ᴍᴀʀʟʏᴇ ᴠᴏɴ ᴛʀᴇssᴇʟ 𝖔𝖗𝖎𝖌𝖎𝖓 𝖘𝖙𝖔𝖗𝖞
Há muitos e muitos anos histórias eram sussurradas em secreto, contadas ao redor de fogueiras e repetidas entre gerações. Como um aviso, uma lembrança para o cuidado constante que deveriam ter a respeito das criaturas da noite. Crianças não deveriam ficar fora de casa após o por do sol, idosos não deveriam se aventurar em becos escuros e ninguém, nunca, sob nenhuma hipótese, deveria sair desprotegido, não importasse o horário que fosse.
A vila que a pequena Marlye cresceu era recheada dessas histórias assustadoras, mas não apenas isso. Todos sabiam que eram reais. Se fizesse silêncio o bastante podia ouvir gritos preenchendo a noite, corpos também costumavam ser encontrados pela praça ou até mesmo rastros de sangue pelo chão. Não eram meros contos. Quem dera se fossem.
Seria talvez mais poético dizer que Marlye era uma garotinha assustada, indefesa e inocente que teve sua alma, corpo e mente arrastados para a escuridão. Que não teve escolha senão sobreviver, senão lutar para existir. Contudo, não existe qualquer beleza ou poesia em sua origem, pois as tais trevas que seus antepassados, vizinhos e família a alertavam sobre não estava apenas do lado de fora. Marlye havia nascido com ela, crescido com elas, as alimentado e solidificado. Marlye jamais tremeu ao ouvir sobre os horrores ao redor, pois, de alguma certa forma quieta e sorrateira, crescendo cada vez mais em seu peito, ela sabia que ela e a escuridão eram o mesmo.
Alguns dizem que a crueldade é algo que se herda. Outros, que é algo que se torna. E outros, que é como uma maldição lançada pelos deuses. Ela jamais soube explicar se alguma dessas teorias tinha razão, mas de algo tinha certeza: o que devia existir em seu peito, o que devia fazer com que ela se importasse, simpatizasse ou sequer sentisse... não estava lá. Ao menos não como nas outras crianças, que eram choronas, birrentas, estúpidas e maleáveis como malditas folhas. Não que Marlye considerasse isso ruim, pois tirava delas tudo que desejava.
Uma vez inclusive chegou a duvidar da existência das criaturas da noite e mandou um de seus "amiguinhos" até a floresta após ter inventado um punhado de histórias e desafiado sua masculinidade frágil e nem mesmo formada. Jamais havia visto crianças atacadas até então, apenas adultos. Talvez pelo fato de que adultos eram mais idiotas que crianças as vezes? Talvez, mas precisava provar sua teoria. Caso o garoto retornasse vivo, veria que era uma armação de sua vila para controlar e assustar a todos.
Ele retornou, sim. Mas não com vida.
Marlye ficou obcecada por aquilo, não exatamente pelos vampiros em si, mas pela força que apenas dizer tal palavra causava nas pessoas. Até os mais fortes e corajosos se encolhiam e olhavam preocupados ao redor se a palavra fosse dita, muitos jamais tendo chegado a ver um de fato. Aquilo era poder de verdade e era a coisa mais fascinante que já presenciara em seu curto período de vida.
Marlye cresceu bela, educada e atraente quesitos que aprendeu que eram os únicos valorizados pelas pessoas em volta. Ninguém nem mesmo ligava ou sabia que sua inteligência, que sua genialidade e calculismo sim, deveriam ser algo aplaudido e não meras coisas externas e fúteis. Contudo, sabia muito bem usar as armas que tinha, ganhando a atenção, admiração e carinho de todos os habitantes tolos e amedrontados de sua vila. Descobriu que nascera para tal coisa, para controlar, guiar, inspirar. Para destruir e criar quando bem quisesse ou entendesse.
Apesar de ter todo o poder onde vivia, queria mais. Gostava de desafios e de jogos e não havia nada ali sobrando para isso. Sempre soube que na hora certa se juntaria aos vampiros e talvez tal momento houvesse enfim chegado.
Não era nada difícil atrair um deles, afinal, as histórias eram verídicas sobre o perigo de se estar sozinho durante a noite. Uma sombra a seguiu por quarteirões, desaparecendo sempre que ela olhava para trás, fazendo barulhos para que ela se assustasse de estar sendo perseguida. Não era estúpida em pensar que poderia simplesmente morrer, mas a adrenalina em jogar a fazia concentrada e focada. Fingiu, como fazia todos os dias, ser uma donzela amedrontada e indefesa. Chorou e implorou por misericórdia quando o vampiro enfim a interceptou. Ele gostava que ela implorasse e se humilhasse, como todos os outros homens e isso a fez perceber que talvez a mera diferença entre ele e um humano fosse estar vivo.
