Tudo que VocĆŖ Precisa Saber Sobre o Quinhentismo
Resumo Completo: CaracterĆsticas, Principais Autores, Obras e Dicas para o ENEM
Quando falamos em literatura brasileira, Ć© quase automĆ”tico pensarmos em nomes como Machado de Assis, Clarice Lispector ou Carlos Drummond de Andrade. Mas antes de qualquer um desses gigantes existir, houve um momento fundacional ā o instante em que a palavra escrita comeƧou a registrar a experiĆŖncia de um território que ainda nem se sabia ser um paĆs. Esse momento Ć© o Quinhentismo, o primeiro perĆodo da nossa literatura, e Ć© sobre ele que vamos conversar hoje.
O Que Foi o Quinhentismo?
O Quinhentismo corresponde Ć produção literĆ”ria escrita no Brasil (ou sobre o Brasil) durante o sĆ©culo XVI, entre o descobrimento em 1500 e o final daquele sĆ©culo. O nome vem justamente do "quinhentos", referĆŖncia aos anos 1500. Ć importante entender uma coisa desde jĆ”: essa nĆ£o era uma literatura no sentido que conhecemos hoje, com preocupação estĆ©tica, ficção elaborada ou intenção artĆstica consciente. Era, antes de tudo, uma literatura de carĆ”ter informativo e religioso, escrita por europeus ā principalmente portugueses ā que chegavam a uma terra completamente nova e precisavam descrevĆŖ-la, catalogĆ”-la e, no caso dos religiosos, convertĆŖ-la.
Por isso, os estudiosos costumam dividir o Quinhentismo em duas grandes vertentes: a literatura de informação e a literatura de catequese. Vamos explorar cada uma.
Literatura de Informação
A literatura de informação reĆŗne os textos escritos pelos viajantes, exploradores e cronistas que vinham em expediƧƵes portuguesas e precisavam relatar Ć Coroa o que encontravam nessas terras recĆ©m-descobertas. Eram, essencialmente, documentos administrativos, relatos de viagem e descriƧƵes geogrĆ”ficas e etnogrĆ”ficas ā nĆ£o havia intenção literĆ”ria, mas hoje lemos esses textos como os primeiros registros escritos sobre o Brasil.
O exemplo mais emblemĆ”tico, e praticamente o marco zero da nossa literatura, Ć© a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500 e endereƧada ao rei Dom Manuel I. Nela, Caminha descreve com riqueza de detalhes a chegada da frota de Cabral, a paisagem, a fauna, a flora e principalmente os indĆgenas que habitavam a regiĆ£o ā seus costumes, corpos, comportamentos, sempre sob o olhar maravilhado (e tambĆ©m interessado) do europeu que via ali uma terra "de muita boa aguadura" e um povo que ele imaginava fĆ”cil de catequizar.
AlƩm de Caminha, outros nomes importantes dessa vertente incluem:
Pero de MagalhĆ£es GĆ¢ndavo, autor de Tratado da Terra do Brasil e História da ProvĆncia de Santa Cruz, que descreveu com detalhes a geografia e os costumes locais.
Gabriel Soares de Sousa, com o Tratado Descritivo do Brasil, um verdadeiro inventƔrio das riquezas naturais da colƓnia.
Pero Lopes de Sousa, com seu diÔrio de bordo, o DiÔrio de Navegação.
Esses textos compartilham um traƧo em comum: o chamado olhar edĆŖnico. Os europeus enxergavam o Brasil como um paraĆso terrestre, uma terra exuberante, fĆ©rtil e cheia de promessas ā uma visĆ£o que, nĆ£o por acaso, servia muito bem aos interesses de colonização e exploração portuguesa.
Literatura de Catequese
JĆ” a literatura de catequese tem um propósito bem diferente: converter os povos indĆgenas ao catolicismo. Ela foi produzida majoritariamente por padres jesuĆtas, que chegaram ao Brasil a partir de 1549 com a missĆ£o de evangelizar a população nativa e, de quebra, tambĆ©m educar os colonos.
O grande nome dessa vertente Ć©, sem dĆŗvida, Padre JosĆ© de Anchieta, considerado o primeiro grande escritor da literatura brasileira. Anchieta escreveu autos teatrais, poemas e cartas com fins didĆ”ticos e religiosos, muitas vezes misturando portuguĆŖs, espanhol, latim e atĆ© tupi para conseguir se comunicar e catequizar os indĆgenas de forma mais eficaz. Sua obra mais conhecida Ć© o Auto de SĆ£o LourenƧo, uma peƧa de teatro catequĆ©tico.
Outro nome fundamental Ć© o Padre Manuel da Nóbrega, autor do DiĆ”logo sobre a ConversĆ£o do Gentio, um texto que discute justamente as estratĆ©gias e os desafios da catequização dos povos originĆ”rios ā revelando, entre linhas, bastante sobre a mentalidade colonizadora da Ć©poca.
Vale destacar tambĆ©m as famosas cartas jesuĆticas, trocadas entre os padres no Brasil e seus superiores na Europa, que funcionavam como relatórios de progresso da missĆ£o catequĆ©tica, misturando fĆ©, observação etnogrĆ”fica e, claro, a visĆ£o de mundo eurocĆŖntrica tĆpica do perĆodo.
Por Que Estudar o Quinhentismo Ainda Importa
Pode parecer, Ć primeira vista, que o Quinhentismo Ć© só um capĆtulo burocrĆ”tico que a gente precisa vencer nos livros de literatura antes de chegar Ć s partes "boas". Mas esses textos sĆ£o muito mais do que isso: sĆ£o o registro do primeiro encontro (e tambĆ©m do primeiro choque) entre culturas completamente diferentes. Eles mostram como a colonização comeƧou nĆ£o só pela forƧa, mas tambĆ©m pela palavra ā pela forma como o europeu nomeou, descreveu e interpretou (ou melhor, impĆ“s sentido a) uma terra e um povo que jĆ” tinham sua própria história.
Ler o Quinhentismo hoje, com um olhar crĆtico, Ć© uma oportunidade de perceber como esses relatos moldaram (e ainda moldam) a forma como pensamos a identidade brasileira ā e tambĆ©m de questionar as ausĆŖncias: as vozes indĆgenas que nĆ£o escreveram essas cartas, mas que estavam lĆ”, sendo descritas, classificadas e catequizadas por outros.
Por isso, muitos livros didĆ”ticos preferem falar em "Quinhentismo" como um marco cronológico e nĆ£o como uma escola, reservando o termo "escola literĆ”ria" para movimentos que de fato tinham um programa estĆ©tico ā o que só vai acontecer, na literatura brasileira, a partir do Barroco.
Em Resumo
O Quinhentismo nĆ£o tem grande valor estĆ©tico ā e isso estĆ” bem estabelecido entre os estudiosos ā, mas seu valor histórico e documental Ć© imenso. Ele nos conta, com as palavras de quem chegou, como o Brasil comeƧou a ser narrado. E entender essa origem Ć© essencial para qualquer pessoa que queira compreender de verdade a trajetória da nossa literatura, do Barroco atĆ© os dias de hoje.

















