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Eixão do Lazer: onde Brasília se encontra, se move e se reconhece
De palco de corridas automobilísticas e trânsito pesado a espaço de encontros, cultura e esporte, o Eixão do Lazer traduz o espírito plural da capital
Por décadas, ele foi conhecido como “Eixão da Morte”, uma via expressa que cortava Brasília de ponta a ponta, palco de acidentes e símbolo do trânsito veloz e impessoal. Hoje, aos domingos e feriados, esse mesmo asfalto se transforma. O barulho dos motores dá lugar às risadas, à música, ao som das rodas de patins e ao compasso das passadas dos corredores. É o Eixão do Lazer, uma tradição que, mais do que espaço de esporte, é território de encontros, diversidade e pertencimento.
O Eixão é mais do que uma rodovia. É uma avenida viva, onde histórias atravessam gerações. Foi uma das primeiras vias asfaltadas da capital, inaugurada junto com Brasília, em 21 de abril de 1960. No ponto em que as duas asas se encontram, está o Marco Zero: o centro e o começo de Brasília. Dois dias depois, já servia de pista para o Grande Prêmio Presidente Juscelino Kubitschek, uma corrida automobilística que marcou época. Mas, por anos, o Eixão ficou restrito aos carros. Espaço de passagem, não de permanência.
Essa lógica começou a se transformar lentamente. A partir dos anos 1970, surgiram os primeiros movimentos para abrir temporariamente o espaço aos pedestres, com passeios ciclísticos e eventos esporádicos quase sempre concentrados no Eixão Sul. Mas foi só em 1991 que uma mudança definitiva começou a tomar forma. Naquele ano, um decreto assinado pelo então governador Joaquim Roriz fechou oficialmente o Eixão para veículos, das 8h às 16h, aos domingos e feriados, criando o que viria a ser chamado de Eixão do Lazer. E o que era provisório virou lei em 2012, ampliando o horário e consolidando de vez esse símbolo brasiliense.
Esporte
Seja na corrida, na bike, no skate ou nos patins, o Eixão do Lazer é o endereço certo para quem quer se mexer. Aos domingos e feriados, o asfalto se transforma em uma verdadeira pista democrática, onde iniciantes, amadores e atletas profissionais dividem espaço com quem simplesmente quer curtir o dia ao ar livre.
As subidas e descidas do Eixão Norte são o cenário perfeito para quem busca treino de resistência: maratonistas e triatletas encaram o desafio das ladeiras como parte da preparação. Já quem prefere percursos mais planos encontra no Eixão Sul o lugar ideal para pedalar ou correr com mais tranquilidade. Para o administrador Hugo Braga, de 29 anos, que corre por lá toda semana há seis meses, o espaço vai além do treino: “É um privilégio, porque não são todas as áreas da cidade que são apropriadas para a prática de esporte ao ar livre. Aqui, a pista fechada, a segurança e esse clima de todo mundo querendo se movimentar fazem muita diferença”.
No meio disso tudo, há espaço para todas as idades. Crianças descem as ladeiras em carrinhos de rolimã, se equilibram nas primeiras pedaladas ou acompanham os pais nas cadeirinhas. Skatistas, patinadores e ciclistas cortam o Eixão de ponta a ponta. E para quem quer começar, não faltam opções: tendas espalhadas pelo trajeto oferecem aluguel de bicicletas, patinetes e até carrinhos de rolimã. A jornalista Bruna Alves, de 30 anos, costuma levar seu filho Bento, de 2 anos, para aproveitar o espaço e vê no Eixão uma oportunidade valiosa: “Significa muito ter um espaço livre para ele brincar, já que nós moramos em apartamento. É uma oportunidade de levá-lo para brincar de forma livre, conhecer culturas diferentes, já que o espaço oferece bastante diversidade, e sempre tudo muito organizado”, conclui.
E não é só sobre esporte. Quem pratica slackline, joga frisbee ou até ensaia passos de dança também encontra no asfalto um espaço de treino e diversão. O Eixão é mais do que uma via fechada aos carros, é um circuito de saúde, lazer e encontro, onde o esporte é só mais um dos motivos para estar ali.
