te fazer perceber que antes de nós você nunca tinha conhecido o amor.
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“Black Cloud” for the exhibition “The Accursed Hour” by Carlos Amorales at Fondazione Adolfo Pini | Ph: (1&2) Andrea Rossetti (3) Alessandro Spadoni
"Ele era meu melhor amigo" falei casualmente numa manhã de sábado como quem se lembra de algo. E doeu.
Esse passado que não tem fotografia para ser olhada, mas é refém das memórias inapagáveis. As cenas formadoras, as experiências iniciais e tudo que conhecemos juntos a quatro mãos enquanto estávamos construindo visões de mundo entre lentes. Em par.
Um luto mal elaborado, atravessado por sentimentos mais conflitantes, mais cheios de arestas. Minhas raivas envolvem e meus medos pintam as curvas das suas letras com recorrência, retornando ao seu nome sempre que penso narrar o abismo me olhando de volta. Entretanto, aresta alguma apaga esse gosto de conhecido que fica de fundo, como o gosto do corante alimentício ao final da mordida no doce. Amarga, como sempre sabemos que será, mas algo sempre apaga essa parte da memória até que aconteça novamente.
"Ele era meu melhor amigo", falei como quem narra um falecimento, pois algo morreu. Esse "ele" nem mais existe andando pela capital, a vida se deu ao trabalho de transportar-nos a lugares tão outros de nós que é cômico. Esse "ele" não sabe mais nada de mim: não temos os mesmos amigos, ou os mesmo locais, as mesmas músicas e as mesmas piadas. O "ele" não dói, o que dói é o verbo.
Era. Pretérito perfeito. Ação concluída no passado.
O que dói é o predicativo com pronome possessivo. A gramática dando conta da posse, mas somente no passado. Não há ação presente, em consequência não há posse no agora.
É até bom saber que alguém me conheceu assim tão bem, apesar da ironia de ir desaprendendo hábitos propositalmente e sem querer. Apago com borracha, com corretivo, com tinta de parede. Me perguntando, em dias como este em que escrevo se guarda na memória esse pronome que agora sou. Sem nome, uma "ela" solta em outro lugar. Com outra rotina e outra história. Guarda o melhor que tivemos?
Cada linha fecha com um semi-sorriso de quem sabe que ele era meu melhor amigo porque a vida permitiu que fosse, até que deixasse de ser. Até que a sorte não mais definisse essa presença. O fim de uma era de quem foi muito, mas não é mais nada além de recorte do passado.
Parte sorte, parte morte.
[Se eu puder ter um pedido a mais Guarde o melhor que tivemos As confidências, mesmo que banais Eu deixo em segredo]

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te fazer perceber que antes de nós você nunca tinha conhecido o amor.
Já faz um tempo que venho lutando contra a minha vontade de desistir. Tem dias em que é difícil levantar da cama, pentear os cabelos ou até tomar banho.
Eu vivo escolhendo entre gritar ou me calar, mas, na maioria das vezes, não importa o que eu escolha: eu sempre estou perdendo. A sensação de não saber o que estou fazendo, de não saber até quando as coisas vão continuar fora do lugar... Eu vivo nessa batalha interna, querendo alinhar as coisas, mas a vida não anda e não facilita para mim.
Não importa o quanto eu tente ou o quanto eu me esforce, a sensação de fracasso, no fim do dia, mal me deixa dormir à noite. Quase 30 - Mirian Costra.
"Ele era meu melhor amigo" falei casualmente numa manhã de sábado como quem se lembra de algo. E doeu.
Esse passado que não tem fotografia para ser olhada, mas é refém das memórias inapagáveis. As cenas formadoras, as experiências iniciais e tudo que conhecemos juntos a quatro mãos enquanto estávamos construindo visões de mundo entre lentes. Em par.
Um luto mal elaborado, atravessado por sentimentos mais conflitantes, mais cheios de arestas. Minhas raivas envolvem e meus medos pintam as curvas das suas letras com recorrência, retornando ao seu nome sempre que penso narrar o abismo me olhando de volta. Entretanto, aresta alguma apaga esse gosto de conhecido que fica de fundo, como o gosto do corante alimentício ao final da mordida no doce. Amarga, como sempre sabemos que será, mas algo sempre apaga essa parte da memória até que aconteça novamente.
"Ele era meu melhor amigo", falei como quem narra um falecimento, pois algo morreu. Esse "ele" nem mais existe andando pela capital, a vida se deu ao trabalho de transportar-nos a lugares tão outros de nós que é cômico. Esse "ele" não sabe mais nada de mim: não temos os mesmos amigos, ou os mesmo locais, as mesmas músicas e as mesmas piadas. O "ele" não dói, o que dói é o verbo.
Era. Pretérito perfeito. Ação concluída no passado.
