Dormi como um anjo, por incrível que pareça. Acho que o papo com o Tarik fez eu me sentir bem melhor do que eu pensava ou esperava. Foi bom ver que ele realmente estava do meu lado, aliás, sempre esteve, independente dos meus erros, das minhas mudanças e até mesmo do PlayStation 2 dele ter ido pro chão assim que nos conhecemos.
Acordei me sentindo bem mais leve do que a noite passada, não que eu não tivesse mais problemas, mas… Quer saber? Deixa estar. Acho que isso uma hora passava. Nenhuma paixão é eterna, com certeza eu ia conseguir esquecer a Jade.
Me levantei da cama e assim que abri a janela, senti o Sol queimar minhas bochechas. Respirei fundo e talvez pela primeira vez em anos, não o xinguei apenas por estar brilhando. A culpa nem era dele, a função que ele possuía era… Brilhar. Desculpe por todos os outros dias, Sol, nada contra! Hahaha.
Olhei pro meu quarto e ele realmente estava uma bagunça, beleza, ia aproveitar que acordei de bom humor e ia arrumar aquilo. Eu nem sabia como começar a arrumar a minha vida, mas algo me dizia que eu deveria começar pelo meu quarto. Pois bem, lá vamos nós.
Comecei guardando todas as roupas de volta no armário e (por mais impossível que isso soe vindo de mim) as arrumei por cores e estações do ano. Logo depois, foi a vez dos tênis e sapatos. E por fim, dei um jeito na minha cama e nas maquiagens… Claro, sem esquecer também dos meus CDS e livros.
Eu era fascinada por leitura, devorava um livro em menos de uma semana. Mas acho que toda aquela bagunça da minha vida me tirou toda e qualquer vontade de ler algo. Até por que, pra que ler livros de romance se sentimentos do tipo hoje em dia apenas existem em páginas?
— HAHAHAHAHAH DESDE QUANDO TU ARRUMA ESSE QUARTO? – Que susto! Porra. Doente mental.
“Doente mental”. Eu não poderia usar essa palavra para descrever ninguém além do João.
— Cara, custa tu bater na porta ou… Espera, por onde tu entrou aqui? – Perguntei provavelmente ainda assustada, o que fez ele gargalhar. Não precisava de muito pra fazer o João gargalhar.
— Tua casa não é alta. E a tua janela estava aberta, o que eu posso fazer se meus poderes de Spider Man me comandam? – Ele deu de ombros enquanto se sentava na minha cama, mexendo nos travesseiros e se ajeitando pra deitar.
— Pois é, mas também já inventaram algo chamado porta e campainha, sabia? São bem úteis quando tu não quer matar alguém do coração invadindo o quarto alheio – Respondi.
— Spider não usa portas. Spider escala. – Tive que rir, ele era tão espontâneo e sem noção.
— Por que o Spider está falando como o Tarzan? – Enquanto eu o chamava de Tarzan, ele fazia jus ao apelido e se debruçava na minha cama. Aquele garoto tinha hiperatividade, com certeza. Como a mãe dele o aguentava?
— Tu ainda pinta? Tá tudo zoado aqui, cheio de tinta! Spider que pintar! – Até quando ele ia ficar falando na terceira pessoa? E… tinta?
Me abaixei do lado dele e olhei por baixo da cama. Cara, minhas tintas… Quanto tempo! Tive que abrir um sorriso, mas antes que eu pudesse defendê-las, o “Spider” puxou as caixas de tinta e sentou-se no chão com elas, parecendo uma criança feliz.
Lembro de quando eu gostava de pintar, isso foi há uns dois ou três anos atrás. Atualmente eu desenhava algumas coisas, às vezes saíam uns esboços… Mas como eu disse antes, se nem ao menos sentia vontade de ler, imagina de pintar algo.
As tintas ainda estavam boas, acredite se quiser. E o João ainda estava ali, perguntando milhares de vezes se podia pintar com elas. Quantos anos ele tinha mesmo, cinco?! E ONDE ELE ESTAVA ESSE TEMPO TODO?