Gastronomia
A gastronomia do Eixão Norte é uma atração à parte, quase uma viagem pelos sabores do Brasil e do mundo bem no coração de Brasília. Espetinhos, água de coco, açaí e picolé dividem espaço com pratos que vão muito além do esperado. É possível saborear um churrasco completo, com mandioca e vinagrete, experimentar ceviche, shawarma, arroz carreteiro, feijoada e até um autêntico acarajé preparado na hora. Uma mistura que traduz exatamente o que é Brasília: um encontro de culturas, de sotaques e de paladares.
Maria Liu, de 46 anos, comanda a cozinha do Acarajé da Liu há cinco anos, levando o sabor da Bahia para o Eixão todos os domingos. Embora também atue em outros pontos da cidade, é ali que, segundo ela, acontece a verdadeira mágica. "Aqui é diferente. É um ponto de encontro, um lugar onde temos muita história. Enfim, o mundo no eixo", define, enquanto prepara a massa do acarajé e conversa com clientes que vêm de todos os cantos do país.
E a experiência vai além da comida. No canteiro L do Eixão, quem passa é atraído não só pelos aromas, mas também pela trilha sonora elegante que vem de um piano elétrico. É Eládio Oduber, de 66 anos, que desde 2020 estaciona ali seu food truck de vinhos, combinando taças bem servidas com música ao vivo e boa conversa. O charme do lugar está justamente nesse encontro: a mandioca com vinagrete combina com o chimichurri, que harmoniza com o vinho, que acompanha o acarajé, tudo lado a lado, no mesmo gramado.
E o que não falta opção é cerveja: diversas choperias da capital levam todos os domingos seus barris para os canteiros do Eixão. Uma das figuras sempre presentes, próximo ao Choro no Eixo, é a Cervejas Capivara. José Roberto Moreira, mestre cervejeiro, conta que marcar presença no local foi uma maneira de encontrar novos clientes para sua cervejaria no Lago Oeste e também de ir até os clientes que já tinha. Toda semana ele leva ao menos dois tipos de cerveja; na ocasião, encontramos uma Cream Ale e uma Indian Pale Ale, ambas queridas pelos clientes de diferentes paladares. Sua temática de capivaras atrai até quem não gosta de cerveja: vimos uma família se aproximar pois a filha adorava o animal. Mesmo não gostando de cerveja, o pai comprou um copo de vidro com a logomarca e a filha ganhou porta-copos ilustrados com o roedor.
Essa mistura de sabores, sotaques e experiências faz da gastronomia do Eixão Norte muito mais do que uma pausa para comer. É parte essencial do passeio. E, apesar dos desafios que todo comércio ambulante enfrenta, os vendedores seguem firmes, unidos pela paixão de servir e pelo desejo de manter viva essa tradição, que transforma o asfalto da cidade em um verdadeiro festival gastronômico a céu aberto.
Cultura
Professor e músico, Eládio leva, além de vinho, um piano elétrico para seu cantinho no Eixão. Ele lembra que, na infância, na Venezuela, costumava brincar com os amigos nos gramados dos campos de golfe, que surgiram por influência dos estadunidenses. Eram espaços privados, vigiados, dos quais eram expulsos sempre que o watchman aparecia.
Quando chegou a Brasília, se encantou com os imensos canteiros livres, onde qualquer um podia estender uma canga, montar uma rede ou simplesmente sentar sob a sombra das árvores. Foi essa sensação de liberdade que inspirou o nome de seu food truck, 3 Taças. Assim como Maria, Eládio também circula por outros pontos da cidade, mas é no Eixão que se sente, como diz, em casa ou, melhor, no próprio jardim. Define o espaço como um lugar público sem ameaça, onde se pode desfrutar da natureza e das relações que ela proporciona.
Ainda assim, acredita que a continuidade do Eixão do Lazer, tal como conhecemos, depende de um equilíbrio frágil. Faz críticas à falta de valorização do espaço, que, segundo ele, tem um enorme potencial turístico e cultural. Enquanto conversa, seus dedos deslizam pelas teclas do piano, improvisando uma melodia que lembra uma guajira cubana. Ao nos despedirmos, ele permanece por ali, tocando, rindo e dançando com os amigos e clientes que se juntam em torno de sua música.
