❛ ✰ — who tells your story ? ⌋
in.de.pen.dên.ci.a ( s.f. )
1. estado, condição, caráter do que ou de quem goza de autonomia, de liberdade com relação a alguém ou algo.
A tempestade de neve que cobrira todo o terreno de Wisteria Hollow de branco se dissipara após três dias e noites de intenso nervosismo por parte da princesa que não se sentia confortável estando presa dentro daquele casarão, ocasionalmente pensando que era melhor estar presa em seus aposentos no palácio onde residia com sua família. Ao findar da grande nevasca, Nanna encontrava-se caminhando ao ar livre, os lábios fartos deixando escapar um sopro que se condensava --- a falta de neve que caía dos céus não significava que o frio se dissipara totalmente; tal como a camada no solo ainda proporcionava momentos desastrosos quando lhe faltava habilidades para caminhar. Ela, procurando sair dos estábulos onde visitara Hamlet, acabara escorregando e Savannah Benningfield teria caído caso não tivesse um par de mãos conhecidas para ampará-la. As íris castanhas esquadrinharam a face alheia, observando a falha na sobrancelha esquerda tão conhecida. “Papa!” Exclamara ela fechando os braços ao redor do pescoço alheio, lágrimas escorrendo pelas bochechas geladas. Quando o Governador se erguera, levara consigo sua filha que tivera os pés removidos do chão. “Pumpkin!” Os braços do pai ao redor de seu corpo dava-lhe segurança. Fazia Nanna sentir-se em casa. O aroma amadeirado que saía de sua roupa lembrava-a de casa.
Quando, finalmente, a filha do Governador de Adoria o soltou, o próprio pai lhe enxugara as lágrimas em um gesto paternal. Ele parecia feliz como Nanna jamais vira. “O que faz aqui, papai?” Ela soltou o ar gradativamente, estreitando minimamente os olhos diante do questionamento e desejo em saber o que o homem fazia ali em Wisteria Hollow, afinal, nunca o vira desejando aparecer no casarão dos Thorn --- sequer recebia as joias no porto como seria adequado que o fizesse. “Recebi uma carta interessante da minha filha mais nova. Ela disse que encontrou sua irmã gêmea.” Nanna sorriu constrangida. Estar na presença de seu pai era, de certo, um tanto intimidador diante de sua postura sempre tão sisuda, entretanto, quando o homem estava em seu bom humor, era fácil. Benningfield pigarreou, sua expressão tomando um tom carrancudo. “Encontrei-me com seu irmão. Estávamos conversando sobre suas escolhas. Ele não me pareceu tão propenso a casar-se com Coraline Hybern” Christopher intensificou o seu olhar na direção de sua filha como se desconfiasse do que lhe dissera em sua carta. “Depois me encontrei com Adele.” Danna, pensou Nanna, contudo, não o corrigiu. Não era certo fazê-lo quando o homem a conhecia por outro nome.
“Como foi?” Nanna instigou para que ele lhe contasse como fora seu encontro com a irmã. “Como qualquer reencontro após vinte e um ano.” Os ombros do homem se balançaram e Savannah soube que não receberia muitos detalhes. Não era do feitio de seu pai ser tão sentimental como seus filhos e, se querem saber a opinião da Benningfield, Danna era idêntica a ele naquele quesito. “Vou me encontrar com Jasper e Charles para resolver a situação de Adele e seu casamento forçado com Walford.” O proferir do homem fizera com que sua expressão se tornasse um tanto perigosa e, bem, ela soube naquele momento que a discussão com Jasper e Charles seria fervorosa. Seu pai era um bom negociador, afinal; Danna estava salva de um casamento com um comprador sovina. “Ah, papai, ainda bem que o senhor veio ajudá-la. Danna não merece casar com aquele homem e por algo que nem fizera. Acredito que ela não deseja se casar, na verdade. Não agora pelo menos.” Mas não era certo compartilhar as ideias de Davina com seu pai quando não sabia dizer se ele apreciaria os ideais alheios, tal como não sabia o quanto ela havia lhe falado, afinal, seria utópico imaginar que Danna iria ligar ao homem em tão pouco tempo. Até mesmo a Henry e Nanna ela não parecia ter se conectado --- algo que Nanna sentia em ser cerne, contudo, era sensível o bastante para compreender que demandaria tempo para que ela os amasse. E, ainda mais, o próprio pai. Ah, Sr. Benningfield era complexo; Nanna havia se habituado com todas as suas explosões e humor apático, criando o laço afetivo e, embora a relação com o homem fosse de altos e baixos, os altos eram ainda maiores. E, bem, como diziam: um pai era o primeiro amor da vida de uma garota.