— Eu achei que tu tinha morrido, cara! Onde tu se meteu? – Perguntei e ele nem ao menos virou pra mim para me responder, ficou ali, entretido nas tintas.
— Eu também achei que eu ia morrer, hahahahahahaha! – Ele gargalhou antes de continuar – Mas tu tá ligada né, aqui é Spider, caralho! – Disse com um sorrisão no rosto.
— PARA COM ESSA MERDA DE SPIDER, QUE COISA CHATA, CARA! Me diz onde tu tava. – Me alterei, mas ok. Tudo sob controle novamente.
— Então. Depois que tu se meteu sei lá onde e me largou lá pra ser TRU-CI-DA-DO – Ele gritou isso pausadamente, sem necessidade, mas tudo bem. – Eles me levaram pra aquele beco lá perto, tá ligado? Eu apanhei pra caralho, mas… Eu dei uns três socos no maluco lá, isso conta, né? E quando eu finalmente achei que meu estômago tinha sido direcionado pro pulmão com os chutes, eles queriam fazer revezamento pra me bater. Tipo, que porra era aquela? Virou treino de Muay Thai aquela porra? – Pausa. As comparações dele eram muito boas. – E aí eu só corri, sacou? Mas ele disse que se eu chegasse perto daquela guria de novo ou do lugar dele, eu morreria. Foi isso aí o ocorrido, senhora. Mais informações no nosso site. Hahahaaha. – Ele não conseguia levar nada a sério, incrível.
— Bom... E o que tu refletiu sobre isso? Vai manter distância? – Perguntei esperando que aquele olho semi-roxo dele tivesse o ensinado alguma lição.
— Do lugar ou da guria? – Incrível como ele era lerdo, meu Deus.
— Mas o lugar não era pra ver a bunda de… Ah, desisto! – Ele nem se preocupou em prolongar o assunto. Adorava aquilo nele.
— Mas aí, vamos empinar pipa? – “Empinar pipa” é um termo bem conhecido para “vamos queimar um?”.
— Eu tô de boa, valeu! – Ele me olhou indignado, como se recusar um beck fosse praticamente um crime contra os Direitos Civis. E aí ele começou um discurso sobre como eu devia fumar mais e os benefícios da maconha. Praticamente me senti na marcha da maconha, de tantos pontos positivos apresentados, segundo ele. Mas obviamente, eu não mudei de ideia e parei de prestar atenção no que ele dizia uns cinco minutos depois.
Eu realmente estava de boa, de boa de um jeito como nunca havia estado antes. Aquele era o efeito de um melhor amigo, que talvez não fosse mais tão amigo assim, sei lá. Mas o fato é que eu estava tão tranquila que talvez se eu fumasse um baseado, era capaz de eu ficar calma ao ponto de dormir mais e entrar em coma.
Tentei explicar isso pro João, mas pra ele aquilo simplesmente não fazia sentido. Ele permaneceu ali reclamando como um velho de 87 anos, até finalmente desistir e ir embora, mas dessa vez, decidiu ir pela porta da frente e não pela janela, como ele havia entrado. Assim que fechei a porta da sala pra ele, pude ouvir além do barulho da porta se fechar, o meu estômago roncando, ou melhor, praticamente rugindo.
Eu estava há um bom tempo sem comer, aliás, se esquecer de comer era um dos meus atributos. Mas tudo bem, fui até a cozinha e abri o armário, procurando algo mastigável.
Abri na esperança de não encontrar nada, mas por incrível que pareça, ele estava tão cheio como nunca. Haviam coisas ali que jamais pensaria encontrar, até por que, sempre que tentava as colocar no carrinho do super mercado minha mãe me advertia dizendo que era caro demais e não tínhamos dinheiro. Parece que ela havia arrumado dinheiro. Melhor pra mim.
Peguei algumas bolachas e salgados no armário e subi pro meu quarto, como não havia ninguém além de mim em casa, também não havia problema em comer no quarto.
