te fazer perceber que antes de nĂłs vocĂŞ nunca tinha conhecido o amor.

Kiana Khansmith

❣ Chile in a Photography ❣
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@refeita
te fazer perceber que antes de nĂłs vocĂŞ nunca tinha conhecido o amor.

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"Ele era meu melhor amigo" falei casualmente numa manhĂŁ de sábado como quem se lembra de algo. E doeu.Â
Esse passado que nĂŁo tem fotografia para ser olhada, mas Ă© refĂ©m das memĂłrias inapagáveis. As cenas formadoras, as experiĂŞncias iniciais e tudo que conhecemos juntos a quatro mĂŁos enquanto estávamos construindo visões de mundo entre lentes. Em par.Â
Um luto mal elaborado, atravessado por sentimentos mais conflitantes, mais cheios de arestas. Minhas raivas envolvem e meus medos pintam as curvas das suas letras com recorrĂŞncia, retornando ao seu nome sempre que penso narrar o abismo me olhando de volta. Entretanto, aresta alguma apaga esse gosto de conhecido que fica de fundo, como o gosto do corante alimentĂcio ao final da mordida no doce. Amarga, como sempre sabemos que será, mas algo sempre apaga essa parte da memĂłria atĂ© que aconteça novamente.Â
"Ele era meu melhor amigo", falei como quem narra um falecimento, pois algo morreu. Esse "ele" nem mais existe andando pela capital, a vida se deu ao trabalho de transportar-nos a lugares tĂŁo outros de nĂłs que Ă© cĂ´mico. Esse "ele" nĂŁo sabe mais nada de mim: nĂŁo temos os mesmos amigos, ou os mesmo locais, as mesmas mĂşsicas e as mesmas piadas. O "ele" nĂŁo dĂłi, o que dĂłi Ă© o verbo.Â
Era. PretĂ©rito perfeito. Ação concluĂda no passado.Â
O que dói é o predicativo com pronome possessivo. A gramática dando conta da posse, mas somente no passado. Não há ação presente, em consequência não há posse no agora.
É atĂ© bom saber que alguĂ©m me conheceu assim tĂŁo bem, apesar da ironia de ir desaprendendo hábitos propositalmente e sem querer. Apago com borracha, com corretivo, com tinta de parede. Me perguntando, em dias como este em que escrevo se guarda na memĂłria esse pronome que agora sou. Sem nome, uma "ela" solta em outro lugar. Com outra rotina e outra histĂłria. Guarda o melhor que tivemos?Â
Cada linha fecha com um semi-sorriso de quem sabe que ele era meu melhor amigo porque a vida permitiu que fosse, até que deixasse de ser. Até que a sorte não mais definisse essa presença. O fim de uma era de quem foi muito, mas não é mais nada além de recorte do passado.
Parte sorte, parte morte.
[Se eu puder ter um pedido a mais Guarde o melhor que tivemos As confidĂŞncias, mesmo que banais Eu deixo em segredo]
te fazer perceber que antes de nĂłs vocĂŞ nunca tinha conhecido o amor.
Já faz um tempo que venho lutando contra a minha vontade de desistir. Tem dias em que Ă© difĂcil levantar da cama, pentear os cabelos ou atĂ© tomar banho.
Eu vivo escolhendo entre gritar ou me calar, mas, na maioria das vezes, não importa o que eu escolha: eu sempre estou perdendo. A sensação de não saber o que estou fazendo, de não saber até quando as coisas vão continuar fora do lugar... Eu vivo nessa batalha interna, querendo alinhar as coisas, mas a vida não anda e não facilita para mim.
Não importa o quanto eu tente ou o quanto eu me esforce, a sensação de fracasso, no fim do dia, mal me deixa dormir à noite. Quase 30 - Mirian Costra.
