Violência na Copa 2026 ⚽️
Por Fátima Conti, em diálogo com Deep 🐋
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🐧 A Copa de 2026, a copa do Medo, da Vergonha, da Exclusão começou, e a imprensa tem usado termos como "racismo, xenofobia e elitismo" para descrever o início do evento, pois constatou-se:
Hostilidade com delegações: A delegação de Senegal foi inspecionada "dos pés às cabeças" assim que desembarcou. A do Uzbequistão foi revistada por cães farejadores. A seleção do Irã teve vistos negados para 15 membros, e o árbitro somali contratado pela Copa, Omar Artan, foi impedido de entrar no país.
Sombra do ICE: A atuação dos agentes de imigração (ICE) e a política de imigração de Trump seguem afastando torcedores. Um relatório de ONG aponta que 17 pessoas ligadas ao futebol nos EUA foram detidas desde o início das ações, e uma pesquisa mostrou que 65% dos americanos são contra a presença desses agentes nos estádios. Um comunicado de mais de 120 entidades alertou os visitantes sobre riscos de prisão e deportação.
💰 Preços abusivos e as consequências
A ganância continua assustando o torcedor. As reservas de voos da Europa para a Copa caíram 3,8%, e a Associação de Hotéis de Nova York reduziu sua previsão de receita em 60%. A situação é tão grave que alguns hotéis, como o New York Hilton Midtown, já reduziram suas diárias pela metade, para US$ 415 por noite, para tentar atrair hóspedes. A presidente da associação de hotéis de Nova York chamou o movimento geral de "uma decepção" — sem outra palavra para definir.
A abertura da Copa no Estádio Azteca, no México, foi marcada por um clima tenso e violento, com pelo menos três focos de violência:
protestos políticos contra o governo,
confrontos entre policiais e manifestantes,
brigas entre os próprios torcedores.
Os protestos que dominaram as ruas do México na abertura da Copa eram muito maiores do que a própria festa do futebol, motivados por:
Reforma Previdenciária: A principal insatisfação foi com a reforma da previdência, que levou professores a uma greve nacional já com vários dias, mantendo milhões de crianças fora das escolas.
Guerra às Drogas: Famílias de pessoas desaparecidas no violento conflito com o narcotráfico também foram às ruas para pedir justiça e usar a visibilidade mundial da Copa para serem ouvidas.
⚔️ Os Confrontos com a Polícia
O ponto mais grave foi o confronto direto entre a polícia e os manifestantes.
A secretaria de segurança da Cidade do México informou que um grupo de cerca de 200 manifestantes encapuzados quebrou barreiras de segurança e entrou em confronto com a polícia. Os policiais chegaram a ser atingidos por coquetéis molotov e pedras.
💥 Violência nas ruas: As imagens de policiais saindo feridos, como um que foi visto com a cabeça sangrando, rodaram o mundo. A confusão foi tanta que estações de metrô próximas ao estádio precisaram ser fechadas.
👥 A briga entre os torcedores: Para completar o cenário caótico, também houve briga entre os próprios torcedores.
Um repórter da Fox Sports México foi surpreendido ao vivo por uma troca de socos entre dois torcedores. A explicação para a confusão foi o abuso nos preços do transporte.
Um motorista local estava cobrando 400 pesos mexicanos (cerca de R$ 120) por uma viagem de apenas 3,5 km saindo do estádio.
O valor, claramente abusivo, gerou uma revolta imediata entre os torcedores que tentavam deixar o estádio, resultando na briga que parou a transmissão ao vivo.
👮 Polícia mexicana vs. ICE
A polícia mexicana agiu com violência, usando gás lacrimogêneo, cavalos e repressão, lembrando o ICE. Mas a violência é de uma polícia interna contra seus próprios cidadãos, enquanto o ICE é uma força de fronteira que atua sobretudo contra estrangeiros.
Ou seja, a força de Segurança Urbana age como a guarda local. Seu foco são os protestos, como o que aconteceu no estádio, com os professores e famílias das vítimas de desaparecimento. Eles foram ao confronto para conter manifestações dentro do país. O uso de gás lacrimogêneo, barreiras e cavalos foi para reprimir e dispersar uma multidão. A violência foi a ferramenta, mas o fim era controlar o espaço e desmobilizar os movimentos. A ideia é conter ali mesmo, no confronto.
Já, a atuação do ICE nos EUA tem como foco a imigração. A prioridade é impedir a entrada de pessoas “não autorizadas”, deportar imigrantes e combater o crime ligado às fronteiras. A atuação deles é remover pessoas do território. A violência é a ferramenta usada para expulsar e deportar imigrantes para seus países de origem.
Portanto, há dois objetivos diferentes nos dois países: Contenção vs. Deportação.
💥 Violência e direitos humanos
É importante não minimizar a gravidade do que aconteceu no México. A brutalidade policial é um problema crônico e documentado no país, com forte componente de extermínio de lideranças e de movimentos sociais. A repressão durante a Copa foi violenta e gerou críticas de organizações como a Anistia Internacional. Observa-se que a brutalidade e o autoritarismo são igualmente condenáveis, seja para conter, seja para deportar.
Entretanto, há outra diferença. No México, os preços de ingressos, hotelaria, restaurantes e transporte são bem mais baratos que nos EUA. Então, a maioria dos manifestantes é de classe média (embora uma classe média com renda muito inferior à estadunidense).
O custo de vida e os preços para o torcedor no México são, de fato, consideravelmente mais baixos do que nos EUA. A diferença é grande o suficiente para criar uma realidade econômica completamente diferente entre esses dois países-sede.
