lotuswasches:
Ao ser anunciado que ganharia apenas punições por mau comportamento, Cheshire soltou um longo assovio impressionado, mas mantendo as mesmas expressões risonhas que lhe eram características de outra vida. Ele havia desafiado e enfrentado pessoas muito mais assustadoras – genocidas que o haviam abandonado naquele porão, inclusive! –, e um rosto sério de jaleco não era força o suficiente para intimidá-lo, ah, não. ❛❛ —- “Eu quero que faça o que eu estou mandando”. ❜❜ repetiu, duas oitavas acima do normal, revirando os olhos em seguida. ❛❛ —- E eu queria sair dessa merda de caixa de vidro pra poder seguir minha vida normal no meio dessa maldição nojenta, mas a gente não tem tudo o que a gente quer. ❜❜ deu de ombros, sentando-se na ponta da maca e cruzando os braços para poder encará-lo do outro lado da cela. Ou, ao menos, foi isso o que pensou em fazer. O choque que desceu pela sua nuca e costas fez com que ele se desequilibrasse, e os músculos retesassem como se alguém estivesse os puxando por debaixo da pele. O sorriso diminuiu um pouco, as expressões mudando para um misto de incredulidade enquanto levava uma mão para o local onde acreditava que o choque havia se originado. ❛❛ —- … O que caralhos tu fez comigo? ❜❜ falou, demonstrando que realmente não prestou atenção no monólogo explicativo de Balthasar. Deslizou o indicador e o polegar pelo local, e os dedos travaram ali quando a segunda onda de choque espalhou-se pelos músculos. A respiração de Lotus começou a ficar descompassada, demonstrando que estava em alerta; seu corpo humano já ativando os mecanismos necessários para fugir ou brigar. Ainda assim, a inconsequente mente Wonderlander não queria deixar barato. ❛❛ —- Cê acha mesmo que eu vou te obedecer com isso? ❜❜ ele deu risada, exibindo os dentes como sempre foi conhecido por fazer. Bem, aparentemente Balthasar não achava, mesmo, porque vieram mais e mais choques a cada frase engraçadinha que Lux tentou inferir. Uma coisa interessante sobre o corpo do cartomante, era que ele passou antes a vida inteira sendo um ser cuja forma corpórea era apenas aquilo: uma forma. Cheshire modificava as estruturas de si mesmo em pleno ar, misturava-se nele com facilidade. Ter carne, osso, nervos e músculos não transformáveis e que pesavam tanto no teleporte era algo novo, de fato. E quando os contaminava com as drogas, lícitas ou ilícitas, sentia-se muito bem – mas quando os estimulava de forma negativa como aqueles choques, sentia-se mil vezes pior. Durante as próximas horas, desenrolou-se uma batalha intensa entre a obsessão de Balthasar unida às fraquezas humanas que sabia bem explorar contra a mente e a vontade de Cheshire. Ele não conseguiu notar quanto tempo exatamente havia se passado (aquele homem não dormia, não sentia cansaço ou tédio?), mas notava, sim, que os choques só faziam piorar ao invés de acostumar-se com eles. Esgotou todos os xingamentos que havia conhecido (em inglês e espanhol), esgotou todos os pedidos de negociação, as gracinhas para distraí-lo. Esgotaram-se as forças, os caminhos para lutar. Não se lembra quando finalmente quebrou, como finalmente cedeu. Mas sabia estar ajoelhado no chão, a cabeça contra o vidro, chorando. A mandíbula estava recém destravada (não conseguia se recordar em que parte dos choques os músculos do rosto haviam congelado), então arranjou forças para subir as mãos e limpar as lágrimas e a saliva que escorria pelos cantos da boca. Subiu os olhos vagarosos, trêmulos, para a figura que parecia tão imponente acima de si, arrastando o rosto pelo vidro para apoiar primeiro a bochecha, e depois o queixo. Até tentou, uma última vez, fazer um comentário sarcástico, mas mesmo com a visão embaçada conseguiu identificar o movimento dele para apertar aqueles malditos botões, e o corpo se retesou em pânico de forma institiva. ❛❛ —- P-Para. ❜❜ se ouviu pedindo quando conseguiu reunir a voz outra vez. O primeiro verbo saiu esquisito até para ele, mas um pedido de confirmação do que havia falado fez com que engolisse em seco o próprio orgulho. ❛❛ —- P-Por favor, para. Não me machuca mais. ❜❜ não aguentava mais. Era só uma transformação, não era? Fazia o tempo todo na frente de Edward, oras. Deveria estar tudo bem! Tudo bem, ele se convenceu depois de horas de tortura de choque. ❛❛ —- E-Eu faço o que quiser, valeu? E-Eu faço. Mas para. Por favor. Não. N-Não… Não. ❜❜ negou com a cabeça, a sentindo pesada, zonza, esforçando-se para mantê-la ainda virada para cima, apoiada contra o vidro. Inspirou profundamente, a respiração entrecortada pelo o que eram resquícios de soluços do choro. E então, para a alegria de Balthasar, ele o fez, ali, ao vivo, aos seus pés: Lotus transformou-se na sua forma de gato preto, ainda trêmulo por conta do tratamento de choque. Mas ainda assim, um gato, finalmente.
