POR QUE AINDA QUEREMOS SABER QUEM É BANKSY?
A insistência em revelar a identidade do artista britânico talvez diga menos sobre ele e mais sobre o próprio sistema da arte, ainda profundamente dependente da noção de autoria como fundamento de valor, legitimidade e circulação. Partindo dessa provocação, este artigo investiga a seguinte questão: estaríamos diante de um movimento de nova renascença ou da dissolução do artista? Para tanto, compreende-se o artista não como uma essência estável, mas como uma construção social historicamente situada, articulada por discursos, instituições e regimes de visibilidade. Nesse contexto, a contemporaneidade evidencia a figura de um artista fragmentado, que atua simultaneamente como produtor, gestor, comunicador e educador, enfrentando processos de precarização e a crescente impossibilidade de “ser apenas artista”. Tal cenário tensiona o próprio papel do artista: ele ainda pode ser entendido como criador, ou passa a operar como editor, curador ou operador de sistemas? Paralelamente, as transformações nas mídias e nos modos de circulação intensificam o enfraquecimento da autoria, na medida em que as obras circulam mais do que seus autores, e a visibilidade se sobrepõe à origem. Nesse sentido, a emergência das tecnologias digitais e das inteligências artificiais não inaugura uma ruptura absoluta, mas radicaliza processos já em curso. Ao retomar a ideia de uma possível “nova renascença”, o artigo propõe um contraste histórico: enquanto a Renascença consolidou o artista como indivíduo e associou valor ao domínio técnico, o presente aponta para um cenário em que a técnica se automatiza e a autoria se difunde, colocando em questão a centralidade do sujeito artístico. Assim, mais do que anunciar o fim do artista, este estudo sugere uma reconfiguração de seu estatuto, marcada por tensões entre presença e dissolução, controle e indeterminação, visibilidade e anonimato.
Palavras-chave: artista contemporâneo; autoria; inteligência artificial; circulação de imagens; sistema da arte.
REFERÊNCIAS
G1. Agência de notícias diz ter descoberto a identidade de Banksy, apesar da negativa dos representantes do artista. G1 Pop & Arte, 13 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2026/03/13/agencia-de-noticias-diz-ter-descoberto-a-identidade-de-banksy-apesar-da-negativa-dos-representantes-do-artista.ghtml. Acesso em: 28 abr. 2026.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos: estética – literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
STEYERL, Hito. In Defense of the Poor Image. In: STEYERL, Hito. The Wretched of the Screen. Berlin: Sternberg Press, 2012.
ZYLINSKA, Joanna. AI Art: Machine Visions and Warped Dreams. London: Open Humanities Press, 2020.