Assim que subi, encostei-me ao guarda roupa que ficava de frente a uma parede preta, que estava bem desbotada e com uma aparência “caidinha”, por sinal. Enquanto comia, observava a mesma e por alguns segundos, meus olhos bateram na caixa de tintas. Quer saber… Essa parede bem que estava precisando de uma aparência menos deprê, ela não estava combinando com o meu quarto arrumado.
Enquanto dava algumas últimas mordidas no meu lanche, me aproximei da parede, puxando a caixa de tintas pra perto. E antes de começar a traçar algum esboço com um lápis antigo que também havia dentro da caixa, optei por trocar de blusa. Afinal, eu corria o risco de me sujar. Coloquei a blusa mais antiga que possuía, aliás, eu a usava para dormir, super confortável e umas três vezes mais larga que eu. Porém, tinha acabado de virar meu uniforme.
Comecei a traçar o esboço do que eu gostaria de desenhar na parede, assim, logo a parede inteira estava traçada… Porém, até eu começasse a dar os últimos detalhes para aí sim, começar a pintar, passaram-se uma, duas, três horas… Caralho, eu tinha me esquecido de como aquilo levava tempo!
Acabei adormecendo ali em cima das tintas, e obviamente, acordei com a cara meio pintadinha na manhã seguinte, mas elas até que saíram rápido enquanto tomava meu banho para ir à escola.
A semana até que passou rápido, nada novo a declarar, as mesmas coisas de sempre… Com a diferença de que quando chegava da aula, dividia meu tempo entre dormir e pintar minha parede, que, modéstia parte, estava ficando muito foda. Vi minha mãe poucas vezes durante a semana e quase nem esbarrei com o Tarik, arrisco a dizer que ele nem foi pra escola. Ou devia ter ido em um dos dias em que eu faltei.
O que importava era que era sexta-feira, minha mãe não estava em casa e eu pretendia ir dar um role de bike ou sei lá, eu podia ligar pro Gabriel ou pro João. Enquanto não decidia nada, fiquei no sofá.
O que me tirou dos meus pensamentos perdidos foi o barulho da campainha… Que bom que minha mãe havia chegado cedo, mas ela bem que podia ter levado a chave né? Odiava levantar!
Abri a porta esperando ver minha mãe, mas fiquei bem surpresa com a pessoa que eu vi e ainda mais o que ela tinha em mãos. Meu Deus!
— Então, eu… Eu não sei o que dizer. Eu posso pedir desculpas? – Ela disse intercalando os olhares entre o chão e meus olhos. Parecia estar com vergonha daquela situação.
Eu queria matar ela. Mas eu não podia matar ninguém, ainda mais tendo um pai policial.
— O que é isso? – Perguntei olhando o filhote completamente apaixonante que ela segurava. Eu sou suspeita pra falar, amo cachorros. Com todas as minhas forças, mas aquele ali… Era o mais lindo do universo inteiro!
Ele era preto, apenas com as “sobrancelhas” e as patas marrons. Não devia ter mais de um mês, era pequeno. E não parecia ter uma raça definida, o que o deixava ainda mais lindo.
— Eu sei o quanto tu gosta de bichinhos e… Um amigo meu estava doando. Pensei em aproveitar pra ver se você pode ficar com ele e pedir desculpas. – Ela disse, ainda o segurando como um bebê.
ELA ACHAVA QUE ELA PODIA APARECER NA MINHA CASA EM UM FIM DE TARDE COM UM FILHOTE DE CACHORRO LINDO NOS BRAÇOS ACHANDO QUE EU IA PERDOA-LÁ? Ela estava certa. Ele era apaixonante, eu perdoaria até mesmo um serial killer que me levasse ele. Não consegui esconder meu sorriso bobo, droga. E ela, sorriu ao me ver sorrir, achando que estava tudo 100% bem, mas, espera aí, vamos com calma.
— É. E por que tu não me mandou mensagem, então? – Tentei ser grossa, apesar do sorriso que havia dado segundos atrás.
