Caro leitor, acredito ser importante eu me apresentar antes de mostrar o meu trabalho, Meu nome é Carlos Eduardo e dês que eu consigo me lembrar tenho grande interesse na pequena cidade de Alberguarda. Não que nada de muito interessante aconteça lá, mas minha fascinação por ela é comparável com a de grandes físicos sobre os mistérios do universo, de filósofos com o motivo da existência humana, e de tias aos parceiros de seus sobrinhos.
Então, querido leitor, deixo aqui bem claro que se você espera uma obra cheia de aventura, ação, romances proibidos, traições, intrigas políticas, ou qualquer coisa do tipo, essa história não é pra você, diversos outros títulos advindos de autores mais qualificados que eu podem te trazer essas experiências.
Mas deve você se perguntar, “Sobre o que são os relatos de Alberguarda?”, é bem simples, eles se tratam de pessoas, como eu ou você, pessoas chatas e comuns, que nascem, crescem, amam e morrem; pessoas cuja história não seriam olhadas por historiadores ou produtores de televisão, nem o cineasta mais audacioso, com o olhar mais atento repararia nelas. Acredito que aí deve surgir sua segunda dúvida, “Por que Alberguarda? Por que contar histórias tão insignificantes?”, novamente a resposta é tão simples que não resta dúvida!
Nosso primeiro relato começa com João, um homem simples e honesto que viveu no litoral de Alberguarda com sua mãe Lívia, e os acontecimentos perto do final de Abril.
O que tinha de tão especial no final de Abril? Nada de mais. O dia 28 de Abril, dia que se passa nossa história, é considerado o dia mais monótono daquele ano, zero mortes, zero nascimentos, zero acidentes, zero livros novos escritos por mim ou qualquer autor e, por motivo nenhum além de monotonia sentida naquele dia, João foi à padaria.
O local era pequeno. As prateleiras ocupavam o espaço com pães, broas e biscoitos. Atrás do balcão, um velho Seu Jorge.
—Boa tarde João, como anda sua mãe? — perguntou o simpático dono de loja, João conhecia Seu Jorge por todos os seus 20 anos, era um bom homem, nada de espetacular, mas uma pessoa honesta.
—Boa tarde Seu Jorge! Minha mãe tá bem, ela tá meio irritada hoje porque o Vasco perdeu ontem, mas já já passa — Respondeu o jovem — o que tem de bom hoje?
—’Ce deu sorte rapaz! Acabo de sair o pão doce, o favorito da tua mãe.
João despediu-se do padeiro e continuou o trajeto para casa, a ruazinha rotineira estava como sempre, alguns moradores passavam e o raro carro cortava pela rua, João moraria naquele bairro até a sua morte diversos anos no futuro, mas aí já estou colocando a carroça na frente dos bois; asfalto continuava com seus ímpares buracos de sempre, o rapaz ,que ainda não dirigia, não tinha noção deles mas os motoristas já haviam pedido pelo conserto da rua diversas vezes sem resultados.
Nosso protagonista se deparou com a farmácia “Farmalonte”, ele parou e se pesou na balança que nela habitava, ele lembrou de ter lido em algum lugar que é sempre bom pesar na mesma balança, e a partir daquele dia começou a sempre pesar no Farmalonte, era caminho de volta do trabalho, simplificava as coisas.
—3 quilos — murmurou João a si próprio, satisfeito com a perda de peso.
O jovem já conseguia ver o portão de sua casa, ele anunciou sua presença para a própria mãe, O rapaz passou pela garagem, nela não havia carro algum, apenas prateleiras com ferramentas de construção e aparatos de arte, a porta da sala foi aberta e dela uma pequena cachorra pulou saltitante, alegre com a chegada de João. A sala era brega, extremamente sem graça, ela ficava entre a linha do cafona e da dor dos olhos, ela era tão horrível que nem a capacidade de descrevê-la com palavras eu possuo. Deixo aberta a interpretação do leitor a visão da sala.
Mesmo com uma sala tão horrenda João gostava dali, provavelmente depois de ganhar resistência a sala tóxica, ele aprendera a admirar os pequenos detalhes. Como a forma que o tapete e o papel de parede pareciam combinar com o design dos ladrilhos do teto quando se estava extremamente bêbado. Ou como a cor da parede não queimava seus olhos mais que olhar diretamente ao sol (mesmo que essa fosse uma experiência mais curta e agradável). Mesmo sendo bem próximo de uma visão da última camada do inferno, a sala ainda tinha seu charme para João e sua mãe, mesmo que com os meus anos e anos de pesquisa ainda não tenha-o entendido.
O resto da casa em comparação a sala era similar a pão branco. Sem destaque algum, um banheiro pequeno, dois quartos pequenos, uma cozinha pequena ,onde João largou o pão, um quintal pequeno e uma edícula minúscula, onde Lívia estava, pintando um de seus quadros.
Os quadros eram bem simples, a esquerda algumas paisagens e auto retratos, no fundo flores, frutas e outras partes de plantas, no centro, um retrato de João ainda em progresso. Era apenas um pequeno hobby para ela. Entrando na edícula João disse a sua mãe:
—Mãezinha? Eu trouxe pão lá da padaria do Seu Jorge, eu consegui aquele pão doce quentinho que a senhora gosta
A mãe do rapaz deu um salto da cadeira, quase derrubando suas tintas por todo chão. Os dois se dirigiram até a mesa de cozinha e lá comeram, tomaram um café, consideravelmente aguado, feito por João, e conversaram. Conversa boba, do dia a dia, sem muita profundidade, o tipo de conversa onde a temática é irrelevante, onde seus pequenos argumentos não tem vencedores, não são feitos para ter, onde as piadas não são entendíveis para aqueles de fora, onde sonhos e esperanças são jogadas para todos os lados, onde o tempo passa sem nem se perceber; o tipo que só se dá valor quando se perde. A noite João foi dormir contente, de barriga cheia e banho tomado, com o cruzeiro tendo ganhado outra partida e, principalmente, com sua cachorra aos seus pés. Um dia comum, mas feliz na vida de João.