E, de repente, a vida parou.
O cenário ao redor ficou sem luz.
A vida, tão dinâmica e alegre, freiou. Tornou-se lenta, preguiçosa, demorada.
A vida dele mudou do dia pra noite, sem querer, sem planejar, sem pedir.
Daniel era seu nome. Daniel engessado. Daniel paralítico. Daniel cansado.
Seu peito era nada além de uma agonia cruel, que o fazia pesar 200 kg. O peso era tamanho que o fazia não conseguir andar, só se arrastar.
Experimentou chorar para combater a agonia do peito e, ao começar, não conseguiu mais parar. O choro tinha vida própria. Daniel chorou até babar, até sua cara ficar enxarcada. Chorou até soluçar e fazer barulhos estranhos.
Não passou a droga da agonia; transformou-se em dor física.Daniel era um cara responsável, e como tal, sabia que agonia, que dor física, que choro espalhafatoso não poderiam durar muito tempo. Em breve sua esposa e filhos estariam em casa. Em breve ele teria que brincar com as crianças. Em breve teria que interagir, que comer, que sorrir, que falar, que fingir que gostava.
Ele sabia que era passageiro.
Sentou no chão do chuveiro e repetiu um mantra "tudo vai dar certo", enquanto pensava em cachoeiras e lugares desertos: Água quente que acalma, quero dormir em seus braços, afundar e sentir toda sua leveza. Me leva com você.
Pensou nas coisas que aprendeu ao longo da vida, em como tudo é passageiro, em como ninguém é insubstituível, em como seria maravilhoso e libertador andar pelo mundo com a roupa do corpo, atravessando fronteiras, sozinho, descalço. Ai, como seria bom escapar disso tudo que construíra, que ainda estava construindo, deixando tudo e todos para trás, como cenários e figurantes apenas. Esse pensamento o fez sorrir. Esse pensamento secou suas lágrimas e o deu forças para sair do banho, se enxugar e abrir a porta.
Ele sabia que era passageiro.