Cansada de ser eu
Perdi, esqueci, simplesmente não fiz, palavras que fazem mais parte do meu vocabulário do que eu gostaria. Me sinto uma inválida quando reflito sobre tudo aquilo que me é oferecido e pelo pesar do destino não aproveitado. Se fico sozinha junto lágrimas, se estou acompanhada crio mais uma história para meu livro de anedotas desventuradas. Fazendo limonada com o que tenho, não é de comum artifício, lágrimas escorrerem ao comando de uma desesperada necessidade de auxilio de salvação dessa carcaça corpórea que é a vida terráquea. Uma hora cansa, as brincadeiras e ironias já passaram da conta do cómico e estão se tornando cada vez mais, escalpos, amputações e esfarelamentos da minha alma.” ”Pare de viver no piloto automático!” Como se fosse algo que eu tivesse controle nos momentos de relentos da vida. O que eu considero piloto automático? O que eu considero relevante de ser lembrado? O que eu deixo passar sem a consciência atestar? Eu não sei! Há muito tempo não me permito ficar sozinha para refletir sobre o assunto, tenho me escondido em meio de distrações mundanas, discursos roubados e até mesmo em tempos passados. Será que minha memória realmente não está boa? Será que devido aos fatos que esculpi, uma parede universal afastando minha lucidez surgiu, não permitindo mais que alguns segundos de atenção. As vezes me pergunto se a barreira social era tão forte, que eu possa ter transferido minhas habilidades de raciocínio atemporal para o momentâneo, única forma possível da compreensão de histórias daqueles que supostamente seriam meus amigos. Seria minha mente realmente capaz de guardar apenas o que me tem acesso, ou guardo ocultamente uma biblioteca com Theras de espaço, cheios de informações esperando um descompactamento de disco para serem liberados. Não sei se pensar no ser humano como uma máquina seria o mais correto, uma vez que temos interfaces psicológicas diferentes, tornando impossível o hackqueamento da mente. O mal funcionamento desse sistema é algo a ser trabalhado e superado e assim equalizado no nosso ser. Estou exausta de ser uma máquina em constante reparo, almejando sempre uma nova peça para o funcionamento básico. Tenho muita vontade de simplesmente reiniciar, tirar tudo de dentro e começar novamente. A informação que tive acesso é de extrema relevância cultural, mas de que adianta se o período de armazenamento dessa é limitado ao tempo de uso. O erro no meu código que mais está me incomodando é a recente incapacidade de ficar a par da situação. Ser incapaz de reparar se voltei ou não com os mesmo elementos pelos quais fui, de saber a posição de pertences em utilização ou mesmo de lembrar de compromisso que eu mesmo os faço. Em outras palavras ser incapaz de viver. Não da mais para me esconder atrás de um copo de vinho, no meio de piadas de risadas, porque esse método não está funcionando mais. Não chega a causar dor, mas sim uma frustração tão grande que a solução ”racional” seja a impulsiva. Minha noção pessimista e melancólica do mundo é algo que sempre tive e sempre terei que lidar. Não enxergar o ridículo, o óbvio, o insuportável, não está dentro dos meus planos. Apesar de não conseguir lembrar, perceber ou saber bem sobre o mundo em minha volta, existe algo dentro de mim que me faz ter consciência da auto-ignorância e da alheia, o que me da um olhar muito cínico do mundo. Em conversas bucólicas, boemias ou mesmo filosóficas, minha visão será sempre voltada para o lado negro e negativo da história. Longe de ser um costume saudável, essa prática me causa uma ansiedade imensa pois não permito que esses sentimentos sejam transparecidos. Podem ser tomados como comentários presunçosos, assim os mantenho para mim ou compartilho utilizando meu dom da sátira, tirando a seriedade da informação. Mas de fato os anos me mostraram que a exposição de uma indignação eterna não é a melhor forma de ser aceita pela sociedade. Na minha cabeça, eu tenho completa noção das minhas auto-falhas que precisam ser melhoradas, quase como uma verdade instituída por uma cartilha mental, dominada pelo meu próprio ditador interno, que me açoita durante as noites. Novamente repito com a ênfase “na minha cabeça”, meus pensamentos são ditos por esta cartilha. De acordo como ela tudo existe um porém para não ter uma boa coexistência com ninguém. Acho muitas vezes que minha presença parece ser incomodo à qualquer pessoa que não me pareça reagir de maneira aceitável pelas minhas leis. É difícil manter uma personalidade se constantemente é exposto uma necessidade de mudança por parte do alheio espelhado. É difícil ser eu. Não pela minha vida dura, pelos meus desafios, pelo meu destino selado ou pelas atrocidades que eu fui exposta. É difícil ser eu pelo simples fato de encarar as coisas de uma maneira radicalmente negativa. Pior do que isso é ter que conviver com pessoas que não conseguem enxergar o mesmo e não poder compartilhar suas conclusões sem ser podada ou julgada. É difícil ser eu porque apesar de ter essa ciência toda datilografada na minha mente, sou um ser extremamente falho, com muitas impulsões e passa a vida de uma maneira passiva. Ha meu ver, não sou digna do que me é oferecido, das oportunidades que me são dadas ou da felicidade que me é oferecida. É como se existissem duas pessoas dentro de mim, uma que não tem noção da vida e a outra que acha que a vida é algo sério demais. Todos meus ensinamentos, minhas evoluções foram possíveis pela superação das barreiras que a minha parte pessimista teve que passar. Ser essa pessoa indigna para si mesmo é algo bem forte e que nunca foi levado com leveza. Para não incomodar externos, aprendi a me conter em uma nuvem de atuação, com o tema de conduta da felicidade. Aprendi a fingir tão bem ser ignorante, que de fato passei à ter momentos de profundo alivio, mas quando a consciência bate é como uma ressaca de pensamentos, o alívio se torna aperto a felicidade se torna mágoa e a vida passa a ser desprezível. Cansada de ser eu, indigna e desprezível.










