve como naquele dia. Tinha quase certeza de que fora aquela bebida que o deixara tão alegre.
Quando chegou, encontrou o padre e a jovem senhora preocupados, imaginando por que ele não viera visitá-los nos últimos dois dias.
Guleesh contou-lhes todas as novidades, disse que tinha certeza de que aquela erva tinha poderes curativos e que não faria mal a jovem, pois ele mesmo a provara e lhe fizera bem. Fez com que ela a provasse, insistindo e jurando que não lhe faria mal. Estendeu-lhe a xícara e ela bebeu metade do preparado. Depois caiu sobre a cama e adormeceu profundamente. Não acordou até o dia raiar.
Guleesh e o padre ficaram sentados junto dela a noite toda esperando que acordasse, aflitos entre a esperança e a desesperança, entre a expectativa de salvá-la e o medo de fazer-lhe mal.
Finalmente ela acordou, quando o sol já se encontrava na metade de seu caminho através dos céus. Ela esfregou os olhos e parecia alguém que não sabia muito bem onde estava. Pareceu espantada ao ver Guleesh e o padre junto dela no quarto e sentou-se, esforçando-se para organizar seus pensamentos.
Os dois homens estavam muito ansiosos esperando para ver se ela falaria ou não falaria. Depois de permanecerem silenciosos por alguns minutos, o padre perguntou:
E ela respondeu:- Dormi sim, obrigada.
Assim que Guleesh a ouviu falar, soltou um grito de alegria, correu até ela e caiu de joelhos, dizendo:
- Mil agradecimentos a Deus que lhe devolveu a fala. Senhora do meu coração, fale novamente comigo.
A jovem lhe respondeu dizendo que sabia que fora ele quem preparara aquela poção e dera a ela para beber, que sentia grata a ele, de coração, por toda a gentileza que lhe demonstrara desde o primeiro dia em que chegara à Irlanda e que ele poderia ter certeza de que nunca o esqueceria.
Guleesh estava pronto para morrer de satisfação e prazer. Então trouxeram-lhe alguma comida. Ela comeu com muito apetite, estava feliz e alegre e não parou de falar com o padre enquanto comia.
Depois disso, Guleesh voltou para sua casa, se esticou na cama e adormeceu de novo, pois a força da erva não havia se esgotado ainda. Ele passou mais um dia e uma noite dormindo. Quando acordou, voltou para a casa do padre e descobriu que a jovem estava do mesmo jeito, adormecida desde o momento em que ele deixara a casa.
Entrou no quarto com o padre e ficaram observando-a até ela acordar pela segunda vez, voltando a falar mais do que nunca e deixando Guleesh muito feliz. O padre colocou a comida na mesa de novo e eles comeram juntos. Depois disso Guleesh habituou-se a ir até a casa do padre dia após dia. A amizade entre ele e a filha do rei cresceu, pois ela não tinha com quem falar a não ser com Guleesh e o padre, mas ela preferia Guleesh.
E então eles se casaram, tiveram uma bela festa de casamento e não houve mais preocupações, nem doenças, nem tristezas, nem adversidades, nem infortúnios na vida deles até a hora de suas mortes.