Inicialmente, Christopher nada dissera, apenas deixara o cotovelo esquerdo para que a filha pudesse se apegar a ele em uma caminhada que, se ela bem conhecia o pai, levaria Nanna de volta para a mansão. Ele sempre preferia que ela ficasse dentro de um local seguro e bem guardado. “O que houve envolvendo Andrew Hybern para que você desistisse de sua ideia ligeiramente tola de casar-se com ele, Annie?” Seu pai não a chamava de Nanna como seu irmão, mas Annie; assim como ele não era como Henry e a deixara sonhar com Hybern. Desde o início lhe apontara quão tola era aquela ideia --- embora tenha lhe questionado o que de fato ocorria na casa dos Hybern para que aquela ideia surgisse como uma opção viável --- e, bem, não o imaginara interpelando o homem acerca de seu possível casamento com o filho mais velho da família. Graças aos céus ele não o fizera! Savannah mordiscou o interior de sua bochecha, considerando o que poderia ser dito. Ora, não imagine que ela não queria contar ao pai tudo o que descobrira --- exagerando nas melhores partes para, então, ter certeza que iria estragar completamente a vida do Hybern ---, pois Nanna queria. Mas isso implicaria na ruína de toda a família. E Endora e Fallon... Não poderia fazer tal coisa com suas amigas. Não poderia destruí-las. Não suportariam outro golpe. “Nada. Apenas percebi que ele não é tudo com que sonhei.” Concluiu e pelo modo como o pai soltara o ar ela sabia dizer que ele sabia que ela estava mentindo. Ele sempre sabia. E sempre acreditava.
“Suponho, então, que pode ter mudado sua ideia acerca do casamento com Scorpius--” Nanna parou, sendo puxada em um arranque pelo corpanzil do pai para frente, afinal, o seu tamanho e passos, embora tentasse acompanhar as pernas curtas da filha, ainda denotava uma discrepância. Desvencilhou-se do toque alheio a alguns metros da mansão. “Eu não mudei de ideia.” Nanna, em verdade, havia mudado de ideia; não sobre casar-se com Scorpius, mas sobre casamentos no geral. Não lhe faziam brilhar os olhos como outrora. Sr. Benningfield bufou, frustrado; teriam novamente aquela discussão? Se dependesse de Savannah, teriam. “Savannah...” Fora a vez de a princesa bufar. Sua semelhança com o genitor era tamanha naqueles pequenos momentos que chegava a ser assustador. “Pai. Eu não vou me casar com Scorpius. Isso não está em jogo e o senhor não pode estar pensando realmente nesta possibilidade! Não depois da carta que enviei!” A face outrora gélida começava a esquentar. Nos últimos anos as discussões envolvendo os dois se tornaram calorosas o bastante para que ela corresse na direção de seu quarto após ser duramente repreendida. Agora não estavam em casa. “Basta, Savannah.” A voz grave irrompera pelo espaço, fazendo até mesmo os pássaros que procuravam alimento na neve se assustarem e fugirem em um voo rápido. “Você já se encontra em idade favorável para que se case com um homem que faz jus à sua posição e influência e, caso Scorpius não seja do seu agrado, e as negociações não estejam avançando, há outras opções.”
