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Entrevista inédita com Augusto Mendes da Silva, cantor lírico, pintor e desenhista, autor das capas dos livros de Monteiro Lobato
Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga
Não é todos os dias que temos a honra e o privilégio de conhecer um autêntico gênio. Aliás, podemos passar a vida toda sem jamais conhecer um. Foi em um dia agraciado que não só tive essa honra e privilégio, como ainda pude entrevistar e desfrutar de uma tão nobre e agradável companhia por quase duas horas.
Foi um outro gênio (que infelizmente não conheci, por ter falecido antes de eu ter nascido) que me conduziu a esse gênio. É que na época realizava pesquisas sobre a vida do escritor de ficção científica Jerônymo Barbosa Monteiro (1908-1970), e na velha agenda deste, a que tive acesso, constava o nome de um tal de Augusto Mendes da Silva. Sem saber se ainda estava vivo e qual seu paradeiro, procurei aleatoriamente pelo nome na lista telefônica da cidade de São Paulo, e lá estava. Liguei para o número e Augusto consentiu em me receber naquela mesma hora em sua casa (um verdadeiro palacete) e estúdio na rua Leonardo Nardez, paralela a República do Líbano e em frente ao Parque do Ibirapuera.
Esperava apenas que ele me falasse algo de Monteiro, com quem mantivera contatos esporádicos, mas logo me dei conta de que deixaria passar uma grande oportunidade se não entrevistasse o próprio Augusto, que naquele mesmo momento passou a ser minha prioridade.
O motivo do nome de Augusto Mendes da Silva (1917-2008) estar na agenda de Monteiro, era porque ele era o autor de todas as capas dos livros de ninguém menos do que Monteiro Lobato (1882-1948), outro pioneiro da ficção científica brasileira, para quem não sabe. Monteiro talvez almejasse que as capas de seus livros também fossem desenhadas por Augusto, que assinava como AVGVSTVS, classicamente, pois foi Augusto quem conferiu estilo e grandiosidade às capas dos livros de Lobato.
Ousada capa e contracapa em big-close de Augusto Mendes da Silva para o livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Pintor e desenhista comercial (no que hoje seria chamado de artista gráfico), sua reconhecida especialidade era a representação humana. Fez mais de oitocentos retratos a óleo e crayon. Para as ilustrações das capas de Lobato, a base preta dos desenhos recebeu cores fortes, em combinações inusitadas, com ênfase nos enquadramentos arrojados, tal como a capa de Reinações de Narizinho, em big-close. As capas, que levava em média dez dias para terminar, certamente funcionavam como verdadeiros cartazes nas estantes das livrarias, com capa e contracapa ligadas por um único desenho. Incluídas no repertório de várias gerações de leitores de Lobato, até hoje essas imagens pops de AVGVSTUS publicadas de 1949 até por volta de 1971, são cultuadas e disputadas por bibliófilos e colecionadores.
Note a assinatura AVGVSTVS de Augusto Mendes da Silva logo abaixo do nome de Monteiro Lobato.
Augusto nasceu em Santos em 12 de setembro de 1916, mas viveu a maior parte de sua vida na cidade São Paulo, onde conheceria Lobato, vizinho de escritório. Muito cedo já sentia inclinação para o desenho. Foi o professor Máximo de Azevedo Marques que lhe deu as primeiras aulas de desenho, com as quais adquiriu sólida base. Nasceu então em Augusto a determinação de ser pintor. Conta ele que choveram críticas de todos os lados – pintor morre de fome, diziam. Um dia apareceu em casa um tio seu que era secretário de um grande desenhista comercial: Juracy Ulisses Campos. Seu tio então sugeriu que aplicasse o dom que possuía para o desenho na arte comercial, que era uma profissão bem remunerada. Augusto acabou se curvando à realidade e passou a se dedicar à arte comercial.
A arte comercial de Augusto Mendes da Silva sempre trazia muita arte consigo: propagandas para a Cervejaria Cerpa e para os Brinquedos Estrela.
