E então me dei conta de que aquilo foi o pior que me podia acontecer, e em meu pior momento. Ou no melhor, o que é pior ainda.
Eu vinha numa sequência que eu entendia como empoderadora, furiosa de vitórias na empresa. Chegara na cidade e na firma em janeiro, vinda do interior, decidida e dedicada a vencer. No mês de setembro pulei de só mais uma na equipe de vendas para a gerente do setor. Mas era pouco. Manobrei e me matei e em novembro era titular do departamento de compras da empresa: Menos estresse e mais dinheiro na conta.
Em dezembro o dono fez aquilo que, enquanto estava no segundo escalão, eu considerava uma lenda da casa: Uma premiação ou “participação nos lucros” informal, só para os líderes e ocupantes de cargos de confiança. Foi dinheiro vivo, money na mão, cash. Certamente para evitar movimentações financeiras rastreáveis, algo desinteressante para o CNPJ da empresa, o CPF do dono – e o nosso.
Eu vinha pela rua com meu prêmio bem enfiado na bolsa, minha primeira Louis Vuitton, que tinha até apelido: “Nunca foi sorte, sempre foi trabalho”. Ia chamar o Uber, mas ao abrir o visor do celular, vi a notícia.
Quase que imediatamente, enquanto eu vivenciava o baque, minhas irmãs me telefonaram. Estavam juntas, no hospital. Entre lágrimas e berros, se revezavam no telefone, principalmente para me xingar.
Eu não estivera presente em sequer um dia da longa convalescença de minha mãe. Comprei remédios, fraldas. Aluguei cadeira de rodas da melhor. Ia aproveitar os dez dias de recesso de fim de ano para finalmente vê-la. Voltaria àquela cidade que jurara não mais pisar, ainda que fosse para ouvir seus sermões, sua ladainha sobre Cristo, voltar para a igreja, parar de beber. Por algumas horas apenas, que estava de viagem marcada para Balneário Camboriú, a convite do dono da empresa.
Atravessei a rua, cancelei o Uber, ainda ouvindo a explosão de fúria de minhas irmãs.
Peguei um ônibus, depois de quase seis meses. Havia dito que nunca mais andaria em um. Eu já tinha meu carro, comprado há dois meses. Estava fazendo aulas para habilitados, precisava ganhar maior confiança ao volante. Mas mesmo antes disso, com minha ascensão na empresa, só utilizava ubers e taxis.
Me sentei na janela. Era um veículo antigo, sem ar-condicionado. Abri o vidro, não me importando com meus cabelos sob o vento forte e poluído de São Paulo.
Enquanto pensava em minha mãe, recordei de quando ela nos levava, a mim e a minhas irmãs, para a igreja, para a escola bíblica dominical. Eu sabia tanto! Mas seus olhos agora pareciam me acusar. Eu não me lembrava daqueles olhos acusadores em minha infância. Eles não existiam por lá. Por que agora?
Enquanto o ônibus, mais vazio que cheio, trafegava pelas ruas da noite abafada, comecei a entender aqueles olhos que pareciam luas. E foi como se o entendimento, de que eu me desviara há tanto tempo, caísse sobre mim como uma pedra.
Pousei o celular no banco, ligação continuada das explosões de minhas irmãs, agora um chiado baixo.
Sem saber bem o que fazia, como que anestesiada, abri a bolsa.
Aquela vendedora, a Verônica, a que me treinou. As peças da loja que, semanas depois, coloquei na bolsa dela, as peças que a fizeram ser demitida, as peças que me fizeram ficar com o lugar dela... e joguei pela janela aquele maço.
Apanhei mais um pouco ou um muito de dinheiro. A Marcelle, a quem sabotei o quanto pude, e acabei sendo promovida por cima dela, de quem era a vez... E lancei mais um maço de notas para o ar escuro.
Isabel, de quem herdei o cargo de gerente de compras e que, “rebaixada”, preferiu pedir demissão da empresa onde entregara dez anos de sua vida. Mais um maço.
Chorei, de confusão e de pena ao ver aquele dinheiro voando para ruas vazias, sabe-se lá para quem.
Os olhos de minha mãe, em minhas lembranças, continuavam acesos. Diminuíram seu brilho estranho, mas eram ainda brasas vivas.
A posição de gerente de compras me custara mérito e intrigas, mas também sexo. Meu corpo, engrenagem do capitalismo e do comunismo e do que mais quisessem, fora mercadoria do gerente-geral, e dele passara para o dono da empresa.
Apanhei com agora ódio o último maço do bônus e lancei-o pela janela.
“Vamos, Carolina, para a casa do Senhor”, ouvi em minha memória, sentindo junto o gosto de seu café e o cheiro ou o gosto da terra molhada das tardes de Belém. Minha mãe me convidava com um sorriso, e olhos de abraço, olhos de mãe.
Jesus de minha mãe, Jesus a quem apunhalei aos meus dezenove anos, quando me apunhalei, tenha compaixão de mim.
Permita que um dia, mesmo tão longe quanto estou longe, eu deixe de ser engrenagem para voltar a ser fogo queimando a máquina.
Publicado originalmente na Revista AMPLITUDE n.7 (Jan 26)