— Tu esteve me ignorando no colégio, por mensagens, telefonemas… Como eu poderia falar? – É, ela tinha razão. Eu não queria nenhum contato.
— Tudo bem, eu fico com ele… Até por que, quem não iria querer ficar com essa coisa maravilhosa?! – Disse o fim da frase com voz de bebê, enquanto o tirava dos braços dela. Meu Deus, agora sim eu sabia o que era “amor à primeira vista”.
— Eu posso entrar? Quer dizer… Nós. – Ela me olhou ainda receosa, como se tomasse cuidado com cada palavra que fosse dizer. Tu não devia nem morar na mesma cidade que eu, mas tudo bem.
— Entra aí – Falei, saindo da porta e me sentando no chão da sala, colocando o pequeno ali. Ele mal sabia andar e eu só sabia babar nele.
Ela entrou, bem desconfortável, e sentou-se ao meu lado, mas não tão perto. Ficou apenas me olhando. Justamente do jeito que eu odiava, mas senti que não fez por mal.
— Então eu… Eu queria te pedir desculpas, Alícia. De verdade. Você sabe que não é fácil. Mas eu gosto de você, sempre fomos tão amigas. Por favor. – Ela se pôs a falar enquanto eu estava toda boba com aquele filhote andando pelo meu tapete.
— É, eu imagino. – Acho que quando alguém me magoava, meu mecanismo de autodefesa era a grosseria.
Ela se sentou mais perto. Droga, distância, Jade, e abriu um sorriso tão meigo. PORRA! SAI CAPETA!
— Eu sei que tu é grossa pra caralho. Mas por favor, tenta… – Ela passou a mão no meu rosto e deu um beijo no mesmo, bem calminha.
E aí começou a chover tipo… Pra caralho. Eu não sei se foi por ela ter sido fofa ou por que a meteorologia decidiu. Mas acho a primeira opção mais provável.
Afastei meu rosto ao me virar pra ver a chuva pela janela e constatei que estava caindo o mundo.
— Teus pais vão vir te buscar? – Perguntei enquanto mexia no pequeno… Ham, precisava de um nome pra ele.
— Não, eles não estão em casa. Tiveram que ir resolver um problema da empresa na cidade aqui do lado e só voltam amanhã de tarde. – Disse ela.
Os pais da Jade eram sócios em uma rede de empresas, então muitas vezes estavam viajando à negócios. Eu não queria que ela ficasse na minha casa, mas deixar a guria ir embora sem a arca de Noé seria muita maldade até pra mim.
— Acho que está chovendo muito pra você ir pra casa… Tipo, eu até tenho um guarda-chuva pra ter emprestar, mas mesmo assim. – Eu disse, com vergonha de dizer aquilo, mas disse.
— Eu não quero te incomodar.
O fato de tu respirar me incomoda. Mas tudo bem, guardei aquele pensamento pra mim.
— Não incomoda, relaxa. Pode ficar. – Sorri forçado.
Passamos a tarde inteira ali, comemos algumas coisas, assistimos um filme, até finalmente fazer o Stitch dormir. Decidimos o nome dele enquanto assistíamos Lilo & Stitch. Coloquei um pequeno pote com água e sucrilhos (eu compraria ração no dia seguinte, ok?)
— Eu posso ficar no sofá, se você quiser. – Disse ela, enquanto eu me preparava pra subir as escadas. Não sabia se ela realmente estava com vergonha de mim ou se estava fazendo cena.
— Não, sério. Seria bem escroto te deixar dormir aí. Vem, sobe. – Eu disse a olhando, enquanto subia os degraus devagar.
Assim que entramos no quarto, arrumei a cama e joguei uma blusa minha pra que ela pudesse dormir. Minha cama era de casal, então ela dormiria comigo.
Ela se deitou de frente pra mim e ficou um silêncio constrangedor com as luzes apagadas.
— Eu senti muito a sua falta, Alícia. Não some mais de mim. – Ela disse com a voz doce, enquanto passava a mão no meu cabelo.
É. Não sumo, se tu deixar de ser uma filha de uma puta do caralho.