Conforme ia recebendo mais encomendas e conquistando novos clientes, chamou a atenção da agência N. W. Auer, em cujo teste foi aprovado. No início teve que fazer estágios em tipografias, clicherias e estereotipias, até que finalmente começou a trabalhar na agência propriamente dita na sua função de desenhista. Seu talento era notório e não demorou a receber propostas de outras agências. Uma delas lhe ofereceu o dobro do que ganhava. Augusto aceitou o desafio, que, no entanto, não deu certo, e ele teve de voltar a ser freelance. Isso não o abateu, e logo recuperou sua clientela, que não parava de crescer. Augusto foi considerado um dos melhores desenhistas da época e chegou a ilustrar o Almanaque do Biotônico Fontoura.
O talento de Augusto ia além das artes plásticas como descobriria ao se apaixonar pela ópera e passar a se dedicar com afinco ao canto lírico. Barítono, gostava de citar as temporadas de Madame Butterfly e La Bohème (Puccini) e I Pagliacci (Leoncavallo), além dos recitais no Rio e em São Paulo, ao lado da esposa, a soprano Eva Espíndola (nascida em 1943), a quem também tive a honra e o privilégio de conhecer e entrevistar na ocasião, sendo agraciado inclusive com seus cânticos. Ao mencionar meu interesse pelos OVNIs (Objetos Voadores Não Identificados), Eva relatou uma experiência ufológica que vivenciara em Campo Grande (MS) em 1980.
A soprano Eva Espíndola e Cláudio Suenaga diante dos quadros de Augusto Mendes da Silva.
Augusto soube que a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni (1888-1962), registrada como contralto e casada com o empresário e industrial brasileiro Henrique Lage (1881-1941), mantinha no Rio de Janeiro uma escola gratuita para jovens com talentos. Sonhando em entrar para essa escola, recebeu uma proposta da Standard Propaganda para trabalhar justamente no Rio de Janeiro, que logicamente aceitou de imediato. Sua primeira atitude foi telefonar para Besanzoni que o encaminhou para um professor de canto, o Sr. Boscacci. Porém, para sua desgraça, Boscacci era tão incompetente que o deixou sem voz. Abatido, Augusto mergulhou na depressão.
Um dia decidiu reagir e pouco a pouco foi recuperando a confiança em si mesmo. Voltou a estudar canto, mas desta vez com um professor competente, e recuperou a voz. Certo dia do ano de 1942, viu anunciado no jornal a realização de um concurso para cantores líricos e não teve dúvidas: inscreveu-se. No dia do concurso estava tão nervoso que simplesmente não conseguia respirar. Cantou Nemico de la patria, da ópera Andrea Chénier, docompositor verista Umberto Giordano (1867-1948), ópera essa baseada na vida do poeta francês André Chénier, que foi executado durante a Revolução Francesa. Foi muito aplaudido e saiu vencedor. Em seguida estreou na ópera La Bohème, de Giacomo Puccini (1858-1924). Augusto sentiu então que já podia voltar para São Paulo, pois voltaria vitorioso.
Augusto Mendes da Silva diante de seu auto-retrato.
Montou um atelier na rua Xavier de Toledo. Pegou uma pasta com trabalhos e visitou várias agências de publicidade. No fim do dia voltou carregado de encomendas. Algum tempo depois fez uma prova com o violoncelista, pianista e maestro Armando Belardi (1898-1989), que o inscreveu no seu grupo, passando a tomar parte nas temporadas líricas, onde estreou em 1943 na ópera Lucia di Lammermoor, do compositor italiano Domenico Gaetano Maria Donizetti (1797-1848), no papel de Lord Enrico Ashton. Paralelamente, Augusto continuava trabalhando como desenhista para as grandes agências e editoras.
Foi em 1945 que começou a confeccionar o Almanaque do Biotônico Fontoura. Augusto não só fazia as capas e contracapas, mas na parte interna fazia praticamente tudo. Concebia as ideias, os títulos dos anúncios e as artes-finais. Cuidou do Almanaque durante nada menos do que 16 anos.