"Ele era meu melhor amigo" falei casualmente numa manhĂŁ de sábado como quem se lembra de algo. E doeu.Â
Esse passado que nĂŁo tem fotografia para ser olhada, mas Ă© refĂ©m das memĂłrias inapagáveis. As cenas formadoras, as experiĂŞncias iniciais e tudo que conhecemos juntos a quatro mĂŁos enquanto estávamos construindo visões de mundo entre lentes. Em par.Â
Um luto mal elaborado, atravessado por sentimentos mais conflitantes, mais cheios de arestas. Minhas raivas envolvem e meus medos pintam as curvas das suas letras com recorrĂŞncia, retornando ao seu nome sempre que penso narrar o abismo me olhando de volta. Entretanto, aresta alguma apaga esse gosto de conhecido que fica de fundo, como o gosto do corante alimentĂcio ao final da mordida no doce. Amarga, como sempre sabemos que será, mas algo sempre apaga essa parte da memĂłria atĂ© que aconteça novamente.Â
"Ele era meu melhor amigo", falei como quem narra um falecimento, pois algo morreu. Esse "ele" nem mais existe andando pela capital, a vida se deu ao trabalho de transportar-nos a lugares tĂŁo outros de nĂłs que Ă© cĂ´mico. Esse "ele" nĂŁo sabe mais nada de mim: nĂŁo temos os mesmos amigos, ou os mesmo locais, as mesmas mĂşsicas e as mesmas piadas. O "ele" nĂŁo dĂłi, o que dĂłi Ă© o verbo.Â
Era. PretĂ©rito perfeito. Ação concluĂda no passado.Â
O que dói é o predicativo com pronome possessivo. A gramática dando conta da posse, mas somente no passado. Não há ação presente, em consequência não há posse no agora.
É atĂ© bom saber que alguĂ©m me conheceu assim tĂŁo bem, apesar da ironia de ir desaprendendo hábitos propositalmente e sem querer. Apago com borracha, com corretivo, com tinta de parede. Me perguntando, em dias como este em que escrevo se guarda na memĂłria esse pronome que agora sou. Sem nome, uma "ela" solta em outro lugar. Com outra rotina e outra histĂłria. Guarda o melhor que tivemos?Â
Cada linha fecha com um semi-sorriso de quem sabe que ele era meu melhor amigo porque a vida permitiu que fosse, até que deixasse de ser. Até que a sorte não mais definisse essa presença. O fim de uma era de quem foi muito, mas não é mais nada além de recorte do passado.
Parte sorte, parte morte.
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Todas as ruas poderiam ter seu nome e mesmo assim iria me perder. Eu poderia respirar no seu pescoço sem pressa, na urgĂŞncia de descobrir seu cheiro. Encarar seus olhos cansados com a promessa de sossego em meu peito. Suas mĂŁos, provavelmente quentes e macias, controlando as minhas agitadas e trĂŞmulas. Eu iria sorrir ao observar o seu sorriso, com um pingo de malĂcia no canto da boca. Captaria cada palavra que dissesse sĂł para gravar o timbre da sua voz em mim. Eu poderia nomear todas as ruas com seu nome sĂł para lhe homenagear. Iria enfeitar o caminho atĂ© mim, para que o seguisse e me encontrasse. Mas eu estaria lhe encontrando e, ao mesmo tempo, me perdendo.
É instigante o mistério, mas quando a resposta for sim você terá certeza.
te fazer perceber que antes de nĂłs vocĂŞ nunca tinha conhecido o amor.
less
AtĂ© o sol que tocava nossas peles parecia fraco demais, opaco. Minha blusa de mangas compridas nĂŁo me deixava negar, ou esquecer que a frieza morava na esquina. Esses sorrisos grandes e breves, risadas que ecoam para durar mais. O caminho para a felicidade parecia tĂŁo distante para alguĂ©m com cores tĂŁo vibrantes por todo o corpo. Olhava seus olhos cheios de planos, com pupilas saltadas de felicidade e Ăris coloridas, nada me invadia. Esse calor todo nem me tocava. Seus planos eram dedos gĂ©lidos que pensei que deviam ser quentes em algum momento, mas nĂŁo me recordava mais quando. Sentia como se alguĂ©m sequencialmente apagasse as luzes dos meus corredores e vocĂŞ gritasse de fora como quem tenta me acordar.Â
Involuntariamente presa nas minhas melancolias tĂŁo familiares, recebendo dicas nas minhas linhas escritas que decidia ignorar. No fundo, sabia que nĂŁo alcançava felicidade minimamente similar Ă sua, toda a sua vibração e extase me pareciam alienĂgenas. Te via olhar meus olhos e pressentir o que havia de errado pois já havia me visto genuinamente feliz vezes o suficiente. Reconhecendo em minha pele azulada o frio que me preenchia mesmo sob o sol mais quente de meio de tarde. A frieza se arrastava sob minhas veias enquanto sua voz nem me alcançava, nem chegava perto, pois algo nos montes congelados de minha psique dizia que o problema era vocĂŞ.