O que dói é o predicativo com pronome possessivo. A gramática dando conta da posse, mas somente no passado. Não há ação presente, em consequência não há posse no agora.
É até bom saber que alguém me conheceu assim tão bem, apesar da ironia de ir desaprendendo hábitos propositalmente e sem querer. Apago com borracha, com corretivo, com tinta de parede. Me perguntando, em dias como este em que escrevo se guarda na memória esse pronome que agora sou. Sem nome, uma "ela" solta em outro lugar. Com outra rotina e outra história. Guarda o melhor que tivemos?
Cada linha fecha com um semi-sorriso de quem sabe que ele era meu melhor amigo porque a vida permitiu que fosse, até que deixasse de ser. Até que a sorte não mais definisse essa presença. O fim de uma era de quem foi muito, mas não é mais nada além de recorte do passado.
Parte sorte, parte morte.
[Se eu puder ter um pedido a mais Guarde o melhor que tivemos As confidências, mesmo que banais Eu deixo em segredo]
Todas as ruas poderiam ter seu nome e mesmo assim iria me perder. Eu poderia respirar no seu pescoço sem pressa, na urgência de descobrir seu cheiro. Encarar seus olhos cansados com a promessa de sossego em meu peito. Suas mãos, provavelmente quentes e macias, controlando as minhas agitadas e trêmulas. Eu iria sorrir ao observar o seu sorriso, com um pingo de malícia no canto da boca. Captaria cada palavra que dissesse só para gravar o timbre da sua voz em mim. Eu poderia nomear todas as ruas com seu nome só para lhe homenagear. Iria enfeitar o caminho até mim, para que o seguisse e me encontrasse. Mas eu estaria lhe encontrando e, ao mesmo tempo, me perdendo.

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É instigante o mistério, mas quando a resposta for sim você terá certeza.
te fazer perceber que antes de nós você nunca tinha conhecido o amor.
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Até o sol que tocava nossas peles parecia fraco demais, opaco. Minha blusa de mangas compridas não me deixava negar, ou esquecer que a frieza morava na esquina. Esses sorrisos grandes e breves, risadas que ecoam para durar mais. O caminho para a felicidade parecia tão distante para alguém com cores tão vibrantes por todo o corpo. Olhava seus olhos cheios de planos, com pupilas saltadas de felicidade e íris coloridas, nada me invadia. Esse calor todo nem me tocava. Seus planos eram dedos gélidos que pensei que deviam ser quentes em algum momento, mas não me recordava mais quando. Sentia como se alguém sequencialmente apagasse as luzes dos meus corredores e você gritasse de fora como quem tenta me acordar.
Involuntariamente presa nas minhas melancolias tão familiares, recebendo dicas nas minhas linhas escritas que decidia ignorar. No fundo, sabia que não alcançava felicidade minimamente similar à sua, toda a sua vibração e extase me pareciam alienígenas. Te via olhar meus olhos e pressentir o que havia de errado pois já havia me visto genuinamente feliz vezes o suficiente. Reconhecendo em minha pele azulada o frio que me preenchia mesmo sob o sol mais quente de meio de tarde. A frieza se arrastava sob minhas veias enquanto sua voz nem me alcançava, nem chegava perto, pois algo nos montes congelados de minha psique dizia que o problema era você.
Teimosa, persistente, sacudi a cabeça para afastar o pensamento e de nada adiantou, pois meu maior superpoder é pensar demais. Talvez por teimosia tenha entregue em suas mãos o mapa para me alcançar, e talvez por você ser você tão profundamente, nunca conseguiu.
Se amor é me deixar congelar enquanto chama meu nome de fora das minhas fortificações, acho que preferia que me amasse um pouco menos. De pouco em pouco menos, até que tivesse coragem de me tirar daqui.
[If loving me means saying
"Babe, I think this is the end"
Well I guess
I wish, I wish, I wish
You loved me less]
pretérito perfeito
A diferença entre o pretérito perfeito e o imperfeito está no senso de continuidade, sabe? Como quando digo que cresci, quer dizer que essa ação acabou em algum momento do passado, mas quando digo que algo crescia falo de uma ação que me foi habitual, contínua, que estava em andamento.
Partindo daí, poderia dizer que jogava futebol com minhas amigas ou que lia muitos livros na adolescência. Poderia dizer que me apaixonava perdidamente por personagens e que não perdia um episódio da minha série favorita. Há algo de bonito em dar esse caráter de continuidade a essas ações, a esses recortes de espaço e tempo em que fui alguém que hoje ainda sou, em menor dose. Entretanto, também traz uma dose diferente aos outros momentos que seriam pretéritos perfeitos em mim. Dizer que fui a criança quieta e genial, que perdi aquele brinquedo antigo numa arrumação monumental, que estudei naquela escola ou frequentei aquele curso que hoje nem existe mais. Tudo ali, parado no tempo, perfeitamente encerrado no tempo verbal.