Augusto Mendes da Silva diante das várias capas que fez para o Almanaque do Biotônico Fontoura.
Almanaque do Biotônico Fontoura de 1950 assinada por AVGVSTVS.
Ainda em 1945, passou a fazer parte do cast da Rádio Gazeta, cantando na então famosa “Cortina Lírica”. Estava tudo indo muito bem quando um dia a direção resolveu acabar com o programa lírico, e assim, durante dois anos, Augusto ficou completamente afastado da música. Isso lhe causava uma sensação de vazio, no que decidiu voltar a cantar ainda que fosse como amador.
Certo dia, a sua colega Diva Alves lhe deu a notícia de que a TV Excelsior estava formando um quadro de cantores líricos. Apresentou-se para o teste e no mesmo dia assinou contrato. Tudo ia às mil maravilhas, quando o Victor Costa (1907-1959), dono da emissora, faleceu. O filho assumiu a direção e a primeira coisa que fez foi acabar com o programa lírico. Paralelamente, sua vida na arte comercial estava chegando ao fim. A fotografia começava a tomar conta do mercado e o serviço diminuía. Sua situação se tornou catastrófica, pois as duas coisas que melhor sabia fazer, desenhar e cantar, estavam lhe sendo negadas.
Cláudio Suenaga e Augusto Mendes da Silva. Foto de Eva Espíndola.
Aconteceu então o inesperado. Recebeu a incumbência de pintar o retrato a óleo do advogado e político Auro de Moura Andrade (1915-1982), conhecido como “o rei do gado”. Como presidente do Senado, Andrade foi o responsável por declarar vaga a Presidência da República por ocasião do Golpe Militar de 1964. Quando o deputado Emílio Carlos viu esse retrato, ficou entusiasmado e encomendou o seu próprio.
Daí em diante, Augusto não parou mais de pintar: naturezas-mortas, marinhas, paisagens e retratos religiosos com traços que transitam entre o acadêmico e o hiper-realismo. Foram encomendas e mais encomendas e é disso que seguiu vivendo. Premiado com mais de uma dezena de láureas em salões de artes paulistas desde 1976, Augusto pintou ao longo de sua prolífica carreira mais de mil obras, a maioria pertencente hoje a acervos, como os da Universidade de São Paulo (USP), Tribunal de Contas e Câmara Municipal de São Paulo.
Aos 85 anos, Augusto se mudou para Florianópolis levando o mesmo vigor e intensidade que o consagraram em São Paulo. E ainda continuava cantando, paixão que nunca abandonou.
Almanaque Do Aluá N° 2 - 2006
adorei o calendário
Almanac, 1836. Charlotte Smith Uncatalogued Minitatures.
GIFed by @uispeccoll

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¡Feliz Año Nuevo!
2021 Colombian calendar ft. Aya and her bakery. Yes, we have a lot of holidays 😆 Inspired, of course, by the calendars that small businesses (especially butcher shops) hand out to their customers around this time of the year.
SEBASTIÃO RODRIGUES, REVISTA ALMANAQUE 1959
eu acho que tô gostando de você. é isso. sem fantasiar sobre isso, sendo direta e coisa e tal. eu acho que gostar são todas as definições que conversamos sobre, e eu acho que realmente sinto isso quando penso em você. eu só te vi uma vez, eu sei, mas... essas coisas não são predefinidas para gente poder escolher x ou y. na real, escolheria y se pudesse, porque por tudo que a gente conversou, você não parece estar disposto a querer sentir essas coisas novamente. e tudo bem.
não quero que isso seja uma declaração imposta por reciprocidade, eu sei que não vai ser isso, e tô trabalhando nessa negativa. mas, eu acho que devo ser sincera comigo mesma. foram tantos achismos que duvido ter certeza de algo por agora. e me desculpa qualquer coisa, por insistir nas conversas e na minha aleatoriedade (que tá mais para encheção de saco).
07/06/2020.