Um pouco sobre a questão ambiental
Talvez não seja exagero afirmar que o tema pandemia está em nosso vocabulário todo dia. Dependendo do nosso nível de isolamento, pode até não ser verbalizado, mas algo é pensado e refletido sobre o assunto que mais é falado e analisado em nossos dias. Os motivos disso são óbvios: nossa geração nunca viu algo parecido antes. Mas o que torna esse assunto ainda mais peculiar são os temas que ele traz juntos, que também parecem nunca cessar e que, racionalmente, já deveriam ter sido cessados.
Das visões que temos sobre a pandemia, nenhuma deve ser romantizada. Nada sobre reinventar-se. Esse é assunto sério, que envolve mortes, tristeza e medo. E essa não causou a quebra do sistema: escancarou suas mais profundas falhas e desleixos. Uma delas, a questão ambiental.
As notícias que circulam sobre redução de emissão de carbono, retorno de espécies a determinadas áreas, clareamento de águas que estão com menor fluxo são constantes. Estes dados nos mostram o quanto o ser humano causa impacto na natureza e no próprio lugar que ele necessita para gerar sua sobrevivência. Mas a questão ambiental sempre foi muito delicada, e por isso resolvemos falar um pouquinho mais sobre o tão citado “desenvolvimento sustentável”.
De antemão não estamos demonizando o desenvolvimento sustentável. Muito (MAS MUITO) pelo contrário. Ainda assim, este parece ter sido mais um conceito que se vulgarizou com os anos dentro de nosso sistema que tem como horizonte a produção. Além disso, um problema de ordem prática é posto a tal conceito.
O aumento populacional é uma máxima mundial, pelo menos a partir do século XVIII. Com o crescimento das cidades, o número de pessoas aumentou e juntamente os efeitos da industrialização: a poluição pela queima de combustíveis fósseis, o aumento do consumo, a expansão das atividades agropecuárias, influenciaram na produção cada vez maior de lixo e de novos problemas para nosso planeta. E essa poluição é vista nos mais diversos campos: poluição do ar, água, sonora, visual. Tudo isso tem um impacto em nossas vidas e na forma como estamos lidando com o nosso planeta. Neste sentido, no século XIX, começam os primeiros debates sobre a questão ambiental, em especial pela criação de parques de preservação nos EUA. Estes, como o próprio nome indica, apontavam uma vertente de não interferência, ou seja, interrupção total da ação humana em determinados locais já muito degradados. Mas é na metade do século XX que tal questão se torna mais latente.
Devemos lembrar que este é um contexto de Guerra Fria: um conflito ideológico entre capitalismo e socialismo que buscava mostrar qual era o melhor sistema econômico e social. Temos assim uma corrida armamentista e espacial que não mede esforços para demonstrar poderio bélico e de criação, trazendo consigo seus impactos.
Em 1972, em Estocolmo foi realizada a primeira grande conferência relacionada ao tema meio ambiente. Com uma inspiração alarmista produzida em um documento chamado “Os limites do crescimento”, era mantida uma ideia de preservação, que alertava que todo o desenvolvimento deveria ser freado para que este planeta pudesse sobreviver. Obviamente um projeto como este não era opção para as nações desenvolvidas que se reuniram, mas ainda assim foi colocado um importante ponto: os domínios naturais são patrimônio da humanidade, ou seja, devem ser tratados com zelo pelas entidades responsáveis.
Doravante em 1987 o que mais se aproxima do nosso modelo foi idealizado. O documento “Nosso futuro comum” da primeira ministra da Noruega na época, Gro Harlem Brundtland é a idealização do que chamamos de Desenvolvimento Sustentável: uma harmonização entre a utilização dos recursos naturais e os impactos gerados. Cria-se com isso uma visão de conservação do meio, ou seja, aquela que permite o impacto humano desde que seja racionalizado e não terminal.
A partir daí, tal questão evoluiu muito, porém estes primeiros documentos são de países desenvolvidos, com sua industrialização consolidada. Achamos o mal do mundo, reconhecendo na poluição e degradação do meio os problemas comuns a todos, mas nos esquecemos de uma coisa: nem todos os países estão no mesmo grau de desenvolvimento quando estas questões são formuladas. Falar sobre energia limpa, não queima de combustíveis fósseis e reaproveitamento de materiais para regiões que ainda não tiveram nem um primeiro surto industrial é acusá-las de um erro que as nações que idealizaram o desenvolvimento sustentável já fizeram. Em resumo: é muito mais fácil implementar uma tecnologia de menor redução de carbono para um país que tem capital para comprar até mesmo créditos de carbono do que para um país que possui apenas uma fonte de energia a base da queima de combustível. Não é justo colocar na mesma balança, pesos que só passaram a ser medidos depois.
Ainda assim, o desenvolvimento sustentável se transformou. A partir das reuniões Rio 92 (+10, +20), o que pudemos perceber é uma conciliação de necessidades dos países periféricos que passaram a ganhar voz após o fim da Guerra Fria: pautas sobre a má distribuição dos recursos, pobreza, fome e todos os impactos que estes temas tem sobre a degradação ambiental foram colocados. Só assim seria possível uma agenda ambiental viável e justa que pensasse os ecossistemas de forma local.
Podemos pensar então que o desenvolvimento sustentável é de extrema importância para a sobrevivência de nosso planeta, mas este só é viável se compreendermos que os impactos ambientais são gerados pelas necessidades locais que são, por si só, desiguais em nosso sistema (igualmente desigual). Para alguns mais pessimistas (ou realista?) nada disso importa: não teremos nenhum tipo de desenvolvimento sustentável enquanto nosso sistema for este que visa o lucro e a produção, intensificando o consumo, a emissão de gases e poluição. Não sabemos ao certo, nossa geração não viveu outro sistema pra saber. O desenvolvimento sustentável ao menos nos deixa uma lição moral: valorize produções locais, repense seus hábitos de consumo, afinal, nada tira a sua responsabilidade sobre banhos mais rápidos e escovar os dentes com a torneira fechada. Isto é muito importante. Mas mais importante que isso é pensar o que o nosso sistema produz e quem tem poder sobre ele. Comprar bolsa ecológica, mas votar em presidente que acha que questão ambiental é só coisa de vegano é dar um tiro no pé. Quer mais? Esse mesmo é fã incondicional (pra ser brando) dos Estados Unidos: segundo maior emissor de carbono do mundo, que tem como um presidente alguém que não acredita no aquecimento global. E quando a nação mais poderosa do mundo se recusa a assinar um Acordo sobre emissão de carbono (leia sobre o Acordo de Paris) o impacto é muito maior que esquecer uma luz acessa.