Seguindo em direção à Rodoviária, a trilha sonora muda. No gramado, uma banda de rock toca Plush, do Stone Temple Pilots. Mais adiante, um DJ anima um grupo de pessoas que dançam ao som de trance no meio da pista. E, logo depois, no maior ponto de encontro do Eixão atualmente, na altura das quadras 07 e 08, dezenas de comerciantes e visitantes se espalham em torno da tenda do grupo Choro no Eixo. A apresentação já havia terminado, mas no centro da via, no que muitos chamam de faixas presidenciais, um malabarista rouba a cena com acrobacias e fogo, encantando adultos e crianças.
Nas redondezas, sentado sobre uma canga e tomando água de coco, encontramos Pedro Lima, de 24 anos, que já se apresentou ali com sua banda, Elefante na Sala. Conta que a experiência foi não só divertida, mas também surpreendente do ponto de vista financeiro. Colocaram uma placa com a chave pix da banda e se surpreenderam com a generosidade de quem passava.
Jéssica Carvalho, brasiliense, fundadora do grupo Choro Delas e professora de pandeiro na Escola de Choro, é musicista do grupo Choro no Eixo. Ela contou que no Eixão é possível uma proximidade com o público; uma roda de choro aberta que conecta o músico com o público. Além disso, há o céu, as árvores, as pessoas que passam.
Problemas
Entretanto, há quem se incomode com a música e com o movimento proporcionado pelo fechamento do Eixão. Em setembro de 2024, o DER e o DF Legal abordaram os comerciantes e pediram que se retirassem. José Roberto, que estava presente no dia, contou que foram pegos de surpresa; os órgãos do GDF não informaram os comerciantes de que deveriam regularizar sua situação. Descobriram no dia, notando uma movimentação atípica da polícia e os rumores surgindo aos poucos prevendo o que aconteceria.
Após o acontecido, José Roberto deixou de comparecer por dois finais de semana: ele e os outros comerciantes foram convidados a retirarem-se e tudo ficou indefinido.
Em outubro, um mês após a intervenção, foi publicada a Instrução Normativa nº 03/2024 do DER que, além de regularizar os comerciantes, também organizou os chamados “pontos de música”, localizados nas SQNs 113, 203 e 207, criando uma referência para quem busca apresentações ao vivo.
Tanto Roberto quanto Eládio afirmaram ainda estarem insatisfeitos. Afirmam que a resolução ainda deixou muita coisa em aberto e que falta uma infraestrutura melhor, como banheiros químicos e pontos de luz. Roberto conta que registrou “com GPS e tudo” seu ponto no Eixão, junto ao DER; mas não há fiscalização e, sendo assim, qualquer um pode pegar esse lugar; depende da amizade que tem com seus vizinhos.
Futuro
Um fator que contribuiu diretamente para o fortalecimento do Eixão do Lazer foi o programa Vai de Graça, lançado em março de 2025. A iniciativa garante transporte público gratuito de ônibus, metrô e BRT nos domingos e feriados, das 7h às 21h30, facilitando o acesso de quem vive tanto no Plano Piloto quanto no Entorno.
O Eixão do Lazer é, hoje, muito mais do que uma via fechada para carros. É um retrato vivo do espírito brasiliense: diverso, criativo e coletivo. É onde as histórias se cruzam, das crianças no rolimã aos músicos de choro, dos ciclistas aos comerciantes, das famílias que ocupam os gramados aos artistas que transformam o asfalto em palco. Mesmo diante dos desafios, o Eixão segue pulsando, lembrando a cada domingo que nenhuma cidade é feita apenas de concreto, pistas e monumentos. Sem gente ocupando os espaços, não há cidade; não há vida.
Para além das palavras, o vídeo abaixo traz um pouco da atmosfera do Eixão do Lazer. Cenas e trilha sonora que mostram Brasília em movimento, no espaço onde a cidade se encontra, se reconhece e vive.
Fotos e Vídeo: Vítor Lacerda e Raquel Câmara
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