te fazer perceber que antes de nós você nunca tinha conhecido o amor.
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@refeita
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geminiano
Escrevo para te demorar porque você não vai. Faz parte de algo na sua essência ser volátil, volúvel, levado pelo vento como folhas soltas. Apesar da chegada forte, suas palavras são tão incertas quanto os bom-dia que dou a estranhos porque seu afeto escapa entre os dedos com a mesma rapidez que se ajunta. Suas incertezas pontudas e meias-verdades ásperas compõem uma visão tão nova que quase me tira o ar. Quase. Faz parte da sua natureza a fuga da compreensão, mas, meu bem, preciso entender tudo para permitir que permaneça. Preciso conhecer seu jeito antes de te deixar (me) ver um pouco mais. Te distraio com mil palavras que se fingem profundas, gasto vocabulário e lirismo para te distrair da sensação crescente de não saber. Porque não saber me assusta, porém, saber demais também. Sei que nada me aterroriza mais que a sua assertividade. Acuso como mentira, pois sei que se for verdade, palavra por palavra, estamos fadados a falhar. Se ousar significar algo, o fracasso é certo.
Cercar você é apostar no desejo transbordando do corpo, inundando mil Venezas entre suas mãos. Você diz que não conhece o terremoto interno e eu invejo, pois meu mundo já é de ruínas há anos. Não me identifico com sua lacuna de catástrofes naturais, pois quando você brinca de fazer sentido meu peito faz tsunami. Nosso embate mais íntimo é que você quer ser desejado e eu quero ser amada. Você quer se banhar nos meus olhares, se vestir da libido e da paixão, já eu me prendo às sensações quentes de dormir sobre o peito de alguém. Geminiano, sua brisa bagunça meu cabelo e minha mente que só quer terra firme, entretanto, não me arrependo de essa noite ser poeta, e você, Afrodite. Você pode me chamar de “amor” pelo fim de semana enquanto fingimos juntos não ser de verdade.
Pago o preço de te deixar marcar hora na minha agenda e sei que em algum lugar você sorri com essa possibilidade. O que foge de seu radar é que minha prosa é maquiagem para as marcas que não quero que veja, e meu lirismo esconde entre linhas o meu medo de fracassar de novo. Te encapsulo nas páginas até que se torne apenas história, pois se for mais que isso o sangue para nas veias. Transformo seus olhos em quadro, suas mãos em divindade, te guardo no pote dos quase morrendo de medo de deixar de ser.
Morrendo de medo da sua impermanência te fazer ser mais. Te tornar poesia é o fim mais seguro, mesmo que tenha te dito ser perigoso, pois a poesia acaba no ponto e na rima e nós não acabamos — ainda. Te tornar poesia é um fim seguro, repito, mas minha poética é prosa e eu falo demais.
A beira de falar de amor, com o verbo arranhando a garganta
Significantes atordoam meus sentidos, como aquela bebida doce que ficamos de dividir, mas bebi com outra pessoa. O álcool fazendo as palavras se perderem, os sentidos se fundirem e desejo quase virar paixão enquanto esqueço do seu rosto por alguns instantes. Sei fazer paixão, desejo, mas só amor faz falta. Quando o calor passa, as mãos se desgrudam e os olhos ficam mais esquivos, é inegável o lugar que cada coisa ocupa. Está na ponta da língua o nome que não posso dizer. Está nos olhos a verdade que evito repetir. Quando o álcool corre em minhas veias para dar coragem, meu peito perde o filtro que te tira de cena. Vejo castanhos escuros e penso em tons de avelã, em pupilas escurecendo íris tão conhecidas. Presa naquela cena de Normal People, exclamando alto nas ruas da minha psique que com outras pessoas não é a mesma coisa. À beira de falar de amor. Urgente. Letra por letra, fonema por fonema, subindo por cordas vocais como quem se balança com dificuldade. Vejo em seus olhos que mais uma vez foi quase, foi perigosamente perto. Quando o amar vira gostar de última hora, com medo de ser. Está na ponta da língua o verbo que não sabe falar. Está nos olhos a verdade que tenta suprimir. Encaro íris em tons de avelãs e sei que se me perguntar o que penso neste momento ouvirá qualquer coisa, menos a verdade. Mapeio seu rosto repetidamente pensando que o amor nos torna mentirosos enquanto sinto o verbo descer pela garganta, guardando de volta onde ele mora. Está nos eufemismos que usamos repetidamente. Está nos olhos que se encontram. À beira de falar de amor, com o verbo arranhando a garganta, engolido de última hora. Adiado para amanhã.
[“it's not like this with other people” “well, I like you more than other people.”]
