❛ — not so spooky.
argoxs :
A ideia era ridícula e sua participação mais ainda. Fantasiar-se de alguma pessoa de grande importância histórica — ou que ao menos a tinha antes de Gallica I — fora uma verdadeira dor de cabeça e Argorian não podia negar o seu aborrecimento. Detestava chamar atenção e ter olhares sobre si e, naquele instante, ele estava tão luminoso quanto um foco de luz robusto, o dourado das vestes refletindo qualquer coisa que o iluminasse. Amaldiçoara os amigos a noite toda por causa daquilo, mas também se culpava; há muito não saía para se divertir, como eles diziam, e precisava manter algumas amizades antes que acabasse de se afogar em uma solidão terna que o enlouqueceria. Outra vez. Não, aquela não era uma opção, e se ficar aborrecido em uma festa cujo não reconhecia a maioria e ainda se via em um posto que não imaginara ou desejara significava o oposto, então ele estava feliz.
Nenhuma bebida havia sido ingerida. Ele sabia que não podia alterar sua pressão endogenamente com substâncias inadequadas ou acabaria sofrendo com um curto circuito grave. O álcool acabaria por reagir com o fluxo de energia grande que tinha logo abaixo do peito com o grande rasgo da cicatriz e ter que voltar à mesa de operações era um de seus pesadelos. Estava tudo bem apenas beber alguma bebida que era imitação da alcoólica — sem álcool, é claro. Vez ou outra se via perdido em brinquedos que, de fato, o divertiram, e nas mesas de quitutes que estavam melhores do que os da última vez para não fazer críticas pesadas.
No fim das contas, Argo estava perdido. A maioria dos amigos já haviam passado dos limites com as bebidas e não se atreviam a ir em mais algum brinquedo. Para a sua sorte, na verde, eles haviam sumido. Agora ele poderia tranquilamente pensar em como tirar as roupas brilhantes e pelo menos a coroa egípcia já havia sido deixada de lado, descaracterizando-o de uma forma nítida na fantasia. Parecia mais um homem qualquer vestindo roupas antigas e joias do que um verdadeiro faraó, como estava momento antes. Foi tirando a coroa e tentando prendê-la em algum lugar da roupa que acabara por vacilar em um passo e trombara em outra pessoa. Os olhos ergueram-se para encarar a quem havia incomodado com o próprio corpo, semicerrando os olhos para a fantasia um tanto amedrontante com um leve receio de ter tido o azar de trombar na pessoa mais errada possível.
Esperando qualquer tipo de xingamento, já preparava o melhor discurso de desculpas, mas teve que admitir a surpresa quando viu a outra — e pela voz, tinha certeza de que se tratava de uma mulher — ignorar o fato de que havia perdido a bebida e sido empurrada. “Oh. Obrigado. A sua também está muito interessante.” disse um pouco sem jeito, piscando algumas vezes com um sorriso sem graça. “O desespero é justamente por causa dela, na verdade. Não estou suportando mais carregar essas relíquias.” disse com um tom divertido enquanto apontava para as joias presas, uma vez que eram, na verdade, todas feitas de plástico brilhante. “Eu preferia que fosse a casa e não ter acabado com a diversão de alguém.” riu de forma nasalada e apontou para o chão molhado. “Sinto muito por isso. Não prestei mesmo um pingo de atenção no que fazia.” a expressão se tornara séria outra vez. “Posso compensar outra, pelo menos?”
Interessante. Por algum motivo, ouvir tal comentário sobre sua fantasia a divertia. Sabia que o conceito similar a tão temida figura que amedrontava toda Gallica causaria certa reação das pessoas – torcia para que não fosse rejeição ou inimizades – e inconscientemente esse era um de seus objetivos. Soltou um riso fraco com a reclamação do outro. Não se surpreendeu ao se deparar com uma pessoa amigável, mas ainda assim sentiu-se grata por aquilo. Mesmo que não se desse conta ou apenas não assumisse, a garota sempre estava à procura de evidencias de que ainda restavam algumas pessoas boas e que a ajudassem a reconstruir a sua fé na humanidade, que a fizesse se sentir menos perdida naquele mundo. E ele parecia genuinamente preocupado com o resultado daquele pequeno incidente. Bem, o que esperar de alguém que a ajudara daquela maneira sem nem conhece-la? Veillon ainda temia descobrir algo que a puxasse de volta a cruel realidade.
Coçou a cabeça, pensando sobre aquela proposta. Por mais que quisesse descobrir um pouco mais sobre o rapaz e ver aquilo como uma ótima oportunidade, apenas cogitar aceitar receber qualquer tipo de agrado ou compensação por parte dele a fazia se sentir desconfortável, lhe parecia errado. Afinal, era ela quem devia algo a ele. — Hm, agradeço a oferta, mas não sei até onde essa compensação seria necessária. Acho que não pensei muito bem ao escolher minha fantasia, não consigo encostar o copo na minha boca e ainda corro o risco de causar um curto-circuito e morrer eletrocutada caso líquido na máscara. — Confessou seu erro com seriedade, mas logo soltou uma risada sem graça e deu de ombros. Exagerava ao falar sobre uma possível morte, mas de fato não sabia o que podia acontecer caso um acidente como aquele viesse a acontecer, e não estava disposta a pagar para ver. Não queria ganhar queimaduras em sua face como recordação daquele Halloween.
Aquela situação podia ser igualmente cômica e desesperadora para alguém que não via a hora de encher a cara e, quem sabe, até mesmo deixar-se levar por seu vício em substancias mais fortes. Contudo, aquele reencontro a fizera se esquecer de seu infortúnio, pelo menos por enquanto. Havia lhe dado uma missão e um objetivo, o que era o ideal para manter sua mente ocupada e focada em outra coisa senão escapar da realidade. — Ei, é possível que eu tenha sido enviada até você pra te fazer perceber que essas relíquias talvez não sejam tão ruins afinal. Pelo menos ainda tem a possibilidade de se embriagar para se esquecer do desconforto.— Comentou de maneira jocosa, tentando ver o lado positivo de sua estupidez. Era curioso ver como o anonimato podia transformar completamente a personalidade e o humor da garota, era como se ele a permitisse ser a verdadeira Millicent, uma garota que nem mesmo ela parecia se dar conta da existência. — Ou apenas para ajuda-lo. Precisa de uma mãozinha com suas joias ou coroa?— Continuaria tentando se aproximar e não permitir que aquela conversa chegasse ao fim precocemente.


