Teimosa, persistente, sacudi a cabeça para afastar o pensamento e de nada adiantou, pois meu maior superpoder Ă© pensar demais. Talvez por teimosia tenha entregue em suas mĂŁos o mapa para me alcançar, e talvez por vocĂŞ ser vocĂŞ tĂŁo profundamente, nunca conseguiu.Â
Se amor Ă© me deixar congelar enquanto chama meu nome de fora das minhas fortificações, acho que preferia que me amasse um pouco menos. De pouco em pouco menos, atĂ© que tivesse coragem de me tirar daqui.Â
[If loving me means saying
"Babe, I think this is the end"
Well I guess
I wish, I wish, I wish
You loved me less]

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pretérito perfeito
A diferença entre o pretĂ©rito perfeito e o imperfeito está no senso de continuidade, sabe? Como quando digo que cresci, quer dizer que essa ação acabou em algum momento do passado, mas quando digo que algo crescia falo de uma ação que me foi habitual, contĂnua, que estava em andamento.Â
Partindo daĂ, poderia dizer que jogava futebol com minhas amigas ou que lia muitos livros na adolescĂŞncia. Poderia dizer que me apaixonava perdidamente por personagens e que nĂŁo perdia um episĂłdio da minha sĂ©rie favorita. Há algo de bonito em dar esse caráter de continuidade a essas ações, a esses recortes de espaço e tempo em que fui alguĂ©m que hoje ainda sou, em menor dose. Entretanto, tambĂ©m traz uma dose diferente aos outros momentos que seriam pretĂ©ritos perfeitos em mim. Dizer que fui a criança quieta e genial, que perdi aquele brinquedo antigo numa arrumação monumental, que estudei naquela escola ou frequentei aquele curso que hoje nem existe mais. Tudo ali, parado no tempo, perfeitamente encerrado no tempo verbal.
Por isso dói um pouco dizer que morei naquela nossa casa, que vivi a nossa rotina, que deixei aquele espaço. Dói um pouco não dizer que morava e sim que morei, nesse pretérito perfeito e encerrado, em você.
NĂŁo moro mais. Â
Ă© sĂł que dĂłi um pouco quando eu lembro assim
A rua Ă© a mesma em todas as repetições de cena, os passos sĂŁo os mesmos na coreografia e as falas iguais, pois nĂŁo existem mais. O reencontro parcelado, concentrado num mesmo ponto da cidade, onde concordamos em fingir nĂŁo nos conhecer. CĂ´mico pensar que sempre nos vemos num mesmo lugar, que nunca frequentamos, apesar de termos visitado tantos outros dessa capital com jeito de interior.Â
Atravessando a rua, ou passando lado a lado, sem a graça da paixĂŁo ou o conforto do amor. Sem saudade da memĂłria ou vontade de verdade, sem demanda de perguntas. SĂł olhos desviantes e dois estranhos que reconheceriam a risada do outro em qualquer lugar.Â
[E a minha graça tu já não entende]
NĂŁo haveria conversa possĂvel e personagens tĂŁo antagĂ´nicos, como tambĂ©m nĂŁo existe apagamento. Todas as caracterĂsticas incorporadas ainda sabem sua fonte, ainda que nĂŁo doa mais. Ainda que nĂŁo seja mais uma histĂłria difĂcil de contar.
