A diferenciação que ela faz entre posse e ciúmes é válida enquanto efeitos, mas, por mais que queiramos acreditar nisto, a posse não é bem uma construção social, e se é: tal construção data desde antes da Mesopotâmia.
Gostamos de acreditar que no passado, como vimos no texto sobre as festas dionisíacas, imperava o "ninguém é de ninguém" e que foi o homem ocidental, judaico cristão, que construiu a ideia de casamento e união romântica. Não é bem assim. O que estudos antropológicos e historiadores cada vez mais comprovam é que a monogamia e o casamento são instituições milenares, cunhadas como ideal no seio social desde antes da escrita, em todas as culturas, em todos os cantos do mundo, salvo comunidades isoladas e tribais.
As Bacanálias e outras festas pagãs, casamentos múltiplos e todo tipo de putaria, de fato, sempre aconteceram, entretanto, nunca foram a regra. É preciso fazer esta ressalva. Não dá para chamar de construção social um costume que transpassa mais de 3 milênios e que nunca foi questionado pela maioria de cada povo, apenas por quem viveu, ou vive, à margem do que é costume.
Após a revolução sexual (anos 60 para cá) o Ocidente teve a faca e o queijo na mão para mudar a dinâmica dos relacionamentos, entretanto, acabamos preferindo entregar o desejo, o sexo e o afeto de volta às mãos da moral conservadora e à uma nova entidade moral: a moral progressista. Moral que, apesar das previsões, não lutou por libertação sexual e sim pela repressão de qualquer manifestação da sexualidade humana que não se encaixe no discurso limpinho da esquerda radical. Resultado: padrão reestabelecido.
Dito isto: sim. O ciúmes é algo natural e seres humanos, monogâmicos ou não monogâmicos, ativos ou inativos sexualmente precisam aprender lidar melhor com ele. O ciúmes é um fato, não é um conceito abstrato. É uma reação emocional, um sentimento, uma sensação, um caminho neuronal. Assim como ansiedade, medo, raiva ou dor de dente. É uma coisa que o ser humano sente. Não tem como fugir. Tem como interpretá-lo, racionalizá-lo, ressignificá-lo ou simplesmente suportar estoicamente.
Agir em nome de um sentimento tão baixo como o ciúmes, geralmente, costuma dar muita merda.
Por tudo que a Gisa fala no vídeo, atualmente, no Ocidente, a sensação de posse é sobretudo uma ilusão, e esta ilusão é o que está sendo chamado de construção social. O sentimento de posse sempre existiu mas ele sempre se pautou em fatos e não em ilusões românticas. Uma esposa era posse do marido juridicamente e não por ele acreditar que "ela o ama tanto ao ponto de suportar toda a carga que o relacionamento trazia". Esta ilusão romântica é na verdade o que a entrevistada está tomando por uma construção social.
A posse ainda é um fato para além de ilusões, no Oriente Médio sobretudo, nos países de matriz muçulmana. É um fato por ser um fato jurídico. A mulher é posse do marido, legalmente. No Ocidente não. Ainda que mentes inseguras façam todo este malabarismo moral e retórico para se convencer e convencer o outro que ele ou ela estão presos para sempre na relação.
A não monogamia racha com esta ilusão. E tudo que traz lucidez ao debate, merece atenção.