Escrevi esse conto faz um tempinho, e encontrei sem querer nas pilhas de arquivos engavetados. Lembro que escrevi para um concurso — que não ganhei. haha Mas, sei lá, embora tenha uma escrita bem imatura, e um enredo fraco, eu gostei dele (por motivos que não sei explicar, rs).
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Assim que abri os olhos senti uma espessa neblina me forçar a fechá-los novamente. Algo queimava com intensidade meu estômago; e minha cabeça latejava. Estava desorientada, aérea... Abri novamente os olhos e tentei forçar a vista para tentar me situar. A neblina ainda me rondava provocando calafrios.
Porque sinto que minha barriga está pegando fogo?
Tentei levantar e quase desabei novamente onde me encontrava. A grama pinicava meus braços desnudos fazendo com que a sensação incômoda me desligasse por poucos segundos da agonia no estômago. Involuntariamente arrastei meus dedos até aquele ponto ardente e gemi sem querer.
A constatação daquele fato me fez reviver as forças que eu julgava estarem completamente esgotadas. Levantei com dificuldade e senti tudo girar. O véu frio que me cercava se dissolveu o suficiente para que eu pudesse contemplar a lua gigantesca no céu. Aquela visão despertou uma memória, mas ainda estava confusa demais para tentar assimilar algo.
— Estamos perdidas... — um sussurro foi arrastado pelo vento.
Ergui meu olhar em direção à voz; e tentei enxergar através da névoa. Havia alguns objetos pegando fogo em alguns pontos da grama, e foram eles que me fizeram enxergar uma garota gótica se arrastando em direção a um ponto próximo de mim.
— Ariana, estamos perdidas... — a garota continuou falando num sussurro.
— O... o que aconteceu...?
Graça parou de repente e começou a mexer em algo na grama. Eu usei esse tempo para tentar me aproximar dela. Um vento frio levantou os meus cabelos e me fez ficar arrepiada. A dor no estômago estava começando a passar, mas em um dado momento uma repentina ânsia de vômito me fez curvar para o lado e colocar tudo para fora. Agora a minha garganta também estava em chamas.
— Ari, Alana não vai gostar disso... — a menina dizia desesperada.
— O que aconteceu? — perguntei novamente refazendo meu caminho até ela.
— Não consegui completar o ritual. Precisamos recolher as nossas coisas antes que ela apareça e nos enforque por ter pegado as coisas dela.
Ritual... É isso! Agora eu me lembro!
As lembranças vieram com rapidez e de uma só vez, me fazendo vacilar. Minha expressão deveria ter sido alarmada, pois Graça parou imediatamente o que estava fazendo e me olhou com atenção. Seus olhos verdes transpareciam seu pesar. Não combinava nem um pouco com a forte maquiagem no rosto e os cabelos loiros despenteados.
— Eu sinto muito... — ela começou a dizer e eu resmunguei.
— É Samhain, Graça — rosnei. — Deveria ter funcionado!
A dor de cabeça ficou pior de repente e o enjoou retornou. Mas eu me recusava a ceder a essas fraquezas novamente. Como assim não funcionou?
— Talvez a gente tenha feito alguma coisa errada. Vamos, Ari! Se Alana me encontrar aqui estarei perdida. Não temos tempo!
Sim, não temos tempo. Mas, dane-se!
Ignorando completamente todas as dores e incômodos do meu corpo, levantei do chão. O mundo deu mais voltas, mas os meus pés estavam plantados com firmeza na grama. A névoa agora era arrastada pelo vento e a luz da lua foi suficiente para me fazer enxergar toda a dimensão do campo. Havia círculos e mais círculos feitos de areia, sal e mais outras coisas que Graça havia conseguido. Os objetos em chamas eram algumas velas, mas a maioria estava apagada. Havia folhas, ervas e outras coisas espalhadas ao meu redor.
Coloquei a mão no estômago para tentar parar a dor.
— Ele precisa estar por aqui... — sussurrei, quase para mim mesma.
Graça se levantou atrás de mim e começou a me puxar pelo braço.
— Não sou experiente, você sabe. Eu provavelmente fiz alguma coisa errada e por isso não deu certo.
— Você não entende? — eu me virei pra ela, exaltada.
A menina gótica parou e me encarou. Ela provavelmente estava tentando assimilar o desespero em minha expressão. Tinha certeza que até aquele momento a realidade do que eu estava pedindo nunca foi levada tão a sério. Eu precisava dos seus serviços da mesma forma que eu precisava de oxigênio, de paz, de sanidade. Eu precisava falar com ele.
— Como você acha que terei tranquilidade? Eu preciso conversar com ele e supostamente ele deveria aparecer! Não é pra isso que serve Dia das Bruxas, ou sei já como vocês druidas chamam?
Graça fez uma careta e olhou para os lados. Ela não era exatamente uma druidisa, mas a família tinha ligação com alguns povos antigos da Irlanda e pesquisavam sobre eles, como a Alana, sua irmã mais velha. Na mansão de Graça havia uma biblioteca gigantesca com livros sobre rituais e celebrações. Foi em um desses livros que ela achou um ritual em particular que poderia me servir. Mas ele se mostrou tão inútil quanto ela.
— Quer saber? Cansei! — me afastei dela. — Obrigada por nada.
