Memórias de um coração esquecido…
Na verdade, eu sempre fui péssimo com datas, porém o mês de agosto de 2015 foi, sem dúvida alguma, um mês excepcional e por isso, ele ficou gravado nas paredes da minha memória, como uma cicatriz, que já não dói mais, todavia relembra com exatidão os resultados de uma aventura mal sucedida.
Talvez eu esteja açucarando de mais os fatos. Contudo, não pude deixar de observar você enquanto aguardava a minha vez para ser atendido na secretaria da Universidade.
Você estava lindo! Vestia uma calça jeans, aparentemente velha e cheia de narrativas, uma camisa branca, talvez a primeira que você encontrou naquela manhã, um boné, que cumpria com excelência a missão de controlar seus cabelos negros e intensamente lisos e um skate velho que, na minha imaginação, representava a cereja do bolo. Ou seja, você estava absolutamente perfeito!
Eu juro que tentei, mas infelizmente tenho que assumir, não me esforcei tanto quanto poderia. Olhar para você era algo irresistível, involuntário e, por conta do meu descuido, da minha fraqueza por cabelos longos e meninos com estilo largado, lá estava eu, novamente, vivenciando mais um amor genuinamente platônico.
Entretanto, eu realmente acreditava que, neste caso, tudo seria diferente, afinal de contas, naquele período da minha vida, já contava com a ajuda do discernimento e da compreensão que a fase adulta nós dá! Ou não… Na verdade, eu me perdi no exato momento em que nossos olhares se cruzaram. Ora, não se engane! Resistir não era e nem nunca havia sido uma possibilidade… Até porque, consciente e/ou inconscientemente, eu já havia escolhido me entregar para você.
Os minutos seguintes foram de um prazer único e absoluto. Abandonei a minha casca e sonhei com você: No sonho, você me olhava e percebia algo, de súbito se levantava e caminhava em minha direção, meu coração acelerava e dava sinais de que em breve eu iria explodir ou pelo menos desfalecer…
- Qual seu nome?
Meu nome? Qual é meu nome? Ele realmente está perguntando o meu nome? (pensei)
- Arthur… (respondi)
- Muito prazer Arthur, meu nome é P.H. Esse lugar está vago?
- Que lugar?
- Esse ao seu lado! Posso me sentar?
- Ao meu lado? (olhei) Vichi, me desculpe! Está sim, sente-se, por favor…
- Obrigado… Tudo bem com você?
- Comigo? Sim e com você?
- Digamos que podemos melhorar um pouco…
- Melhorar? Como?
- Se quer mesmo saber?
- Acho que sim…
- Você tem que ter certeza!
- Eu tenho?!
- Então venha comigo! (E lá estava aquela mão estendida em minha direção…).
Eu não conseguia acreditar! Como um estranho havia visto algo de especial em mim? E o que significava toda aquela situação? Era informação de mais para ser processada em tão pouco tempo!
Só o cheiro daquele homem já entorpecia os meus sentidos e era mais do que o suficiente para me levar à loucura. Não era simplesmente o cheiro do suor de uma pele masculina levemente aquecida pelo sol quente, tratava-se de algo mais peculiar, uma fragrância amadeirada, com notas selvagens e que me desarmava, desmontava o meu corpo de dentro para fora, fazendo florescer meus desejos mais secretos.
Como se já não bastasse, ele ainda ostentava um sorriso bobo e malicioso, no canto direito superior da boca, isso deixava seus olhos levemente fechados, porém não impedia de ver o desejo com que ele me olhava. Talvez o mesmo desejo com que uma fera observa a sua presa antes do ataque.
Por diversas vezes, e com muito esforço, lutei para resistir à tentação de me jogar no colo dele e deixar que todo aquele fogo ardesse ali mesmo, sem qualquer tipo de pudor, controle ou cautela, mas como uma represa mal planejada, eu estava prestes a ceder…
- Tudo bem, então vamos.
Apertei a mão dele com força a fim de deixa-lo sentir a energia, o desespero, o desejo e a angustia que corriam dentro de mim naquele momento e buscando também um auxilio para manter equilibrado.