💸 Disparidade de custos: México vs. EUA
O custo de vida médio no México é cerca de 46% menor do que nos EUA, com os aluguéis chegando a ser 70% mais baratos. Essa lógica se reflete nos preços da Copa:
. Preços oficiais (já caros)
Na Cidade do México, em 2025, um tíquete poderia custar R$ 1.971, enquanto nos EUA, o mesmo ingresso poderia chegar a R$ 2.984. Na partida final, a diferença seria ainda mais gritante: a entrada mais cara nos EUA chegaria a US$ 7.000.
. Preço dinâmico + revenda (o absurdo completo)
Esses valores oficiais, por si só, já seriam excludentes. Mas a FIFA conseguiu piorar a situação ao adotar o chamado "preço dinâmico" — um algoritmo que aumenta o valor dos ingressos em tempo real conforme a demanda. O resultado foi uma disparada absurda. Um ingresso para a final que custava US$ 6.370 na tabela inicial passou a ser vendido por mais de US 10.990 ainda no site oficial. E quando os ingressos oficiais se esgotaram (o que aconteceu em minutos), o mercado paralelo tomou conta. Na revenda, os mesmos ingressos para a decisão aparecem por valores entre US$ 8.500 e US$ 125.000. Houve até anúncios pedindo US$ 2,3 milhões por um único lugar na arquibancada. Não se trata mais de futebol. É leilão. O torcedor comum — mesmo o de classe média alta — foi expulso do estádio antes mesmo de o apito inicial soar.
Alimentação: Um almoço em um restaurante casual nos EUA fica entre US$ 10 e US$ 20, e um jantar mais elegante pode superar os US$ 50. No México, os custos são proporcionalmente mais baixos, mas os escândalos não faltam: 3 tacos foram vendidos por US$ 20 perto do Estádio Azteca.
Transporte: A briga entre torcedores começou por causa de uma cobrança abusiva de 400 pesos mexicanos (R$ 120) por uma corrida de apenas 3,5 km. Nos EUA a situação é ainda mais absurda: a tarifa de trem de ida e volta para o MetLife Stadium, em Nova Jersey, saltou de US 13 para US$ 150 por vaga.
Hospedagem: A disparidade é brutal. Enquanto em Guadalajara (México) uma diária no Airbnb custa em média US$ 89, em Kansas City (EUA) o mesmo tipo de hospedagem ultrapassa os US$ 539. O resultado foi uma debandada de turistas. Em Nova York, a previsão da receita hoteleira para a Copa caiu 60%, e o Hilton Midtown, maior hotel da cidade, reduziu suas diárias pela metade para tentar atrair hóspedes.
Assim, o sistema todo não é só caro. Tem o objetivo de excluir.
👩🏫 Perfil dos manifestantes
A principal força por trás dos protestos que tomaram conta da Cidade do México é a CNTE (Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação), o sindicato de professores. A reivindicação central é um aumento salarial de 100%, considerado inviável pelo governo.
O governo mexicano ofereceu um reajuste de 10% para setembro de 2026, mas o sindicato rejeitou, justamente porque o aumento real, após descontar a inflação dos últimos meses (que encareceu tudo, incluindo alimentação), é ainda menor.
Portanto, a luta dos professores no México não é sobre um padrão de vida luxuoso, mas sobre a capacidade de não perder poder de compra e garantir aposentadorias dignas.
Os preços mais baixos viabilizam outros tipos de conflito. A diferença entre os dois países não está só no preço do ingresso; ela dita também o motivo da briga nas ruas.
Enquanto nos EUA a violência e as prisões estão ligadas ao medo, à xenofobia e ao lucro abusivo, no México os confrontos são uma expressão da luta de uma categoria de trabalhadores que luta pela sua sobrevivência financeira. É o mesmo jogo, mas em dois mundos completamente diferentes: línguas, culturas, mas, especialmente, a renda média das pessoas.
Destaca-se que a disparidade econômica é o fator mais determinante entre as experiências de México e EUA no torneio. A renda média molda a violência (contenção vs. deportação), os alvos (cidadãos vs. imigrantes) e até a natureza dos protestos (sobrevivência vs. medo).
🇲🇽 México: renda média baixa, violência interna
Renda média: cerca de 10 a 15 mil pesos por mês (menos de mil dólares).
O torcedor que vai ao estádio é, muitas vezes, alguém que sacrificou o mês para estar ali.
A briga com a polícia não é por terror ou xenofobia — é por preço abusivo de transporte, por reivindicação salarial, por sobrevivência.
A violência é interna: o Estado contra seus próprios cidadãos que pedem aumento, aposentadoria, dignidade.
A Copa é um palco para essas vozes, não a causa do medo.
🇺🇸 EUA: renda média alta, violência de exclusão
Renda média: cerca de 5 a 6 mil dólares por mês (vinte vezes maior que a média mexicana).
O torcedor que sobra (porque muitos não foram) é de classe média alta, mas mesmo ele está achando caro.
A violência não é contra o cidadão americano — é contra o estrangeiro, o diferente, o "não branco", o "suspeito".
Assim, a Copa é um gatilho para uma política de deportação e racismo que já existia. O medo é o motor, e o lucro é o destino.
🔍 O que a renda média revela
Renda baixa + custo relativamente acessível = torcedor local presente, mas vulnerável à exploração. A violência é sobre contenção de quem já está dentro.
Renda alta + custo proibitivo = torcedor local ausente ou de elite; torcedor estrangeiro é visto como ameaça. A violência é sobre exclusão de quem quer entrar.
E no meio disso tudo, a FIFA lucra, especialmente com os direitos de transmissão do evento.
As companhias aéreas, os hotéis e restaurantes nos EUA amargam prejuízo. Os professores no México vão presos.
E o futebol, que deveria unir, vira espelho das feridas de cada país.🐧
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Publicação: 14/06/2026 - Última atualização: 15/06/2026 -