Hoje é um daqueles dias em que minha garota está se sentindo totalmente inútil. Claro que não gosto de chamá-la como "minha garota" porque na verdade ela não me pertence e eu odeio o fato de ela ser biologicamente uma garota linda. Mas, enfim. É exatamente nesses dias que eu me sinto ainda mais ativo, e temos que ter paciência para lidar com os conflitos.
Não sou só uma voz na cabeça de alguém, sou o fragmento de um corpo que, infelizmente não existe. Ela toma banho mais cedo para disfarçar o tédio. Passa o sabonete em barra pelo corpo todo e depois deixa a água quente cair. Ela se deita também, encolhida no box do banheiro, abraçando os joelhos e sentindo o próprio aroma. Nesse momento, é quando eu, ou ela, ou nós, normalmente tentariámos uma conexão, mas não hoje. Hoje existem preocupações da vida acadêmica, amores corrompidos e ansiedades atrapalhando a luxúria. Então, usamos a toalha como tapete e deitamos no chão, de bruços. Eu percorro o nosso corpo com as mãos, cada curva perfeitamente acinturada, gotículas de água desenhando sua pele cor-de-jambo. Não estou olhando, só estou sentindo.
É um corpo que eu queria que fosse meu. Há tempos, pensava em modificá-lo. Tinha ódio, tinha inveja, mas esses são sentimentos que eu já combati. Hoje, eu só queria que existisse um meio termo, um corpo intersexual que pudesse abrigar a nós dois, sem conflitos. Algo que pudesse saciar o meu maldito complexo de castração. Desde a infância, ela me deixa colocar coisas dentro da calcinha. Me deixa ser um garoto por alguns instantes. Mas não é o suficiente. Porque nunca posso ser eu mesmo quando atingimos a libido. Nunca posso ser eu mesmo no momento em que deveria, e provavelmente por isso, o momento nunca mais vai acontecer. Exceto que alguém seja confiável obstante para me aceitar, e ignorar, e aceitá-la, e por fim, amá-la.
Sem golpes de faca ou viagens interestaduais.