— Tu me magoou, Jade. Mas… Tudo bem. Eu estou aqui. – Eu sorri e provavelmente meu sorriso ficou visível, já que ela deu uma risada baixinha.
— Então fica assim comigo sempre. – Enquanto ela pronunciava cada palavra, se aproximava de mim. Quando me dei conta nossas bocas estavam coladas.
Eu estava beijando a Jade de novo… Droga! Ou não, o beijo dela era muito bom. Ficamos nos beijando um bom tempo, até eu me animar com o beijo e a puxar com força contra mim. Ela pareceu gostar daquilo, já que pegou no meu cabelo e desviou os beijos pro meu pescoço.
— Se tu não quiser dar pra mim, não beije meu pescoço. – Eu sussurrei enquanto dava leves risadas maliciosas.
E ela só riu quando me ouviu e beijou meu pescoço com o dobro de vontade.
Virei-me por cima dela e logo tratei de puxar a blusa dela, enquanto ela fazia o mesmo comigo. Como ela estava sem short, aquilo facilitou muito. Obrigada, Deus!
Mordi os lábios dela com força durante mais um de nossos beijos enquanto ela prendia suas pernas na minha cintura. Logo meus beijos saíram da boca pra percorrer seu pescoço e todo seu corpo, enquanto eu desprendia o sutiã que ela usava. Não consigo dizer se ele era bonitinho ou não, já que essa foi a última coisa na qual prestei atenção.
Eu estava nervosa pra caralho a cada movimento que fazíamos, já que pelo visto ela queria muito e… Era a primeira vez que eu fazia aquilo. Não beijar uma garota, mas sim transar com uma. Eu nem sabia se eu sabia fazer aquilo. Alguém me ajuda!
Continuei a beijar o corpo dela inteiro, cada centímetro. Ela era muito cheirosa. E bem gostosa, óbvio. Sentia o corpo dela se arrepiar a cada vez que eu a apertava e passava minha boca pelo seu corpo.
Passei minha mão entre suas pernas e ela as abriu facilmente. Sinal verde. Continua, Alícia. Conforme eu ia descendo minha boca pela sua barriga, meu coração acelerava cada vez mais, ao desviar meu olhar pra ela pude ver aquela cara de “continua, pelo amor de Deus! Vai logo!”. Calma, cara!
Continuei e, diga-se de passagem, assim que tirei sua calcinha e finalmente fiz o que devia fazer, cheguei a conclusão de que eu mandava bem. Não sei se foi tipo, o céu pra ela, mas acho que gemidos indicavam algo bom, não é? E puxadas no cabelo e alguns arranhões... Enfim...
Pra mim, foi bom pra caralho. Eu sempre achei a Jade muito gostosa e finalmente tê-la “pra mim”, foi bom demais. Depois de tudo aquilo, eu estava suando demais e sem ar, mas minha preguiça de tomar banho ou me vestir era demais. Ela vestiu minha blusa de volta, mas permaneceu sem calcinha ou sutiã. E depois de mais alguns carinhos, adormecemos abraçadas.
Rezei pra minha mãe não chegar, e ela realmente não chegou.
Foi bom acordar e ver a Jade nos meus braços, apesar de saber que aquilo foi só por uma noite e ela ia acordar com suas crises existenciais de “sou hétero, somos amigas, blábláblá”. Foi bom enquanto durou.
Sentei-me na cama e esfreguei os olhos, puxando meu celular pra ver que horas eram. Duas horas de um sábado a tarde. Porra, dormimos muito.
Me vesti também com uma blusa larga e desci pra pegar algo pra comer, quando fiz isso, pude ver que algum ser de quatro patas entrou no banheiro de madrugada e rasgou todo papel higiênico pela casa. Eu. Ia. Matar. Aquele. Cão.
Fui atrás dele no veneno, mas assim que me deparei com aquela coisa pequena me olhando com cara de “não fui eu, ele explodiu”, não pude fazer nada além de o amassar. Dei comida (sucrilhos) para ele e enquanto eu recolhia aquela bagunça, ouvi passos na escada.
