Outro dia tirei sarro dos xĂłvens que descobriram a nĂŁo-existĂȘncia fĂsica de Sherlock Holmes, mas eu tambĂ©m jĂĄ vivi esse momento âninguĂ©m nasce sabendoâ, Ă© claro. Um deles foi quando minha mĂŁe contou que Diadorim Ă© mulher; e o outro foi quando percebi que conheci Sean Connery âao contrĂĄrioâ - nĂŁo fazia ideia de que ele tinha sido o primeiro (e melhor) James Bond.
Muito antes de assistir Orgulho & Preconceito dia sim e dia também, existiu Armadilha, existiu um senhor Sean Connery ali por volta dos anos 2000 que era uma novidade para mim. Esse filme, de 1999, passava na Sessão da Tarde ou na Temperatura Måxima e eu sempre parava pra assistir. Eu não gostava de filmes de ação e até hoje não sou muito fã, mas gostava desse filme.
Armadilha, que estĂĄ longe de ser um dos trabalhos mais impressionantes de Connery, se aproveita de um argumento muito vĂĄlido para a Ă©poca: o bug do milĂȘnio, quando a gente achava que o mundo acabaria ou toda a nossa tecnologia seria dissolvida por um problema no relĂłgio. Mas Sean Connery e Catherine Zeta-Jones, os pares de sobrancelha mais bonitos do cinema, nĂŁo.
Catherine Ă© Virginia âGinâ Baker, ela trabalha numa seguradora norte-americana e persegue a vida do ladrĂŁo Mac (Sean Connery), um homem que jĂĄ Ă© rico, nunca foi pego, mas rouba arte por prazer. Quando um Rembrandt desaparece, Gin prova ao seu chefe que foi Mac, apesar dele aparentar nĂŁo ter mais idade para escalar um prĂ©dio e roubar um quadro. Com isso, a intenção de Gin Ă© ser enviada para capturar o ladrĂŁo, fingindo estar ao seu lado, infiltrando-se e isolando-se com Mac em seu castelo. Na real, ela se comporta inicialmente como uma agente dupla, mas sua obsessĂŁo por Mac torna-se afeição, para alĂ©m do seu verdadeiro plano: aproveitar o bug do milĂȘnio ganhando segundos a mais e roubando um banco importante na MalĂĄsia. Gin alega que nĂŁo consegue fazer isso sem ele, mestre da arte de roubar. Depois de algumas provas sobre o quanto ela Ă© boa no que faz, Mac aceita.
Impondo apenas a relação profissional como regra entre os dois, Ă© Gin, muito sedutora, quem se vĂȘ apaixonada primeiro. Tal aproximação Ă© rejeitada por Mac. Mas no final, quando ela percebe que caiu na armadilha do ladrĂŁo que lhe entrega para a polĂcia; Ă© ele quem planta uma nova armadilha para a polĂcia, permitindo que Gin fuja com uma âpequenaâ parcela do roubo ao banco, dizendo: âeu estava preparado para tudo, menos para vocĂȘâ.
Outras frases icĂŽnicas e clichĂȘs desse filme sĂŁo: âprimeiro testamos, depois confiamosâ e âeu nunca me atraso. Se me atrasar, Ă© porque estou mortoâ, ambas ditas por Connery e dessa Ășltima me lembrei mais no dia em que ele morreu.
Depois desse filme, soube do passado famoso de Sean Connery, devorei todos os 007 com ele, com outros; e sim, apesar dos muitos defeitos, gosto da franquia.Â
Ă Ăłbvio que Armadilha tambĂ©m tem seus problemas e mereceu todas as crĂticas que levou. Uma direção machista: sempre que podia, a cĂąmera focava na bunda da Zeta-Jones, ela tambĂ©m quase levou o Framboesa de Ouro como Pior Atriz, o filme inteiro com aquela cara de âfeito para Sean Connery brilharâ, quase tornando a participação de Catherine irrelevante. Mas, Ă© um bom entretenimento e tĂĄ disponĂvel na Amazon, caso queira assistir.Â
A Liga ExtraordinĂĄria Ă© outro filme com Sean Connery que defendo com unhas e dentes e nĂŁo entendo porque desprezam tanto. Ele tambĂ©m desprezou, se aposentou depois do insucesso. Para ser honesta, nĂŁo vejo nada de diferente desse filme de herĂłis para os filmes bobĂ”es da Marvel hoje.Â
Sim, eu gosto de filmes ruins.
Com Armadilha e A Liga ExtraordinĂĄria, sempre penso que Connery abriu as portas para dois tipos de filmes sĂłlidos nas bilheterias: os de herĂłi com ares adultos e sombrios, que se consolidariam pouco tempo depois; e os de âhomens velhos que sĂŁo fodas em filmes de açãoâ, como Ă© o caso do Liam Neeson salvando aquela filha chata dele na franquia em que a jovem adulta Ă© sempre sequestrada; ou Keanu Reeves (que ok, nunca envelhece), se vingando do assassinato de seu cachorro. Os muitos filmes protagonizados por Steven Seagal e Stallone pĂłs-Rocky entram nessa lista tambĂ©m.
Mas Connery nĂŁo serĂĄ e nem precisa ser reconhecido por isso, assim como nĂŁo foi limitado por seu papel como James Bond - aquele foi sĂł o primeiro de muitos sucessos, o mesmo nĂŁo dĂĄ para dizer de seus sucessores interpretando o agente. AtĂ© quem parodiou a franquia ficou marcado apenas pela imitação - infeliz caso de Mike Myers, talentosĂssimo e lembrado apenas como o agente âbondâ cama, Austin Powers.
Giovanna Dealtry observou sobre Connery: âSean Connery era um exemplo de elegĂąncia e charme, caracterĂsticas de Ă©poca quase. Com 20 ou 80 anos continuava atraente por estar fora do tempo. Por saber como poucos namorar a cĂąmera e as mulheres. Ă o Ășltimo dos homens no cinemaâ. Sean Connery foi meu ator favorito e provocava essa sensação âmeio Chico Buarqueâ mesmo, nĂŁo importa a idade que ele tenha ou que vocĂȘ tenha, nas telas, a paixĂŁo Ă© quase instantĂąnea, fulminante. Sempre que maratonava a filmografia de Connery, ficava aquele aperto no peito de âpoxa, que pena que o conheci tarde demais, nĂŁo tem mais filme para verâ - e olha que foram mais de cinquenta anos de carreira. Quando o artista Ă© competente, nunca cansa quem assiste. A morte de Connery, aos noventa anos e dormindo em sua casa nas Bahamas, nĂŁo foi uma surpresa. Triste Ă© constatar que, mesmo afastado da sĂ©tima arte hĂĄ algum tempo, o charme do cinema se foi junto com ele.