O vampiro tagarelou e a provocou por horas. Não estava com fome, estava caçando. O erro dele fora acreditar que ele era o caçador. Marlye lhe contou que era uma moça curiosa, que a história sobre as mortais criaturas da noite despertavam sentimentos confusos e conflitantes nela, que sempre desejou ver um deles de perto. Ego. Essa era a chave para muitas conversas. Pessoas (vivas ou mortas, pelo visto) gostavam da aprovação, de serem aplaudidas. Sentia-o adorar cada palavra dela, outra peça maleável num enorme jogo constante.
Marlye não morreu naquela noite. O vampiro se alimentou dela e os dois conversaram e se provocaram por horas a fio. Ele voltou na noite seguinte. E na outra e na outra. O que começou com provocações, com beijos e carícias roubados, culminou com ele a seus pés, se declarando e a amando. Juraram amor eterno um ao outro (ao menos ele jurou) e convencê-lo a transformá-la não foi nem um pouco difícil.
Viveram juntos por cerca de 50 anos, o tempo que Marlye tirou para estudar e aprender tudo que podia sobre eles. Claro que também contava o fato de que seu parceiro tinha excelente influência entre os vampiros, coisa que ela usou o máximo que achou necessário até se cansar dele e eliminá-lo.
Agora de fato sentia ter o poder em suas mãos, com novos limites a serem alcançados e superados. Marlye ia de lugares em lugares conquistando e destruindo, levando consigo os que julgasse úteis, poderosos e promissores. Treinou legiões e devastou o dobro disso.
Sem dúvidas que como seu braço direito escolheu alguém que beirasse o invencível. Moldar Godric para ter crenças e ideais como os seus foi só o começo dos séculos que passaram juntos. Ele era como a arma perfeita, liderando suas legiões e executando quem ela desejasse. Godric tinha poderes especiais, esse que ela sempre usou a seu favor, mas que eventualmente começaram a virar certo empecilho. O vampiro fora talvez o mais perto que Marlye chegou de quase sentir alguma coisa. Ela se via nele, sem alma, sem escrúpulos ou travas. Isso, é claro, até ele começar a se importar com as vítimas, até ele começar a duvidar do que faziam e do que representavam.
Marlye não permitiria jamais que todo seu trabalho fosse destruído pela humanidade restante nele e sabendo bem que derrotá-lo numa luta seria pedir para morrer, arquitetou um plano para que Godric fosse morto pelo grupo de Van Helsing. Contava até que ele pudesse acabar sobrevivendo, conhecendo bem a força que tinha, mas a parte não calculada fora sua própria morte. Ou quase.
Talvez seu erro fosse ter pensado que ele não seria capaz daquilo ou que não teria coragem. Ou talvez Marlye simplesmente resolveu ignorar tal parte, o que, para uma calculista como era, fora algo absolutamente estúpido de se fazer.
Godric lhe arrancou a cabeça e isso deveria ter bastado para sua morte definitiva, mas Marlye tinha ainda algumas cartas restantes na manga. Ninguém com o poder e influência que ela tinha deveria pensar que jamais seria atacado. Ela precisava estar pronta para possíveis traições ou erros. Por séculos estudou necromancia e bruxaria, conheceu seres muitíssimo mais poderosos do que ela jamais seria e se preveniu. Seu coração se separou de seu peito e foi escondido para que mesmo sendo morta e atacada, nada fosse definitivo de fato.
Infelizmente, a magia cobrava seu preço e cobrava tempo. Seu corpo não se regenerou da noite para o dia e precisava de certo acúmulo de poder para tal coisa acontecer. Carregara sempre no pescoço um colar, uma espécie de amuleto que ganhava mais força mágica a cada nova morte por suas mãos ou executada pelos seus. Com sua morte, Godric roubou o objeto e, sem nem saber, seguiu o alimentando com vidas roubadas, poder esse que Marlye usava para retornar.
Quando a maldição caiu tanto em Tenebris quanto nos outros reinos, ela foi levada junto e seus acordos com Drácula foram o último fiapo de força que precisava para, enfim, voltar à vida.
Um novo começo, uma nova cidade e novas pessoas. Um jogo completamente diferente estava prestes a ser iniciado e Marlye, agora Nesrin, mal podia esperar para jogar.