— Você não devia sair assim... Está machucada... — ela tentou chamar a razão.
— Dane-se! — gritei sem me virar para ver a sua reação.
Percorri o campo na companhia das cigarras que chiavam em algum ponto distante. Ainda ouvi Graça chamando, mas ignorei-a. A ardência e a ânsia ainda me provocavam, mas eu fiz questão de ignorar isso também. Ainda estava um pouco desnorteada pra lembrar de todo o ritual, mas provavelmente dera tudo errado a partir do momento em que eu me atrapalhei com um dos ingredientes.
Besteira! Se fosse um feitiço de verdade teria funcionado e eu estaria conversando com ele agora!
Soltei um resmungo e continuei andando. Eu já podia ouvir os gritos e comemorações de alguma festa aproveitando o Dia das Bruxas, e aquilo só me deu ainda mais raiva.
Qual o propósito de uma data que não funciona como deveria funcionar?
O bom de sair com o vestido sujo e molhado, cabelo bagunçado e maquiagem borrada no Dia das Bruxas é que ninguém te olha duas vezes. Fui quase uma sombra sem ser notada até chegar à varanda de casa e desabar nos degraus. Puxei os joelhos e apoiei a cabeça antes de me perder em pensamentos. A maioria deles dançava em um olhar misterioso, num fantasma de um sorriso, na sensação de bem estar que eu nunca mais teria. Aquilo revirou meu estômago e me fez derramar lágrimas silenciosas.
Como eu odeio Graça! Por que ela tinha que aparecer para me dar esperanças?
Eu ainda repassava todas essas lembranças quando o frio aumentou, e a neblina que me perseguia no campo se materializou ao meu redor. As crianças fantasiadas corriam soltas na rua, mas elas pareciam totalmente alheias ao fato de que uma garota toda molhada e suja estava chorando na varanda de casa.
Ergui a cabeça e tentei limpar as lágrimas que teimavam a aparecer. As dores ainda me assolavam, e junto com o tempo frio decidi que já era hora de ir para o quarto. Amanhã eu lidaria com as consequências do que eu e Graça tentamos fazer; amanhã eu tentaria, mais uma vez, seguir em frente ignorando as dúvidas que rondavam meus pensamentos.
Com dificuldade me levantei dos degraus e comecei a subir a escada até a porta. Algumas lágrimas ainda escorriam quando eu ouvi um farfalhar de folhas logo atrás.
— Por que choras? — alguém perguntou.
Ergui os olhos assustada por reconhecer a voz. O meu coração veio à boca e tampou todas as minhas exclamações que quase gritei. Ao invés, fiquei com os olhos arregalados, com um frio na espinha e totalmente paralisada.
Miguel estava como eu me lembrava. Os cabelos cacheados esvoaçando, a postura relaxada, visual totalmente desleixado e engraçado. Ele percebeu a minha análise e sorriu do mesmo jeito que costumava sorrir... e quase me convenceu de que tudo era real.
— Eu sei o que está pensando — ele se aproximou e ficou na minha frente. O cheiro de hortelã o acompanhou em cada palavra. — Não se preocupe Ana... Eu nunca a culpei.
—Mas... — consegui dizer, quase de forma engasgada. — O ritual não deu certo... Eu atrapalhei tudo e Graça disse que era inexperiente e essas coisas não deveria funcionar e isso não pode estar acontecendo e... e...
Disse aos trôpegos. Porque na realidade apesar de todas as tentativas e frustrações, no fundo eu não acreditava no Samhain e no que ele oferecia. No fundo, lá num canto distante e solitário, eu apenas sabia que teria mais um motivo para justificar os meus choros durante a madrugada.
—Shiii, tenha calma — ele sorriu levemente.
—Você deve me odiar, Miguel — eu funguei. As lágrimas agora corriam soltas pelo meu rosto.
—Como eu seria capaz de odiá-la? — ele perguntou confuso, franzindo o cenho levemente. Da mesma maneira que costumava fazer quando eu brincava de palavras-estranhas na nossa infância.
—Porque eu... eu... — a lembrança da nossa infância causou ainda mais dor. Funguei e tentei afastar as lágrimas com os dedos trêmulos — Por minha causa você... você...
—Ari... — ele sussurrou e se aproximou ainda mais de mim. — Já disse que não lhe culpo, bebê. Nunca faria isso.
— Você merece toda a felicidade do mundo, minha linda — ele ergueu a mão e roçou de leve seus dedos no meu rosto coberto de lágrimas. Toda a minha razão gritava dizendo que aquilo não era possível. Mas como não seria? Ele estava ali! Com os olhos castanhos, o cheiro de hortelã, o sorriso encantador...
— Eu sinto muito... — murmurei com a voz embargada.
— Eu sei que sente — ele sorriu de leve e se inclinou até ficar a centímetros perto do meu rosto. — Agora pode dormir tranquila.
Seus lábios tocaram de leve nos meus. Um toque quase inexistente de tão leves que eles foram.
Foi aí que tudo ficou negro de novo.
A última coisa que eu lembro foi daquele olhar cálido que eu tanto amei... amo.
_________________ Pamella Soares
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(créditos da imagem: http://thetragictruth-of-me.deviantart.com/)