Outras opções. Aquilo ecoou na mente de Savannah. Não era como se tivesse uma escolha. Ela não tinha qualquer direito em escolher com quem se casaria --- ou quando o faria. You need to rise up. Era como se ouvisse a si mesma falando com sua mãe. You need to rise up. E era como se ouvisse a si mesma dando-lhe uma ordem. “Papa--” chamou a atenção alheia para si. “Eu não vou me casar com ninguém.” Nanna tentara fazer sua voz soar firme, contudo, esta vez saíra baixa e trêmula. Era a primeira vez que iria contra seu pai de forma tão incisiva. Ela não era Danna que não se dobrava às vontades alheias --- estava em Wisteria Hollow apenas para salvar sua família e ainda assim recusava a ser vendida como objeto e não escondia isto de nenhum comprador ---; não era como Kitty que não se importava em ser taxada de promíscua por ter gostos literários diferentes; não era como metade das mulheres que encontrara e conhecera naquele lugar. Mulheres que não tiveram opção alguma a não ser vender-se para ter um marido. Ademais, ela fora criada para ser frágil, uma boa esposa e ficar calada. Fora criada para ser passiva. Mas não era quem ela, afinal. E, diferentemente de todas as joias, Nanna tinha uma escolha. E ela não queria. Não queria se casar com Andrew, ou Scorpius, ou com Hugo ou qualquer outro homem que pudesse aparecer. Ela não precisava disso. Ela não precisava casar. “O senhor não vai me obrigar a casar.” Agora sim sua voz soara firme e categórica. Sr. Benningfield parou, analisando-a. “Annie, você está perdendo o juízo neste lugar? Não estou a obrigando a casar--" e, então, com o levantar das mãos de Nanna, parou. “O senhor está, Sr. Benningfield. Está me obrigando a me casar com um homem que julga ser bom o bastante para as suas pretensões para mim; e, mais do que isso, está me obrigando a casar porque não quer uma filha que pense!” Tudo o que estivera rondando sua mente por meses, fora exposto naquele momento.
“O senhor quer uma princesa muda, pai. Não quer que eu tenha ideias, mas adivinha? Eu tenho! Eu penso! O senhor quer controlar a minha vida, a de Henry e todos que giram ao seu redor porque quer que sejamos iguais ao senhor, mas temos a nossa própria vida. Nós somos seus filhos e não o senhor! E não somos sua propriedade!” Nanna deixou a fala deslizar para fora de seus lábios, suas mãos se erguendo em um gesto frustrado ao verbalizar tudo que possuía dentro de si. Não iria desperdiçar a única chance que teria de se impor e tomar controle da própria vida. “Eu não sou sua ou de Scorpius. Eu sou minha. Eu vivi a minha vida inteira sendo presa naquela casa porque o senhor tinha medo de outro sequestro e agora o senhor quer controlar a minha vida” Benningfield hesitou por um momento em continuar, as íris castanhas vagueando o ambiente e recusando-se a encarar a face do próprio pai. Era como se estivesse rompendo um laço que durara muito tempo, mas que agora não poderia e sequer tentaria consertar. Ela sabia a motivação por detrás do casamento com o príncipe balanquano --- ou qualquer outro casamento que o pai pudesse querer arrumar para a própria filha --- e tudo envolvia o fato de que Nanna se mostrara inclinada a defender os nativos tal como fizera Henry. E seu pai os odiava. Entretanto, ir para Wisteria Hollow não fizera com que a princesa acreditasse piamente naquela ideia de que ter o pai opinando em sua vida amorosa era válido ou sequer pensar em casamento como a sua única opção de vida. Ver aquelas mulheres fizera Savannah compreender que, diferentemente delas, poderia fazer qualquer coisa e, ainda assim, não tinha ideia do que queria fazer. Danna era engenheira, Amelia costumava costurar para sustentar a família, Kitty escrevia e um dia teria seus contos publicados... Qual era a aspiração dela? Casar? Era isso que Nanna estava destinada? Nada grande só um casamento porque o pai achava melhor para que ela não fosse uma ameaça? Os filhos apoiando selvagens seria um desastre, claro! Então case-os! Mande-os para fora!
