clarissa:
⠀ ⠀ ⠀ ⠀ apesar de ter estreitado o olhar na direção do amigo, não demorou muito para romper a expressão com uma risada baixa, desviando o olhar enquanto negava com a cabeça para si mesma. clarissa não sabia muito bem lidar com elogios, e tinha uma dificuldade em especial para reagir quando estes partiam de nick. ali, pelo menos, podia usar o livro em seu colo como desculpa para não encará-lo diante daquela sequência de palavras. “continue afagando meu ego desse jeito para ver onde vamos chegar.” a advertência partiu em um tom de brincadeira, sendo o melhor que ela conseguia oferecer e achando que era uma boa maneira de tentar deixar aquela conversa de lado. e mesmo que o esforço tivesse sido válido, a atenção logo fora captada novamente com a menção sobre a situação com a tia do rapaz, o que fez com que a loira soltasse uma risada. “é sério isso? eu não acredito!” franziu o cenho, embora tivesse realmente achado graça. “ela gosta de mim, então? caramba, eu pensei que ela me achava uma bela de uma má influência pra você.” não seria a primeira pessoa que temia a aproximação dos entes queridos de clary, afinal, embora tal caso tivesse se repetido mais durante sua infância. “e aí, nicholas seymour, qual é a sua resposta para isso? onde estão as minhas flores, hein?!” levou uma das mãos até a cintura para sustentar sua pose, mas não conseguiu perpetuá-la por muito mais do que alguns segundos. nem era seguro brincar com aquilo, na verdade, por temer os caminhos que as piadas poderiam levar, então, logo desfez a postura com outro negar de cabeça. “qualquer coisa que você achar da olympe de gouges já vai te contar muitos pontos comigo.” sugeriu, com um meio sorriso. antes de continuar falando, porém, a próxima sentença do mais velho desbancou um pouco clarissa, que engoliu em seco antes de tratar de expelir outro riso rápido. “foram os meus olhos, então? achei que tinha mais a ver com a minha incrível personalidade…” replicou, sendo um avanço que conseguisse pensar em algo a altura para responder. e enquanto estavam ali, com uma boa distância os separando e apenas soltando pequenas piadas um para o outro, ainda era fácil de lidar. difícil mesmo era quando nicholas se aproximava daquela forma, o repousar da mão em seu ombro parecendo ter um peso muito maior do que os dígitos realmente tinham. erguendo os olhos para o rosto do amigo, fitou-o enquanto ouvia suas palavras, sentindo o coração apertar-se um pouco e xingando-se mentalmente por ainda ter respingos das reações que portava para com o outro nos primeiros meses de dinâmica, quando seus sentimentos ainda eram confusos. piscando algumas vezes, clary fechou o livro que tinha sobre sobre o colo e jogou-o de lado, usando uma das mãos para afastar a dele de si enquanto um sorriso impertinente lhe era lançado. “você deve falar isso para todas.” provocou, voltando a usar as brincadeiras como uma defensiva. esticou a mão para apanhar a garrafa de vinho ao mesmo tempo em que pulava da mesa para o chão. “mas é divertido de escutar. vamos lá, o que mais você acha sobre mim?” arqueou uma das sobrancelhas, tomando da garrafa um gole maior enquanto caminhava até uma das prateleiras de livros mais próxima. precisaria beber mesmo se fosse com aquilo que ela iria lidar naquela noite.
“eu estou alimentando uma fera, então?” o bom-humor acompanhava o questionamento, não podendo deixar de manter o ar de brincadeira entre ambos. “nah, tudo bem. o que importa na verdade é que eu te fale a verdade, o resto é o resto. o único jeito de me fazer mudar essa ideia é se o seu ego ficar tão grande que nós não caibamos no mesmo cômodo.” mais um momento em que utilizava a brincadeira como maneira de se comunicar com a amiga, o que era tão comum na relação dos dois. não eram muitas as pessoas com quem nicholas conseguia ser mais solto e se permitir a não tratar tudo de uma maneira mais séria e contida, educada, mas se alegrava em saber que clarissa se encaixava nessa condição com perfeição. “claro, oras. onde foi que você achou que ela não gostava de você? sempre achei que ela não era nada boa, sabe, disfarçando. acho que devo um pedido de desculpas pra minha tia.” riu, cruzando os braços em frente ao peito. desde o seu retorno da universidade, e o consequente falecimento do pai, ele e a madrasta, a condessa seymour, estavam se dando melhor do que imaginava. “quer que eu te mande flores, então? porque sabe que vou ir na sua casa deixar elas mesmo, se quiser. só vai ter que explicar pro senhor astley o porquê de eu estar mandando elas.” retrucou, achando graça dos pedidos da mais nova. “olympe de gouges é a sua cara, não posso dizer que estou surpreso. se encontrar alguma edição diferente e tudo o mais da próxima vez que viajar, prometo que compro ela para você.” e, após ter sua promessa realizada, realmente estava determinado a cumpri-la. o conde gostava de se enxergar como alguém de palavra, mesmo nas mínimas coisas. “e quem disse que não foram os dois? os seus olhos começaram o trabalho, mas a sua personalidade que prendeu o coitado do seu amigo aqui.” soltou um suspiro dramático, puramente teatral. não enxergava qual seria um ponto ruim de fazer tais brincadeiras com clarissa, afinal, tinha em sua mente que estavam num local de sua amizade onde a intimidade era suficiente para não se preocuparem tanto mais com interpretações errôneas. “está querendo dizer o quê com isso, hein?” indagou, uma careta já surgindo em seu rosto ao perceber que a astley estava roubando a garrafa de suas mãos. “hoje você realmente está inspirada na vontade de me ter subindo o seu ego, vish.” o conde não tardou a murmurar, deixando uma risada baixinha escapar em seguida. “você provavelmente é a pessoa mais inteligente que eu conheço, oras. e divertida, também, porque o archie não está fazendo muito esforço pra ocupar esse posto ultimamente. o que mais quer ouvir?”
