é só que dói um pouco quando eu lembro assim
A rua é a mesma em todas as repetições de cena, os passos são os mesmos na coreografia e as falas iguais, pois não existem mais. O reencontro parcelado, concentrado num mesmo ponto da cidade, onde concordamos em fingir não nos conhecer. Cômico pensar que sempre nos vemos num mesmo lugar, que nunca frequentamos, apesar de termos visitado tantos outros dessa capital com jeito de interior.
Atravessando a rua, ou passando lado a lado, sem a graça da paixão ou o conforto do amor. Sem saudade da memória ou vontade de verdade, sem demanda de perguntas. Só olhos desviantes e dois estranhos que reconheceriam a risada do outro em qualquer lugar.
[E a minha graça tu já não entende]
Não haveria conversa possível e personagens tão antagônicos, como também não existe apagamento. Todas as características incorporadas ainda sabem sua fonte, ainda que não doa mais. Ainda que não seja mais uma história difícil de contar.
Ficou com as quedas de infância, a frustração de adolescente e quaisquer outros relatos que sejam constituintes, mas não centrais. Importantes, mas apenas dados históricos de uma vida longa.
Metros separam o contato visual e físico, anos separam a última vez que fomos algo bonito de se ver e eras separam o que podia ter sido, em outro universo, com outras pessoas. Se você não fosse você e eu não fosse eu. Não procuro mais culpados, já sei quem são. Não elaboro além da conta, sei que você não o faz também.
[O que o amor vira quando chega o fim?]
Tudo está exatamente nos lugares em que deveria estar, entretanto, não te parece cômico teu peito ainda pintado da minha cor favorita e eu ainda usando a tua camisa mais antiga?
Ainda que a cor não seja mais minha, ainda que a camisa já tenha deixado de ser sua há tanto. Não te parece cômico não esquecer de nada enquanto esquece gradualmente de tudo?
te demorando com o gosto da despedida já na boca.

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Entre borboletas e silêncios: o que o pré-amor me ensinou
Quando vemos algo bonito e nos deparamos com o encanto de uma energia estranha, mas ao mesmo tempo boa, é uma sensação única, diferente e impossível de explicar em palavras. Essa é a fase inicial do sentimento amoroso. Se formos parar para analisar a reflexão geral, essa fase é chamada de paixão, mas creio que se encaixe em pré-amor. É importante deixar claro que esse algo bonito que nos envolve inicialmente não é necessariamente a beleza como conhecemos. Para além disso, o que torna alguém interessante ao ponto de fazer nascer o pré-amor em nosso ser é a essência — o primeiro perfume, não literal.
Gosto de pensar que essa fase é aquela que nos prende a ponto de esquecermos de todo o resto. Ficamos tão presos ao aconchego e à necessidade de se sentir amado e amar que queremos os momentos eternizados. Nasce a vontade de ser livre ao lado daquela pessoa – o que é irônico, pois esquecemos da liberdade de ser sozinho, sem perceber. Eis que aí mora o lado sombrio, quando não é dosado corretamente e a terapia não está em dia.
Não dá para negar que essa é a sensação que a maioria de nós busca, e quando a sentimos, morremos de medo de tudo o que pode dar errado – o que é outra parte ruim dessa sensação emocionante. É difícil até para mim entender se, no contexto, estou aplaudindo o pré-amor ou depreciando-o sem intenção, mas creio que minhas reflexões sejam válidas. Apenas quero destacar que todas as fases do amor têm o seu lado florido e o seu lado obscuro, como tudo na vida. Mas o fato é que a escolha de qual lado seguir é totalmente nossa.
Minha conexão com o pré-amor começou cedo. Eu tinha 16 anos e era completamente introvertida, por ter sido criada sem muito contato social, a não ser na escola. Esse fato me levou aos aplicativos de relacionamento – sim, eu menti que tinha 18 anos para acessar o Tinder, mas quem nunca mentiu sobre alguma coisa, não é mesmo(?) Conheci um menino e, como toda menina nova e de cabeça emocionada, eu me encantei por ele. Todo domingo saíamos e passávamos o dia juntos. Teria sido lindo se o final não fosse trágico! A sensação era de borboletas no estômago, e as conversas e toques eram únicos — pelo menos para mim eram. Pelo visto, só para mim, pois no fim percebi que me doei em solidão, mesmo estando apreciando o momento a dois.
Eu tinha muitos problemas de relação em casa, o que me desencadeou depressão e ansiedade — traumas do século. Por isso eu andava meio para baixo, mas esse menino foi, por um período, o meu refúgio. Porém, isso não durou muito. Como todo amor de adolescência, esse não foi diferente. O que me trouxe o desastre foi o motivo de ele ter decidido se retirar da minha vida: minha depressão, minha negatividade. Esses foram os motivos que ele mencionou e que o fizeram partir de mim — e me partir.