“Eu não quero me casar. Com ninguém. Eu tenho um mundo inteiro para conhecer e há um milhão de coisas que eu ainda não fiz antes de tomar essa decisão que eu não quero que seja tomada agora. Eu tenho vinte e um anos, por favor! Eu não preciso me casar para ser uma mulher satisfeita.” Ser mulher naquela sociedade era difícil, entretanto, não era um martírio. Aprendera com Ara, Cassie, Briana, Danna, Kitty e tantas outras mulheres que passara por sua vida que aquilo não poderia fazer sua opinião ser inválida. E aprendera com elas que deveria lutar por si mesma. Até Scorpius lhe dizia isso mesmo que com piadas que a irritava. “Savannah, você está indo por um caminho perigoso.” Aquilo era um alerta para ela? Savannah não abrira qualquer sorriso debochando do que proferira o homem. Possuía marcas em sua alma que lhe dizia que, de fato, era perigoso. “Ou o senhor vai me mandar para a forca por defender a vida de pessoas?” Questionou-o, instigando a ira alheia sem que tomasse conhecimento do fato, embora a personalidade de seu pai não lhe fosse completamente desconhecida. “O senhor acha que o fato de defender a vida dos nativos faz de mim uma ameaça.” Agora tocara em um ponto delicado que fizera a face do Governador torcer até aparentar o asco que possuía. Jamais iria aceitar os selvagens. “Nativos, pai. A terra é deles e nós tomamos como se fosse nossa. E, céus, somos descendentes...” Ela era uma selvagem, tal como seu pai e seu irmão. O problema era que haviam se esquecido de sua história e tudo que a envolvia. Preferia defender Osfro e a metrópole que os explorava do que defender a própria terra e o próprio povo. “O senhor pode não aceitar isso e tudo bem, eu não ligo para o que o senhor aceita na sua vida, mas é a minha vida.”
“Você-Você quer recusar um casamento vantajoso para si e para sua descendência por que tem ideais? Você?” O modo como seu pai dissera aquilo chegava até ela como uma ofensa. O ‘você’ fazia-a lembrar de quando soubera que Andrew a achava mimada e aquilo lhe fez imaginar quais eram as ideias que o próprio fazia dela. Dói, mas Nanna manteve a mesma pose que o próprio denotava; deveria se portar como uma filha do Governador. “Eu, pai. Quando meu tempo acabar, o que vão dizer de mim? Que eu casei? E acabou? Essa é a minha história? Ser a mulher que aparece em retratos que nunca fez nada memorável nem para si? É isso que mamãe sonhou para mim quando soube que eu viria?” Tocar na memória de sua mãe era doloroso para ambos e ainda assim era necessário. Caterine não sonhara com aquela vida para sua filha. Ela, embora tenha se casado, não o fizera por interesse --- tampouco era conhecida como uma mulher estagnada em seu tempo. Acreditavam que ela era estranha demais para a sua sociedade e fora por isso que seu pai se apaixonara por ela. Pelo encanto, pela magia e por quem ela era. Onde fora que o homem morrera? “Não fale de sua mãe.” A memória era dolorosa para quem se culpava pela morte de sua amada, todavia, Nanna não se sentia tão compassiva. “Eu falo porque ela é minha testemunha e minha advogada. O que ela planejara para mim, papa?” O questionamento fizera o homem girar virar o rosto em direção oposta.
Sr. Benningfield não respondera ao questionamento de sua filha, claro; o coração do Governador estava trancada e sequer Nanna tinha a chave. Ela o acessava em partes. “Enviarei cartas à Balanqua e escreverei para Muñoz.” Fora a única resposta que recebera do homem que parecia ter encerrado aquela pequena discussão. “Vejo você ao final da temporada.” O proferir fora feito a fim de indicar que acabaram por aquele dia. Ao ouvi-lo, Nanna fez uma reverência e voltara a caminhar com o pai em um silêncio completo. Ao deixá-la à porta do casarão, não despedira sua filha com um beijo caloroso em sua testa como fizera quando ela deixara sua casa. Acenara minimamente e se afastara em direção à sua carruagem. Pelo modo como ele o fizera sabia dizer que tudo que falara não fora bem recebido pelo Governador, mas, também sabia, citar sua mãe havia o quebrado em diversas partes a ponto de não ignorá-la ou desejar trancafiá-la em casa pelo resto de seus dias --- e Nanna o fizera propositalmente, aliás. Não havia como fazê-lo desistir sem dizer-lhe que os sonhos de sua mãe para ela não eram aqueles. Usar sua finada mãe era doentio, mas necessário. Como um pedido de perdão silencioso, a dama mexeu no anel que outrora fora perdido, considerando o que fazer a seguir. Quem ela era? Havia vivido em virtude de um bom casamento e agora o havia recusado para encontrar-se. Ao retornar para o calor de dentro, pegara-se pensando em como desejava ser a filha perfeita para seu pai, mas não iria morrer para isso.
