Por isso dói um pouco dizer que morei naquela nossa casa, que vivi a nossa rotina, que deixei aquele espaço. Dói um pouco não dizer que morava e sim que morei, nesse pretérito perfeito e encerrado, em você.
Não moro mais.
é só que dói um pouco quando eu lembro assim
A rua é a mesma em todas as repetições de cena, os passos são os mesmos na coreografia e as falas iguais, pois não existem mais. O reencontro parcelado, concentrado num mesmo ponto da cidade, onde concordamos em fingir não nos conhecer. Cômico pensar que sempre nos vemos num mesmo lugar, que nunca frequentamos, apesar de termos visitado tantos outros dessa capital com jeito de interior.
Atravessando a rua, ou passando lado a lado, sem a graça da paixão ou o conforto do amor. Sem saudade da memória ou vontade de verdade, sem demanda de perguntas. Só olhos desviantes e dois estranhos que reconheceriam a risada do outro em qualquer lugar.
[E a minha graça tu já não entende]
Não haveria conversa possível e personagens tão antagônicos, como também não existe apagamento. Todas as características incorporadas ainda sabem sua fonte, ainda que não doa mais. Ainda que não seja mais uma história difícil de contar.
Ficou com as quedas de infância, a frustração de adolescente e quaisquer outros relatos que sejam constituintes, mas não centrais. Importantes, mas apenas dados históricos de uma vida longa.
Metros separam o contato visual e físico, anos separam a última vez que fomos algo bonito de se ver e eras separam o que podia ter sido, em outro universo, com outras pessoas. Se você não fosse você e eu não fosse eu. Não procuro mais culpados, já sei quem são. Não elaboro além da conta, sei que você não o faz também.
[O que o amor vira quando chega o fim?]
Tudo está exatamente nos lugares em que deveria estar, entretanto, não te parece cômico teu peito ainda pintado da minha cor favorita e eu ainda usando a tua camisa mais antiga?
Ainda que a cor não seja mais minha, ainda que a camisa já tenha deixado de ser sua há tanto. Não te parece cômico não esquecer de nada enquanto esquece gradualmente de tudo?

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strangers to lovers to enemies
A panela azul, como a cor do meu cabelo quando compramos, hoje já descasca, pendurada na cozinha em outro endereço, mas tão pequena quanto a anterior. As almofadas do sofá agora ficam na cama e as listas de compras não têm os mesmos itens que você escolhia. Ausências como cartas de adeus dedicadas a ninguém, marcadas e sublinhadas em pontos marcantes em tons de azul-marinho.
Uma pequena queimadura em meus dedos, ou um hematoma perdido no braço, coisas que você diria serem fruto da minha falta de coordenação tão fértil enquanto arrastava os pés desajeitadamente pelo piso que não escolheríamos se fosse nosso.
Pontos de referência domésticos delicadamente perdem o sentido agora que alguns quilômetros diferenciam as paredes que te conheceram e que você conheceu de volta. A marca em forma de estrela vermelha num grande fundo branco, causada pela bola de brinquedo; os furos da prateleira que foi embora no mesmo carro que você. Deixei-as em outro ponto da cidade, convenientemente cobertas de tinta branca.
Abandonei alguns metros quadrados de perguntas, de lembranças e de ressentimentos quando empacotei com cuidado as convicções. Limpei a mesa até desaparecerem as marcas, tão antigas quanto seu riso no mesmo quarto que o meu, e descartei os pequenos copos que faziam parte da coleção. Ninguém mais os usaria. Excluí os vídeos e as fotos, mas isso não impede, de vez em outra, de trombar com teu rosto perdido entre pares, em cenas felizes de outras pessoas. A maior prova de que olhos podem mentir é a fotografia de nós. Sorríamos como quem tem o mundo nas mãos, mas nunca tivemos como obtê-lo. Estávamos devendo muito aos deuses do amor, pois nosso laço mais parecia nó. Você lamuriou quando percebeu que me desfiz de nós.
Desatada das presenças confortáveis, dos saberes antigos e da panela azul cheia de marcas de uso pendurada na cozinha. Ainda é boa, mas agora minha. Ouço suas bandas como minhas, conto as histórias sem necessidade de menção, sem a relevância de informar sua presença e confirmando nossa triste transição: de estranhos a amantes e, por fim, a inimigos.
falling in love, no, it ain't for the weak
so don't try this at home
(amor)te
eu morri todos os dias em que estive a sua espera, nossa história de amor póstuma era tão linda que me recusei ir embora. quando morre todo mundo vira santo, diziam, me embriaguei na santidade, no espectro translúcido, do nosso amor fúnebre.