O que aprendi com esse pré-amor naquela época foi que o amor não era para mim, que jamais iria querer alguém novamente e toda aquela bobagem de adolescente exagerada e sentimental. Mas hoje, com 27 anos, posso ver uma lição diferente. Vejo que os momentos não deixam de ser bons por algo ruim, e que a escolha de descartar o amor só porque alguém não soube amar é toda minha. Além disso, com muita terapia e choradeira, aprendi que as relações em que eu me colocava eram reflexo do que eu buscava nos outros — algo que já existia em mim mesma. Não há nada melhor do que se dar amor, porque ninguém vai te amar como você mesma se ama.
Em resumo, o pré-amor é a sensação inicial do querer mais — como um perfume bom que você toma banho antes de sair, para que o cheiro fique em cada esquina e a lembrança do seu rosto permaneça. É a sensação do desconhecido a ser descoberto, aquele interesse curioso que desperta logo de cara quando a química bate. Sentimento único que abre um pouquinho do coração e aquece o interior do ser. “Borboletas no estômago” é uma frase curta para definir essa experiência tão complexa e imensa.
É importante lembrar que o pré-amor pode ser algo que se sente pelo outro, mas principalmente, algo que devemos sentir por nós mesmos primeiro. Gosto da ideia de associar essa fase de amar ao sentimento de sentir por si próprio também, pois isso me ajuda a entender que não dependo de outro alguém para ter essa sensação. Posso senti-la ao deitar na cama à noite, sozinha, e ouvir as músicas que amo e que me abraçam através do toque e da leveza das palavras cantadas. Para mim, essa sensação vivida individualmente é como ouvir Chico Buarque, deitada debaixo das cobertas, de olhos fechados, imaginando o mundo que existe em mim.
Falar dessa primeira fase do amor é falar de amar o outro, mas, antes de tudo, amar a si em primeiro lugar. Quando me amo, não tenho a busca pela necessidade de ser amada; logo, não sofro de ansiedade pensando em tudo o que pode dar errado na minha vida amorosa quando alguém novo chega. Faz bem pensar nessa fase do amor e lembrar de bons momentos ao lado de alguém, mas também lembrar dos bons momentos que tive sozinha. Não sei se consegui ser clara nessa breve reflexão sobre o pré-amor, nem sei se consegui expressar o que estava se passando pela minha mente quando decidi iniciar este discurso, mas, se você é louco como eu sou, vai entender cada parte desse pensamento confuso e desorganizado que, no fim, faz sentido para a alma de quem tem sede de si.
mar morto
eu não tenho medo de ondas agitadas, baby eu tenho medo é do mar morto. entre altos e baixos o que me assusta é a possibilidade do nada é a vontade de coisa alguma onde nada é absolutamente ruim mas também nada é absolutamente bom você me entende? não são as emoções que me assustam o coração acelerado o aperto na garganta porque isso significa que eu vivo que o ar circula em meus pulmões que o meu coração bombeia sangue pro resto do corpo com um propósito, uma razão me assusta a ausência me assusta a sensação de que os dias passam e tudo continua a mesma coisa
[o grito preso na garganta]
voarias
less
Até o sol que tocava nossas peles parecia fraco demais, opaco. Minha blusa de mangas compridas não me deixava negar, ou esquecer que a frieza morava na esquina. Esses sorrisos grandes e breves, risadas que ecoam para durar mais. O caminho para a felicidade parecia tão distante para alguém com cores tão vibrantes por todo o corpo. Olhava seus olhos cheios de planos, com pupilas saltadas de felicidade e íris coloridas, nada me invadia. Esse calor todo nem me tocava. Seus planos eram dedos gélidos que pensei que deviam ser quentes em algum momento, mas não me recordava mais quando. Sentia como se alguém sequencialmente apagasse as luzes dos meus corredores e você gritasse de fora como quem tenta me acordar.
Involuntariamente presa nas minhas melancolias tão familiares, recebendo dicas nas minhas linhas escritas que decidia ignorar. No fundo, sabia que não alcançava felicidade minimamente similar à sua, toda a sua vibração e extase me pareciam alienígenas. Te via olhar meus olhos e pressentir o que havia de errado pois já havia me visto genuinamente feliz vezes o suficiente. Reconhecendo em minha pele azulada o frio que me preenchia mesmo sob o sol mais quente de meio de tarde. A frieza se arrastava sob minhas veias enquanto sua voz nem me alcançava, nem chegava perto, pois algo nos montes congelados de minha psique dizia que o problema era você.
