Todo círculo de mulheres é tão curativo quanto perigoso
sobre as razões para a criação do grupo voluntário de articulação de mulheres botão de alerta no território serra grande em Uruçuca, sul da bahia dos mistérios
Acordei de uma noite agitada, tudo o que vivenciei naquele momento esteve presente em meus pensamentos durante a noite e também durante essa segunda-feira. Para além do caso em si, desafiador e terrível, sinto que esse encontro alterou um tanto a minha realidade.
Tantos rostos novos e desconhecidos habitaram uma experiência amplamente fora do ordinário que nos acostumamos a viver, sobretudo em tempos de apartações e individualismos motivados por uma época cáustica e sufocante de sobreposições nocivas entre pertencer a uma comunidade e responder a uma sociedade.
Os dias vão passar e o amortecimento da docilização que se consome diariamente vai arrefecer esses ânimos mesmo à nossa revelia. Não deveria ser assim. Estamos e não estamos no mesmo lugar, eu sei. As realidades são muitas e tão diversas. Mas o desejo da interferência, do nos sabermos umas das outras, de onde vem? Esse impulso de criar conexão por pura empatia, como é que desarma?
Como negar que também é minha essa pauta? Depois de ter o meu próprio quinhão de marcas e cicatrizes, aprendi a fazer da raiva o combustível para traçar o caminho que consegui desenvolver no horizonte, onde passei de vítima à revoltada, depois rebelde e só então revolucionária. É um trajeto inicialmente confuso, incerto, tortuoso e oscilante porque ninguém deixa de ser vítima quando se enxerga na revolução. Toda vez é uma primeira vez, toda vez o coração dispara, a garganta aperta, os dentes se trancam.
A percepção de uma outra irmã vivendo um mesmo momento que você sabe que não deveria existir, em qualquer parte dessa corrente de elos contínuos e incendiários, sempre me joga na cara que a ficção ficou a mil quilômetros da realidade. É tudo real, cada segundo de cada relato, cada testemunho, cada compartilhamento. É sempre muito real.
Minha cabeça reverbera muitas pontas e portas a partir desse encontro supostamente caótico e sabidamente doloroso de encarar a violência tão-tão próxima, esfregada na pele, que causa desespero e angústia sim, sem dourar pílulas desnecessárias, e que também nos levanta o sentido de proteção, as necessidades de compreender como não se deixar enredar pelo medo e ao mesmo tempo não estar à deriva diante de situação tão complexa, cheia de lados, prenhe de pontos de vista e ainda assim, retumba a vontade da justiça.
E a justiça não se faz pelas vias do sistema patricapitalista, todos os atos são atos de linguagem, toda linguagem parte da nossa capacidade de simbolização. A justiça se faz pelo conhecimento de si, do mundo, do movimento, o conhecimento que se transforma em leitura desse mundo, leitura que se transforma em ação, que nos faz seguir adiante e mais fortes por termos a lucidez de saber mais do que sabíamos outrora.
Todo círculo de mulheres carrega em si o broto, o botão da sagrada retribuição, é tão curativo quanto perigoso, mulheres tendo ideias, acordando mitocôndrias, ouvindo sopros atrás das orelhas, representando a sabedoria que perfuma o ar de nossos líquidos adensados pela lua.
Não era uma lua à toa, a noite de 9 de outubro de 2022 era de marco lunar, plenilúnio, ápice da derrama, clímax que abre portais, lua cheia de intenções cardeais, lua plena em áries, signo primeiro que irrompe em coragem, que guerreia pelo Amor.
Como desver ou desouvir tudo o que presenciamos naquele espaço? Como seguir ilesas sabendo da dor de uma irmã? Audre Lorde, sábia guia, disse uma vez e ainda sigo imantada por suas palavras. "Não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas." Estamos todas em teia e esse balanço, essa tessitura, é tão desapercebida por obstáculos sociais que não posso deixar de tomar mais um gole de fúria.
Quando seremos livres nessa sociedade que se sustenta em nosso adoecimento? Em meu corpo sagrado e aberto, quero viver bem agora, não depois, não em um utópico dia, não em uma recompensa absurda. Quero ser livre e inteira agora. Não é um jogo mental, não é um mantra abstrato, eu quero a verdade dos sentidos pois só há uma vida pra viver.
Quero continuar, quero permanecer, quero agir, quero incendiar, quero a justiça nos olhos de todas nós. Juntas podemos tanto e jamais saberemos se não nos permitirmos conhecer as nossas verdades sem docilização, sem socialização, sem fingimentos, sem apagamentos, sem hipocrisias, sem autoilusões, na real nua e crua do brilho de nossos espelhos internos mais abissais.
Em instantes entrarei em Gira e algo posso prometer. A cada desatar, prece, voleio, rodopio, levarei e lembrarei daquela singela noite de domingo onde vinte e cinco mulheres precisaram erguer vozes e abrir olhos, precisaram se acender. Uma vez despertas, que possamos permanecer acordadas.
A Vontade nunca cessa. O Trabalho nunca termina.
.xxx.