❛ — it belongs to you.
(∴) Perguntava-se o porquê daquela autobiografia ter sido entregue em suas mãos. O porquê de ela ter sido escolhida por aquela desconhecida para receber aquele presente. Tudo fora tão caótico e acontecera tão rapidamente durante sua última visita ao manicômio, que fora necessário permanecer deitada por algumas horas em sua cama, após retornar a sua casa, para que sua cabeça parasse de girar. Inicialmente, ao se deparar com as palavras escritas naqueles papéis rasgados e deteriorados, imaginou que pertencesse a garota que havia os entregado e que ela optara por usar um pseudônimo na assinatura. Mas logo constatou que talvez ela fosse nova demais para ser mãe de três filhos e já ter passado por tudo descrito ali. Então pensou que pudesse se tratar de uma ficção. Não satisfeita em fazer suposições, Millicent se dispôs a pesquisar mais sobre a misteriosa figura por trás daquela história.
A verdade era que aquelas palavras haviam a tocado, ao ponto de levá-la as lágrimas. Via ali o desespero, a súplica e a tristeza de uma mãe que se importava e amava seus filhos, e que desejava que eles soubessem a verdade. Era impossível não se colocar no lugar deles. Caso Valencia tivesse escrito uma última carta, bilhete de despedida ou deixado para trás alguma pista que pudesse ajudá-la a descobrir a verdade por trás de sua morte, Veillon gostaria de ser informada sobre sua existência. Devolver aqueles papéis a quem, realmente, pertenciam era a opção mais justa. Poderia ser arriscado expor segredos sobre o manicômio daquela maneira, mas aquilo não lhe importava. Pelos arquivos do hospital – que comprara no mercado negro da cidade – conseguira encontrar o nome completo da antiga paciente: Rileea Zale. A partir daí, pesquisou à respeito de sua família. Nomeei meus filhos com figuras históricas que li rapidamente em um livro. Aquela fora a informação chave, dada em seu texto, fora usada para comprovar a veracidade da história e encontrar os três nomes. Napoleon, Cleopatra e Galileo.
Julgou ser mais prudente, contactar o irmão mais velho, para então descobrir como notícia seria dada aos demais. Descobriu que o rapaz se tratava de um importante ex-militar, então usou isso como pretexto para convidá-lo para um jantar formal em um dos mais renomados restaurantes da cidade. Imaginou que aquela seria uma ocasião especial para o rapaz, então valeria o gasto que teve ao reservar e fechar o ambiente apenas para os dois, para que também pudessem ter privacidade. Quando a noite do encontro, finalmente, chegara ela vestiu um elegante vestido longo e arrumou-se para o evento, sentindo uma estranha sensação de nervosismo e ansiedade em seu peito. Já havia se esquecido da ultima vez que se sentira daquela maneira. Ao chegar ao local combinado, se certificou de que tudo estava da maneira que requisitara, e que a autobiografia se encontrava sobre uma elegante lareira que se localizava ao lado da mesa escolhida. Está tudo perfeito.
Ao perceber a chegada do homem, ela o recebeu com um doce sorriso e um aperto de mão amigável. Ele é igualzinho a foto. E então o indicou o lugar no qual deveria se sentar para que o chef pudesse servi-los. Havia deixado o momento da revelação para o fim do jantar, para que pudessem aproveitá-lo sem interrupções.
❛…❜
Quando percebera que o rapaz se servia de sua ultima colherada da deliciosa e luxuosa sobremesa, Millicent percebera que o momento havia chegado. Com um breve aceno de cabeça, pediu para que o garçom que permanecera ali durante todo o tempo – os servindo sempre que necessário – se retirasse. E então ele o fez, oferecendo um sorriso gentil a garota, que o retribuiu sem hesitação — Espero que tenha apreciado o jantar, Sr. Epsilon. — Disse, voltando-se a ele. Em seguida, levantou-se e caminhou em direção a lareira, pegando o envelope que fora depositado ali. Por algum motivo, sentia-se nervosa. — Devo lhe informar que meu convite, na realidade, não tem nenhuma ligação com seu histórico militar. Mesmo ele sendo impressionante. — Introduziu o assunto de maneira sutil. Partiu em direção ao rapaz, logo colocando o envelope sobre a mesa diante dele. — Acredito que isso pertença a você e aos seus irmãos. — Disse, com uma postura menos formal, sorrindo. E então caminhou de volta para sua cadeira, sentando-se novamente, observando atentamente a reação do outro. @leonepsilon












