Eram oito da manhã de um sábado primaveril. Rita acordara cedo para aproveitar o dia com as suas duas filhas. Mário, o seu companheiro, cardiologista no hospital público da cidade, ficara a dormir mais um pouco pois estivera de banco a noite toda. Ainda na cama mas já a vislumbrar o sol reluzente pela janela, Rita interrompe o seu amor ressonador do lado.
- Querido, vou levar as pequenitas à Ribeira. Está um dia bonito, quero mostrar-lhes aquele esplendor onde tantas vezes perdi a noção do tempo e me deixei ficar a escrever. Quero que conheçam o local que inspirou o meu livro. O que achas? Vais lá ter connosco mais tarde?
- Sim minha luz. Quando acordar ligo-vos para saber onde estão. Acho óptimo que as leves lá. Vão adorar, garantidamente.
Rita sorriu-lhe e beijou-o apaixonadamente.
Depois de vestir as duas meninas, deu-lhes o pequeno-almoço, deixou-as ver quinze minutos de desenhos animados enquanto se arranjava e lá sairam. Desciam agora a rua, de mãos dadas, a caminho do carro.
- Meus amores, toca a apertar os cintos. Vamos partir à descoberta dos encantos da Ribeira. Vamos ouvir quais os segredos que o Rio Douro tem para nos contar.
Pelas dez chegaram à Ribeira. Começaram o percurso a pé, desde a ponte D. Luís I em direcção à Foz. Estava um dia maravilhoso, podia ver-se com nitidez a margem de Gaia, os pequenos barcos coloridos atracados ao cais bem como os transeuntes e os ciclistas, uns em cadência de passeio, outros em cadência de treino. À medida que foram passeando de mãos dadas e corações unidos, Rita foi contando as suas lembranças daquele local e de como tinha dali retirado inspiração para escrever o seu romance. Sentia-se misteriosamente em casa. Tudo o que lhes contava e mostrava “in loco” convergia para os detalhes e para a simplicidade daquela ribeira. As casas muito pitorescas, simples, muito portuguesas. Os estendais carregados de roupa, os santos pendurados nas paredes, o cheiro a sopa de legumes e cozido, as portas baixas, as vizinhas reunidas à beira das casas na amena cavaqueira, as mensagens de acolhimento do tipo "sejas bem-vindo se vieres por bem" e "nesta casa há pão e vinho para partilhar.” O Douro corria ali muito tímido, quase que nem davam por ele, mas não estava menos magnífico por isso. Corria simplesmente sereno até se juntar ao mar, fazendo-lhes amigável companhia durante o passeio. Rita apreciava a forma como o prosaico se misturava ali com o distinto gerando uma infinidade de novas possibilidades. Era isso que a maravilhava, aquela mescla surpreendente de conceitos antípodas, tudo o que aquelas pequenas coisas aparentemente insignificantes traziam dentro de si eram oportunidades para encher a alma de paz, faziam-na sentir-se acolhida, bem guardada. A Ribeira era isso mesmo. Um refúgio inspirador, um passeio de pequenas possibilidades de crescimento interior. Observá-las era um deleite verdadeiramente magnífico.
-Vamos parar aqui nesta esplanada meus amores. Foi aqui, no Bacalhau, que comecei a escrever o " Sétimo". Estão a ver esta janela para o paraíso? Não é fantástica a vista?
-Sim!!! _ Retorquíram em uníssono as princesas.
-Mamã, porque escreveste um livro? _ Perguntou a Vera, a mais curiosa das duas irmãs.
- Meu doce, eu queria acima de tudo deixar no mundo algo meu, um bocadinho de mim que pudesse viver mais do que eu. Queria partilhar com os outros um pedaço da minha criatividade esperando, naturalmente, que ela pudesse de alguma forma tocar a alma de alguém. Achei que me devia desafiar a saber se aquilo que sou penso e imagino tem interesse para os outros.
Rita sorriu e abraçou Vera com uma ternura incomensurável.
- Rita, és mesmo tu? Não acredito. _Ouviu-se.
Era a voz dele. O homem que dois anos antes tinha deixado Rita numa ilha onde o amor, a amizade e a verdade escasseavam. O homem que a tinha partido em mil pedaços e a fizera acreditar que não valia nada. Era a voz dele que agora ouvia e ela, receosa, hesitou alguns segundos antes de se virar.
- Olá. _ cumprimentou-o com frieza.
Não se moveu para lhe beijar a face conseguindo disfarçar o incómodo que aquele reencontro lhe estava a causar.
-Já não te via há dois anos. Estás boa? Novidades?
Ainda bem que não nos cruzámos antes, pensou Rita.
- É verdade, já passou algum tempo desde que nos separámos. Eu estou melhor do que nunca, muito feliz. Atravesso uma das melhores fases da minha existência. Escrevi um livro, encontrei o amor da minha vida e fui mãe. Aprendi a amar-me devagarinho.
- Uma árvore já tinhas plantado comigo em Mafra. Bom, vejo que cumpriste o cliché. Não te resta fazer mais nada até morrer. A edição do livro foi paga por ti?
- Não... Vejo que continuas o mesmo crente no meu talento de sempre. E parvo também.
- Some things never change. _disse Nuno, sarcasticamente.
- Eu mudei em boa altura. Deixar-te foi o meu grito do Ipiranga. Ainda bem que consegui curar-me da cegueira que me proporcionaste durante uma década e não percebo porque insistes em falar-me se não tens nada de interessante para me dizer.
- O que poderia eu dizer?
- Desculpa? _Referiu Rita.
- Desculpa por te ter amado como nunca amei ninguém na minha vida?
- O que tu sentiste não foi amor Nuno. Ainda não percebeste que apenas deste amor em micro doses, muito efémeras, porque não te libertas do teu narcisismo e do teu ego? O verbo amar é transitivo, não é compatível com verbos como depender, subjugar, prender, isolar e ostracizar. Tu usaste todos eles comigo, na primeira pessoa, durante todos os anos que te dediquei e te amei. Amar-te fez-me muito mal. Abriste feridas em partes de mim que ainda não sei se vou conseguir sarar. Amar é ter prazer em ver o outro voar bem alto e sentir orgulho por tudo o ele consegue e realiza. Amar é criar espaço, tempo e esperança para o outro, não é restringi-lo nem menorizá-lo. É ouvir o mundo inteiro no peito de alguém. No silêncio de alguém. Não é isolar a pessoa amada do mundo inteiro nem substituir os silêncios que se pretendem tranquilizadores por gritos e insultos sem sentido.
- Foda-se Rita. Vejo que continuas uma especialista em espezinhar-me com as tuas palavras de terceira categoria. Não vales nada.
- Querida Rita! _ grita Mário a uns metros de distância.
Nuno afasta-se de Rita e das duas meninas e desata a correr.
- Ainda bem que chegaste meu querido. Salvaste-me uma vez mais. Safaste-me de mais um filme de terror e medo.
- Mãe, quem era aquele senhor que estava a falar contigo?
- Era um fantasma, meu amor. Um fantasma sem importância. Já foi embora, não te preocupes.
Rita olhou Mário com cumplicidade. Pretendia contar-lhe mais tarde o que se havia sucedido mas naquele momento conseguiu apenas sorrir de alívio. Acima de tudo estava agradecida por tudo o que a vida lhe tinha proporcionado. Estava ali, à sua frente, o seu maior tesouro. As duas filhas e o seu companheiro. Com eles, o passado magoava menos. Ganhava legitimidade.