Ficou com as quedas de infância, a frustração de adolescente e quaisquer outros relatos que sejam constituintes, mas nĂŁo centrais. Importantes, mas apenas dados histĂłricos de uma vida longa.Â
Metros separam o contato visual e fĂsico, anos separam a Ăşltima vez que fomos algo bonito de se ver e eras separam o que podia ter sido, em outro universo, com outras pessoas. Se vocĂŞ nĂŁo fosse vocĂŞ e eu nĂŁo fosse eu. NĂŁo procuro mais culpados, já sei quem sĂŁo. NĂŁo elaboro alĂ©m da conta, sei que vocĂŞ nĂŁo o faz tambĂ©m.Â
[O que o amor vira quando chega o fim?]
Tudo está exatamente nos lugares em que deveria estar, entretanto, não te parece cômico teu peito ainda pintado da minha cor favorita e eu ainda usando a tua camisa mais antiga?
Ainda que a cor não seja mais minha, ainda que a camisa já tenha deixado de ser sua há tanto. Não te parece cômico não esquecer de nada enquanto esquece gradualmente de tudo?
strangers to lovers to enemies
A panela azul, como a cor do meu cabelo quando compramos, hoje já descasca, pendurada na cozinha em outro endereço, mas tão pequena quanto a anterior. As almofadas do sofá agora ficam na cama e as listas de compras não têm os mesmos itens que você escolhia. Ausências como cartas de adeus dedicadas a ninguém, marcadas e sublinhadas em pontos marcantes em tons de azul-marinho.
Uma pequena queimadura em meus dedos, ou um hematoma perdido no braço, coisas que vocĂŞ diria serem fruto da minha falta de coordenação tĂŁo fĂ©rtil enquanto arrastava os pĂ©s desajeitadamente pelo piso que nĂŁo escolherĂamos se fosse nosso.
Pontos de referência domésticos delicadamente perdem o sentido agora que alguns quilômetros diferenciam as paredes que te conheceram e que você conheceu de volta. A marca em forma de estrela vermelha num grande fundo branco, causada pela bola de brinquedo; os furos da prateleira que foi embora no mesmo carro que você. Deixei-as em outro ponto da cidade, convenientemente cobertas de tinta branca.
Abandonei alguns metros quadrados de perguntas, de lembranças e de ressentimentos quando empacotei com cuidado as convicções. Limpei a mesa atĂ© desaparecerem as marcas, tĂŁo antigas quanto seu riso no mesmo quarto que o meu, e descartei os pequenos copos que faziam parte da coleção. NinguĂ©m mais os usaria. ExcluĂ os vĂdeos e as fotos, mas isso nĂŁo impede, de vez em outra, de trombar com teu rosto perdido entre pares, em cenas felizes de outras pessoas. A maior prova de que olhos podem mentir Ă© a fotografia de nĂłs. SorrĂamos como quem tem o mundo nas mĂŁos, mas nunca tivemos como obtĂŞ-lo. Estávamos devendo muito aos deuses do amor, pois nosso laço mais parecia nĂł. VocĂŞ lamuriou quando percebeu que me desfiz de nĂłs.
Desatada das presenças confortáveis, dos saberes antigos e da panela azul cheia de marcas de uso pendurada na cozinha. Ainda é boa, mas agora minha. Ouço suas bandas como minhas, conto as histórias sem necessidade de menção, sem a relevância de informar sua presença e confirmando nossa triste transição: de estranhos a amantes e, por fim, a inimigos.
falling in love, no, it ain't for the weak
so don't try this at home
(amor)te
eu morri todos os dias em que estive a sua espera, nossa histĂłria de amor pĂłstuma era tĂŁo linda que me recusei ir embora. quando morre todo mundo vira santo, diziam, me embriaguei na santidade, no espectro translĂşcido, do nosso amor fĂşnebre.
PORTRAIT OF A LADY ON FIRE (2019) dir. Céline Sciamma

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queer films:
"when you're observing me, who do you think I'm observing?"
portrait of a lady on fire (2019) dir. celine sciamma