Ricardo Lísias fala ao ‘Nexo’ sobre o novo volume do projeto literário ‘Diário da Catástrofe Brasileira’
Na noite de 28 de outubro de 2018, o escritor paulistano Ricardo Lísias encontrou um caderno em branco. Poucas horas após o anúncio da vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, Lísias começou a rascunhar no caderno um pequeno diário que se tornaria o projeto literário “Diário da Catástrofe Brasileira”, abrigado no Kindle Direct Publishing, plataforma de autopublicação da Amazon.
Lísias é autor dos contos “Anna O. e outras novelas” (finalista do Prêmio Jabuti de 2008) e dos romances “O Livro dos Mandarins” (vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010) e “O Céu dos Suicidas” (Prêmio APCA - Associação Paulista de Críticos de Artes de 2012), entre outros.
No projeto digital, ele está experimentando formatos: toda noite, escreve o diário à mão, digita, revisa, lê as notícias e os posts no Twitter das autoridades e, se necessário, repensa, reescreve e atualiza o e-book na Amazon.
O projeto estreou no dia 12 de dezembro de 2018. Diferentemente de outras obras, a versão final do projeto não é final, mas sempre temporária. Trata-se, portanto, de um livro mutante, com vários volumes, num conjunto de e-book sujeito a modificações ao longo do tempo, acompanhando a quente os vaivéns das decisões do governo. “Um e-book não é um livro”, escreveu o autor no diário digital.
“É um experimento”, disse Lísias ao Nexo. Segundo o escritor, o projeto começou por impulso, sem a participação de sua agente literária ou de seus editores. Ele afirma ter escolhido a plataforma de autopublicação devido à possibilidade de incluir atualizações. Até agora, foram publicadas quatro versões do primeiro volume (“Diário da Catástrofe Brasileira I - Transição), que trata, entre outros temas, de questões estéticas da extrema direita a partir de memes políticos.
Lançado em 12 de março de 2019, o segundo volume (“Diário da Catástrofe Brasileira II - A Pulsão de Morte no Poder) possui duas versões. Lísias se volta à questão psicanalítica da política, abordando, por exemplo, o episódio do “golden shower” no Carnaval.
Por conta de um trecho do e-book, Lísias foi convidado pelos advogados dos dois jovens que protagonizaram o vídeo do Carnaval, divulgado por Bolsonaro no Twitter, para redigir uma nota técnica sobre performance para uma ação no Supremo Tribunal Federal. O post foi apagado do perfil do presidente.
O próximo volume do “Diário da Catástrofe Brasileira”, ainda sem subtítulo, será lançado em 15 de junho de 2019. O número quer discutir a “paralisia” da sociedade. “Por que estamos paralisados, inertes e chocados com o rumo das coisas?”, questiona o autor, que é mestre pela Universidade de Campinas e doutor pela Universidade de São Paulo.
Em 2018, Lísias foi processado pelo ex-deputado federal Eduardo Cunha (preso na Operação Lava Jato, em 2016) por causa do livro “Diário da Cadeia” (ed. Record, 2017), que foi lançado com a assinatura “Eduardo Cunha (pseudônimo)”. Lísias venceu a ação em todas as instâncias, inclusive no Supremo Tribunal Federal, e agora está processando Cunha.
Nesta entrevista ao Nexo, o autor discute relações entre política e literatura.
Como surgiu a ideia dos diários? RICARDO LÍSIAS Durante a campanha [eleitoral de 2018], eu estava perplexo com toda a situação e buscando explicações para o crescimento contínuo, e como vimos muito bem-sucedido, de um candidato de discurso francamente fascista. Depois que o resultado foi anunciado, redigi algumas notas antes de dormir. Nos dias seguintes, em meio a toda a confusão e perplexidade, continuei escrevendo.
Gosto bastante de e-books e tento observar como sua forma específica (e não apenas uma plataforma a mais de publicação de um texto que também está impresso) pode oferecer novos artifícios para a criação. Eu já vinha pensando em algo desde que por fim se encerraram os desdobramentos de “Delegado Tobias” [folhetim digital de 2014, que lhe rendeu intimação para depor].
