❛ — not so spooky.
Quando pequena, o Natal era a época favorita de Millie, por conta de todas as tradições de sua família e do brilho no olhar que sua mãe sempre expressava ao montar a árvore com um zelo surpreendente. Contudo, com o passar dos anos isso havia mudado, e desde a morte da mulher um carinho especial pelo Halloween começou a surgir no coração da garota. Poder se fantasiar e se camuflar com o restante da população, fazendo com que ela passasse completamente despercebida por todos era exatamente o que ela mais desejava. Para aquela noite, havia encomendado uma máscara especial, formada de luzes de led e um dispositivo acoplado, que transformava sua voz drasticamente. Havia colocado todo seu investimento de tempo e dinheiro no projeto daquele objeto, e optara por qualquer roupa que a cobrisse por inteiro para dar o toque final em seu disfarce... quer dizer, fantasia. Seu corpo esguio, sem muitas curvas parecia ser engolido por um moletom vermelho, largo demais e que fazia com que ela se confundisse com qualquer garoto de Gallica. Apenas tivera o cuidado de não se assemelhar ao temido V e acabar arranjando encrenca sem motivos.
Já havia se divertido na montanha-russa e em outras atrações do evento temático, e tudo correra tranquilamente, aquele tipo de liberdade e solidão era tudo que ela mais desejava. Porém, descobrira um erro grave em sua escolha de fantasia ao tentar beber uma cerveja que havia adquirido em uma barraca qualquer. Como encaixaria seu copo naquela máscara sem derrubar o líquido e estragá-la completamente? Revirou os olhos e soltou um resmungo baixo. De maneira alguma deixaria a oportunidade de se embebedar livremente escapar de suas mãos de modo tão estúpido, aquilo era inaceitável. Suas lamúrias foram interrompidas então, sem aviso prévio, quando sentiu um corpo colidir contra suas costas. Com aquilo, virou-se com certo desgosto para encarar a figura que fizera com que toda sua bebida fosse desperdiçada, mesmo sabendo que possivelmente não a aproveitaria com facilidade. Mas ao reconhecer a pessoa com quem trombara, imediatamente se esquecera da bebida que fora de encontro ao chão.
Ao recordar-se do acontecimento que a introduzira a @argoxs, o rosto de Millie imediatamente tornou-se rubro e ela deu alguns passos curtos para trás, afastando-se dele. Detestava o fato de ter sido amparada por um completo desconhecido quando se encontrava naquele estado tão deplorável, quando perdera o controle sobre si mesma. Seu pai havia lhe ensinado a se envergonhar de suas ações e escondê-las completamente, principalmente daqueles que atentamente analisavam cada passo que dava, à espera de qualquer vacilo que pudesse ser usado contra ela, contra a imagem de sua família. Apesar de não se importar em dar continuidade ao legado de Veillon, parecia incapaz de se desligar totalmente desse sentimento de culpa e repulsa por si mesma totalmente. Sairia dali antes de ser vista.
Espera. Subitamente se relembrara de um detalhe que o temor e a embaraço haviam afastado de sua mente durante alguns instantes: estava mascarada e ninguém poderia sequer cogitar que aquela se tratava da filha do Chanceler assassinado. Um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios. Como era grata pela existência daquela data! —Ei, bela fantasia! Só não sei se combina com essa sua expressão de total desespero.— Iniciou uma conversa com certa urgência, mas tentando manter a atmosfera leve e afastar qualquer estranheza que pudesse ter causado com sua reação inicial. — Viu algo que não queria na casa assombrada? — Sentiu-se tola com aquele pergunta, mas tentava se aproximar dele. Havia se afastado bruscamente, mas ainda sentia como se devesse algo ao homem, gostaria de descobrir o motivo que o levara a ajuda-la e, talvez, recompensá-lo de algum modo.