Teimosa, persistente, sacudi a cabeça para afastar o pensamento e de nada adiantou, pois meu maior superpoder é pensar demais. Talvez por teimosia tenha entregue em suas mãos o mapa para me alcançar, e talvez por você ser você tão profundamente, nunca conseguiu.
Se amor é me deixar congelar enquanto chama meu nome de fora das minhas fortificações, acho que preferia que me amasse um pouco menos. De pouco em pouco menos, até que tivesse coragem de me tirar daqui.
[If loving me means saying
"Babe, I think this is the end"
Well I guess
I wish, I wish, I wish
You loved me less]
Linda e triste, por dentro tudo está em ruínas, mas por fora você sorri. Enquanto seus olhos refletem tristeza, solidão, medo.
Kiana Fermi
como é a sensação de se sentir amado?
já se permitiu amar alguém, sem se autossabotar e desistir de tudo?

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Você foi o meu primeiro amor e você soube disso desde o inicio, mas eu… eu fui apenas um dos seus outros amores, nada muito memorável.
Astrid Calisto
preparei as malas e esvaziei a gaveta do armário de memórias antes mesmo que algum adeus fosse dado. ensaiei uma despedida breve com frases prontas que não deixariam transparecer o quanto tu queima e bombeia entre minhas veias, entrelaçado no meu sangue. nela eu fingiria tranquilidade e um meio riso, falaria que não era a primeira partida, nem seria a última. diria que as coisas são como são com toda convicção do mundo, ainda que eu não acredite em nada disso. senti as horas do relógio passando rápido demais e tentei decorar teus traços todas as vezes que teus olhos esbarravam nos meus, porque o fim já é logo ali no fim da rua, e talvez não tenhamos tempo nem de dobrar a esquina. troquei cadeados e fechaduras para que você não pudesse entrar mais, mas você ainda nem entrou pela porta pela primeira vez.
voarias
se não entendes a beleza da solidão poética, tu não me cabes se não sentes a alegria de ouvir um som de domingo, tu não me bastas não sinto desejo pelo que não me cabe não tenho apreço pelo que não basta o simples poema da vida me cativa se não sabes ler este poema, podes ir sem demora
hoje, depois de tanto tempo, falei de você. já não doeu mais, foi com carinho, uma lembrança gostosa. usei como exemplo o que tivemos e acharam bonito. acharam fofo. e eu realmente enxerguei tudo com outros olhos. me machucou, sim, mas também foi bonito, foi intenso. e aí eu sorri. porque meu coração finalmente parou de lutar com a minha mente. não tem porque esquecer ou deixar pra lá, é pra lembrar e amar o que tivemos, porque é parte de mim. da minha história. e tá tudo certo. é um novo ciclo. antes era amor, depois virou nostalgia, e agora é saudade. da boa.
amanda p.
Eu decidi abrir meu coração novamente e cá estou magoada mais uma vez.
Anna

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estranho
Sinais incongruentes me atacando a face, como tapas em sequência, evidenciando sem delicadeza que o império está ruindo. Minhas interrogações te cercam e não se tornam pontos finais diante de tanta desatenção. Meus infernos não são visíveis quando tudo que você vivencia é tão bonito. Divididos entre minha derrocada e sua ascensão, minha melancolia não acessando a melhor vida que você já viveu.
Os abraços meio soltos, as palavras automáticas, como fantasmas de quem fomos. Ou seria só eu? Só meu mundo parece não fazer mais sentido quando juntos?
[seu abraço é tão solto, não consegue me prender]
Acumulando sinais de que conforto não é escolha e, sim, uma forma de honrar o tempo, sem questionar se vale a pena acumular tempo quando não há mais brilho. O corpo acostumado a caminhar para casa sempre encontra os passos de volta, não porque se sente bem, mas porque sempre o fez.
Encontro meu caminho para você como um sonâmbulo encontra a própria cama. Encontro seus toques como um animal que apanha vez sim, vez não, sempre disposto a manter-se sob um teto.
[seu carinho parece que arranha]
As tentativas vão de sussurros a outdoors simbólicos, nenhuma delas é notada. Seu olhar viciado se habituou a me ignorar e olhar para a próxima coisa brilhante, visto que o meu brilho já nem existe mais.
Enterro os sentimentos em parcelas: declarações, histórias, toques, risadas. Dia após dia deixando apenas migalhas de nós, até perceber que acumulei antiguidades e nada novo sustenta a coleção. Sonambulando de volta, nem vendo onde deito, me recusando acordar e me deparar com o desconhecido ao lado. Um corpo, uma vida, uma história há tanto estranha.
Onde eu desconheci você?
O único efeito colateral do amor devia ser a felicidade.
Maria Clara Nogueira.