Notei o caráter intencionalmente volátil e sem nenhuma base sólida do novo governo. Percebi que precisava adotar as possibilidades únicas do e-book para discutir melhor a situação política. Daí fui estudar a plataforma de autopublicação da Amazon e notei que ela permitia atualizações. Foi quando fechei a face inicial do projeto. Decidi que jamais citaria o nome do presidente brasileiro [diretamente]. Com o projeto já em andamento, percebi que na verdade meu projeto não estava contemplado nas possibilidades de atualização previstas pela Amazon. Então entrei em contato com dois funcionários do braço brasileiro da empresa e, depois de um diálogo de 15 dias, consegui a possibilidade de atualização, que tem sido feita até agora.
Como você define o formato dos diários? RICARDO LÍSIAS É um experimento que vou conduzir até o final do governo. Busco uma possibilidade de intervenção: meu experimento é uma tentativa de combate antifascista e não uma análise somente. Esta é a minha resistência. A ideia inicial é que o experimento fique no ar, acessível até o fim do governo neofascista: isso se ele acabar na semana que vem, daqui um ano ou nas próximas eleições regulares, apenas em 2022. Nada indica que outro extremista não seja eleito, porém... Caso o extremismo seja ultrapassado no Brasil, vou encerrar o experimento, ao menos na forma como tem sido feito até aqui. Que tipo de feedback você tem recebido sobre os volumes? RICARDO LÍSIAS São muito diferentes: das habituais ameaças e agressões às manifestações de concordância, discordância e desejo de aprofundamento. Recebo mensagens de leitores contando situações (professores sendo perseguidos se tornaram uma constante), analisando trechos e fazendo sugestões. No geral é um público universitário, escolarizado e com interesse em arte, literatura e política, como mais ou menos é o perfil dos meus leitores. Por conta de um trecho na primeira versão do segundo volume, fui convidado pelos advogados (que estão acompanhando minha criação) dos dois artistas que realizaram a performance durante o Carnaval para redigir uma nota técnica para a ação que eles propuseram no Supremo Tribunal Federal contra o presidente. Na segunda versão, anexei essa nota. Aos poucos, o experimento está circulando.
O diário, constantemente atualizado, se prende mais a uma análise momentânea? Ou espera que resista ao tempo? RICARDO LÍSIAS Não acho que qualquer perspectiva pode ter certeza da própria segurança a ponto de, através dela, oferecer uma narrativa histórica. Não tenho muito motivo para acreditar em resistência ao tempo ou em efemeridade. Acho qualquer raciocínio nesse campo mera aposta, e como vimos, apostas são perigosas. Faço uma reflexão por outro caminho: se algumas das afirmações contidas no experimento continuarem válidas por muito tempo, o fascismo terá triunfado por esse mesmo período de tempo. Dizendo de outro jeito, quanto mais tempo minhas análises forem válidas, pior estará nosso país e o mundo. Espero que tudo acabe logo, mas não tenho elemento para isso que não a mera esperança. A realidade me parece o contrário: alguns trechos talvez custem a perder a atualidade. Sinto muito por isso.
Que relação você vê entre literatura e política? RICARDO LÍSIAS É uma questão controversa. Não concordo com hipóteses que tratam a literatura como retrato ou reprodução da realidade. A literatura e a arte fazem parte da realidade, mas estão sujeitas a um tipo de influência que não é necessariamente de contraposição política, não necessariamente se traduz em posicionamentos críticos. A priori, literatura e arte estão no mundo real, quer dizer, estão no contexto da realidade. E as relações com a realidade podem ser críticas ou não - e eu espero que a minha seja crítica. Para mim, sempre foi prazeroso escrever. Este é o primeiro e único trabalho que estou fazendo a contragosto: não é agradável, não é divertido, não é engraçado. Ainda assim, é um projeto que eu julgo importante para a arte e para a política: abandonar eu não vou, desistir eu não vou. Mas otimista não estou.
Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2019/05/10/As-defini%C3%A7%C3%B5es-de-livro-foram-atualizadas-segundo-este-escritor © 2019 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.















