Neville sabia que provavelmente James ficaria nervoso com a ideia de ser pego por uma de suas travessuras, mas não imaginou que seria em uma escala tão grande. Ao menos ele assumira que fez o contrabando, o que para Neville gerava um certo alívio. “James, pode parecer que não, mas contrabandear bebidas para dentro de Hogwarts é uma infração ao regulamento. Você pode não ter oferecido a nenhum menor, mas isso não significa que ninguém mais ofereceu.”
Ouviu as palavras do aluno com atenção, deixando-o extravasar todo o seu nervosismo antes de voltar a falar. Não sabia por que James estava tão nervoso; duvidava muito que ele fosse o culpado pelo incidente do Halloween, pelo menos de forma direta. “James, se acalme, por favor, e preste atenção no que eu vou te dizer.” Falou, indicando a cadeira à sua frente para que o jovem se sentasse e esperando até que ele o fizesse para voltar a falar. “Ninguém disse que você é culpado. A questão é que você trouxe uma mercadoria para dentro do castelo que não passou pela fiscalização adequada. Alguém pode ter escondido algo no meio daquelas bebidas; temos suspeitas de que o culpado usou de um artifício para que a Poção do Morto-Vivo circulasse em sua forma gasosa. Esse artifício poderia estar escondido no que você trouxe e você nem percebeu, entende? É por isso que os aurores querem conversar com você.” O professor suspirou, recostando-se na cadeira e olhando para o garoto com a testa franzida. “Não estou te entendendo, James. Por que esse assunto te deixou tão nervoso?”
Escutou a voz do professor e sabia que ele estava certo, não era uma postura admirável contrabandear bebidas. Mas realmente não fazia por mal, não dava para menores, era puramente para sua descontração e de amigos. Respirou fundo tentando achar palavras para responde-lo, e uma mão pressionou a outra em nervosismo. Olhou para cima tentando buscar equilíbrio, já que seu interior estava polvorosa, no entanto não conseguiu a homeostase psíquica que precisava. Voltou a olha-lo e abriu a boca algumas vezes antes de conseguir falar. — Nesse caso os errados deveria ser quem ofereceu e não eu. — encostou-se no encosto de maneira rígida, tensionada e escutou o outro com atenção. Sabia que não haveria muito a falar, pois se quisessem puni-lo ou interrogá-lo nada que dissesse deteria. Tentou se acalmar mais quando o outro lhe pediu, sabia que o professor não tinha culpa, ou preferia acreditar que não tinha e acreditava em si.
James piscou os olhos perplexo. Quer dizer que esconderam a poção morto-vivo, mas ele é interrogado? Não seria mais fácil lhe pedir o cantil ou garrafa que levara? Bastaria fiscalizar, fazer uma perícia. — Se eu levar a garrafa e o cantil, tem como provar que não fui eu que escondi isso, não tem? E dai só fico de detenção a vida por ser alcoólatra. — usou o sarcasmo porque era única defesa que lhe era cabível no momento. Os olhos ardiam, a garganta parecia ter um bolo indigesto. Meneou a cabeça ao outro, mostrando que entendia, embora não concordasse. Algo tinha que ser feito mediante a situação, só não esperava que este algo viesse de encontro a ele. Viu Neville franzir a testa e lhe perguntar, e aquilo o desmontou. Por um momento a cabeça girou, foi como ouvir o professor Anton dizendo “Quem não deve não teme”, mas seu nervosismo não era por estar envolvido e sim pelas emoções que aquela situação desatava, pelo medo do julgamento alheio que aquilo desatava, e sobretudo, pelo medo da situação macro em si, que agora estava envolvido mesmo sendo contra totalmente. A voz vacilou e seguiu fraca, pausada — Se eu te falar, essa parte fica com você? — perguntou fitando-o de soslaio, incapaz de erguer a cabeça por completo. Quando sentiu segurança no outro para falar seguiu em tom baixo. — Porque isso vai contra o que acredito e... como fui criado. Você nunca parou para pensar como é difícil pra gente ser os “filhos dos heróis da guerra?” sempre sendo comparados, os espelhos do pais. Aqueles que devem dar exemplo, aqueles que se espera sempre o melhor. E bom... o Albus sofreu mais mas... não é como se me olhassem como alguém que... orgulha meus pais. Eu não sou o mais inteligente da família, e de longe sou o mais irresponsável ou até infantil. Eu só não... n-ão quero que pensem mais coisas ruins, e isso, isso é pior do alguém me dizendo que não terei futuro. Isso envolve preconceito e vida de pessoas, e eu posso ser qualquer coisa, mas não sou preconceituoso, purista e assassino. Pra vocês adultos é fácil viver com uma situação assim, já passaram por isso. Mas eu não sou meu pai! Só que como você, ou como o professor Anton disse, quem não deve não teme né? O ministério não vai estar interessado que só tenho 17 anos e estou com medo. —disse com os olhos levemente marejados, e ajeitou-se inquietamente na cadeira. — Pode me ajudar?