— Ham… Bom dia, Lí! – Ela disse enquanto arrumava o cabelo e vinha na minha direção. Me abraçou e me deu um beijo no rosto enquanto ria daquela bagunça.
— Boa tarde, Jade. São 14h já. E eu já acordo limpando coisas desse monstrinho que você me deu.
— Ahhh, ele é uma graça!!! Não fale assim dele. – Ela o defendeu enquanto lhe fazia um carinho e ele abanava o rabo, todo bobo.
— Ele é. Não significa que não seja um monstro destruidor. Tipo você. – Dei risada do meu próprio comentário, mas ela fez uma cara de “você me come e me insulta depois e eu que sou a filha da puta sem coração”. Mas tu é mesmo.
— Engraçada. Acho que já vou indo. – Ela disse enquanto colocava o Stitch no chão e ia em direção a escada.
Soltei as coisas no chão e imediatamente fui em sua direção, a prensando na parede. Abri um sorriso totalmente pervertido, enquanto a segurava pela cintura.
— Fica… – Sussurrei. O que aparentemente a derreteu, mas logo ela voltou a si.
— Eu adoraria. Mas meus pais já devem estar pra chegar. – Ela respondeu enquanto me deu um selinho e uma mordida. Droga!
Ela se soltou de mim e subiu desfilando. Óbvio que passei boa parte do tempo olhando pra bunda dela. Gostosa.
Recolhi tudo e enquanto eu tomava um suco na cozinha, ela desceu, já arrumada com sua bolsa nas mãos e entrou na cozinha para se despedir. Me deu um beijo bem rápido, por sinal e foi embora.
Aqueles beijos me surpreenderam, será que agora ela finalmente tinha mudado de ideia? Ela fodia meu psicológico, viu. Ê garota!
Continuei a tarde toda atoa, aproveitei pra ir comprar ração pro Stitch e levá-lo ao veterinário. Aqueles check ups de cão. Sabe como é. Tudo ok com ele, segundo a doutora, ele não devia crescer muito, que bom! Minha casa agradecia.
Voltamos de noite pra casa e já logo lhe dei ração, mas ele pareceu não gostar muito.
— Te entendo, cara, sucrilhos também me parece bem melhor. Mas você é um cão. Que azar. – Eu disse enquanto o via olhando pra ração com cara de “cadê aqueles flocos maravilhosos que tinham aqui?”.
Brinquei com ele durante a noite até que minha mãe chegasse. Ela chegou tão dispersa, que acho que nem percebeu que tínhamos um novo cão. Ou, aliás, a primeira vez que tínhamos um.
Ela foi direto pro chuveiro e se trancou no quarto pra dormir. Fiz o mesmo logo após arrumar uma cama improvisada pro Stitch com lençóis e almofadas antigos, até que eu pudesse ir comprar uma cama canina pra ele.
Ele logo dormiu como um bebê e eu pude subir pro meu quarto e fazer o mesmo. Mas antes tomei um banho e fiquei encarando minha parede, tendo a maior preguiça de continua-la. Ok, eu resolveria aquilo no dia seguinte.
Coloquei meus fones de ouvido ao som de “Pentágono – OQ?” e pude ficar pensando na letra antes de finalmente o lance bater. Incrível quando tu ouve uma música romântica, sua mente automaticamente procura alguém pra pensar. Mas pelo menos nas minhas músicas, não havia ninguém que se encaixasse. Nem Tarik, nem Jade. Parecia que ninguém era amável o suficiente pra minha playlist.
Após passar por Oriente, Haikaiss e Gabriel Pensador na minha playlist, acabei adormecendo e acho que a playlist acabou durante a noite, já que acordei sem música.
Que preguiça acordar no domingo, aliás, viver!
“Bom dia, morena.” Era o que aparecia no visor do meu celular, junto ao número da Jade.
Sorri assim que vi, quem contou pra ela sobre eu me derreter com aquele apelido? Daquele jeito ia ser impossível expulsá-la da minha mente.