Ele certamente já conhecia todos aqueles sinais e, de uma forma maestral, me conduziu até o banheiro no final do corredor, encostou a porta e, sem pedir licença ou se preocupar com a possibilidade de haver outras pessoas naquele ambiente, me rendeu na parede e assumiu todos os comandos do meu corpo. Com beijos desesperadamente ardentes, carinhos e caricias que revelavam novos limites para o meu corpo tão inexperiente, ele buscou com tudo isso, provar o quando ele poderia ser bom… como se eu houvesse duvidado em algum momento…
- O que. Significa… hã! Tudo isso? (perguntei)
- Você sobe muito bem o que tudo isso significa! Você estava me encarando, pedindo, implorando por um corretivo… Eu não resisti! Não iria conseguir suportar a espera de mais um segundo para poder sentir sua pele colada na minha, sua boca pregada na minha. (Ele respondeu com a voz abafada, entre um beijo e outro).
- Por quê? Eu? Ai… (perguntei sem perceber, pois estava perdido em um mar de prazer, não fiquei ali para ouvir a resposta…).
- Isso não importa mais! A única coisa que você precisa saber agora é que de hoje em diante, você é meu, só meu…!
- Seu?
- Sim, só meu! (Ele me obrigou a ouvir essa afirmação, puxando meus cabelos. Isso fez com que meu rosto grudasse no seu e ele pudesse falar ao pé do meu ouvido.).
- Ok…
Tudo estava se realizando, todos os meus desejos estavam ganhando vida. Em cada novo toque dele, eu me transformava em um artefato musical, obscuro, que emitia novos e desconhecidos sons. Em cada nova investida dele, sempre com força, com desejo e sem medo, eu sentia o meu corpo explodir!
O suor escorria livremente e havia muita dor naquilo tudo, mas era impossível resistir ao desejo e a necessidade de sentir ele dentro de mim, possuindo cada centímetro do meu corpo e assim, fui me entregando, afundando mais e mais naquele mar negro. Não foi difícil constatar, eu sabia que estava perdido e que daquele momento não haveria mais volta! Agora eu era dele! Propriedade do Sr. P.H.
Todo aquele movimento poderia ou deveria ter chamado à atenção dos outros, principalmente dos seguranças que não estavam muito longe dali, porém isso não aconteceu talvez ele tenha agido antecipadamente, combinando com alguém, um colega talvez, um cúmplice… que deveria manter a área sempre limpa.
Enfim, juntos tivemos o tempo necessário para permitir que o fogo da nossa paixão ardesse livremente, fundindo um no outro como duas peças metálicas que foram feitas com o objetivo de ser tornar um único objeto, impossibilitando assim, qualquer forma de separação futura das partes.
Era algo surreal, e após vivenciar um prazer sobrenatural, perto, muito perto de alcançar os céus e desfrutar do clímax de um prazer puro, absoluto, sofrido e necessário, eu fui acordado.
A senha que estava na minha mão foi anunciada no painel e, com um alarme estridente, meu devaneio foi interrompido na melhor parte. Agora constrangido com as reações que meu corpo conseguia reproduzir.
Você P.H. ainda estava sendo atendido e em dois guichês ao lado, havia uma moça bastante desinteressada, que me aguardava sem tantas expectativas… Infelizmente tive que ir. Com uma última olhada, tentei me despedir e posso jurar que neste momento você também estava me olhando.
Após o meu atendimento, imediatamente levante e busquei por você, com olhos de falcão, fiz uma varredura no ambiente e, para a minha infelicidade, você já havia ido embora…
Não pude fazer nada, até porque, tudo que vivenciei com você naquele banheiro, era fruto da minha imaginação fértil… Às vezes penso que talvez eu seja o meu único e pior inimigo, pois tenho a capacidade de construir realidades paralelas que representam, justamente, o que meu inconsciente busca de maneira desesperada vivenciar e quase sempre é vitima de uma queda brusca que o leva de volta para a realidade acinzentada de uma grande SP.