O que mais impressionava Frederick era que apesar de tudo que já havia dito, o rapaz continuava com uma expressão de deboche estampada em seu rosto, em seu sorriso. Enquanto o tom irônico era pintado em sua voz e até mesmo a forma como ele havia imitado sua fala, o doutor apenas se mantinha com os olhos fixos. As bochechas não queimaram pela irritação do sarcasmo ali, não. Na verdade, ele não alterou nem um músculo de sua expressão. Tudo era questão de uma análise de comportamento. Não precisava saber muito mais sobre o rapaz, para ter certeza de que ele gostava de afetar as pessoas, gostava de atenção. Ficava claro que seu objetivo era irrita-lo. E se Frederick de fato se deixasse ser irritado, iria reforçar positivamente aquele comportamento - fazendo com que a mente do rapaz acreditasse que todas as vezes que debochasse, conseguiria o que queria: o psiquiatra fora de si pela irritação. Mas se Balthasar apenas ignorasse? Bom, não reforçaria aquele comportamento e talvez o homem gato aprendesse a ser mais educado. Sem falar nada, apenas com os olhos fixos dentro dos castanhos alheios, o psiquiatra tocou um botão: e aquele botão faria o trabalho por ele. Sabia que uma onda de choque desceria da parte de trás de sua cabeça, por dentro das cervicais, descendo toda a medula espinhal e eletrecutando de forma dolorida e lenta todo o corpo do rapaz. Mas isso não o parou, não de cara. Mas o bom era que Frederick não tinha pressa alguma. Sabia muito bem que aquilo poderia levar tempo, até porque, queria analisar como o corpo dele reagiria a noites sem dormir. Como a magia funcionaria naqueles casos. Também em situação de fome, de desidratação. E quais eram a diferenças para o corpo humano bem descansado, alimentado e hidratado. A fala com uma pergunta idiota (idiota, afinal, ele havia explicado tudo detalhadamente antes de começar com aquela sessão de estudos) estava apenas no meio quando Frederick tocou o botão mais uma vez, fazendo outro choque percorrer o corpo do rapaz. “Não se preocupe, eu tenho todo o tempo do mundo, homem gato” ele falou e foi possível ver um quase sorriso sádico ocupando o canto da boca de Frederick - que sentia algum prazer em saber que tinha total controle sobre o homem naquela situação. Nunca havia sido um homem que buscara poder, pois acreditava que era o conhecimento que os tornavam maiores. Mas ali? Era delicioso saber que tinha todo o controle sobre ele.
A primeira hora até que passou rápido. Frederick era um homem paciente afinal. Não clicava o botão assim que Lotus abria a boca, não. Ele esperava pacientemente para ouvir qual seria a piada. Qual seria sua tentativa de provcação. Qual seria o deboche da vez. Mas assim que tinha a resposta a sua pergunta mental - será que ele vai ceder agora? - e via que as falas continuavam abusadas, ele não hesitava em fornecer mais um pouco de eletricidade ao corpo dele. A segunda hora já não foi tão rápida. Dessa vez Frederick começou a ficar com um pouco de fome e até deu uns três minutos de alivio para Lotus, enquanto fora buscar uma maçã para comer durante os estudos. Era necessário que ele, como pesquisador, se mantivesse alimentado e hidratado, é claro, para não deixar nenhum detalhe passar diante de seus olhos. Bom, não que houvesse algo para assistir até então. Tudo que via era o homem gato se contorcer hora ou outra, conforme sentia os choques percorrendo cada pedacinho de seu corpo. A terceira hora foi mais divertida. As lágrimas fizeram com que um sorriso perverso tomasse os lábios de Frederick, pois ele sabia que o homem estava quase lá. Quase no ponto de exaustão em que não conseguiria mais resistir, apenas cederia ao que ele queria. Faltava pouco, ele sabia. Nesse ponto, o psiquiatra caminhava mais próximo do vidro, observando o homem cair vez ou outra, se remexer entre falas sarcásticas e piadinhas sem rumo. Se mantinha de pé e bem próximo para que Lotus visse que ele estava olhando-o de cima. Como deveria ser. E foi na quarta hora em que ele finalmente cedeu. A última piadinha provavelmente havia sido a pior delas e Frederick levou o dedo ao botão mais uma vez, pacientemente. Mas antes que apertasse, ouviu pela súplica. Esta que, naquele ponto, soava como música aos seus ouvidos. A expressão derrotada do rapaz contra o vidro, como se seu cérebro começasse a derreter era gostosa. Logo poderia transforma-lo em seu boneco pessoal, tinha certeza disso. O sorriso aumentou, e muito, e uma das sobrancelhas de Frederick se arqueou. “Eu já disse que paro. No momento em que você fizer o que eu mando.” a fala era simples e surtiu efeito. Pois segundos depois, o homem havia se tornado gato, como ele tanto queria. O sorriso de Balthasar se tornou enorme, até uma risada ele soltou diante da magia que acabara de acontecer. Correu para o monitor do computador e analisou as frequências da atividade cerebral, além de outros detalhes técnicos. Foi anotando tudo em seu caderno, em poucos segundos, animado demais. Ele ria em extase diante do resultado da tortura. Se levantou de uma vez da cadeira diante do computador e bateu no vidro com força, em animação “Agora volte a ser humano, agora. Agora, vamos.” toda a calma havia deixado o corpo dele, afinal, estava se divertindo com aquilo, com toda certeza. Seus estudos seriam um sucesso. Ele bateu mais uma vez contra o vidro e deu uma risada “Vamos, jovenzinho. Vamos nos divertir muito.”
As próximas quatro horas foram assim. Ele pedia para que o rapaz se tornasse gato. E depois que se tornasse gato. Podia ver a energia deixando cada pedaço do corpo de Lotus, mas eles estavam apenas começando. Porque logo depois os pedidos seriam diferentes. Pediria para que ele se teletransportasse, pois sabia que o homem era capaz de fazer isso. E seria ainda mais divertido.








