Querido desconhecido
Naquele dia invernoso, frio, ameaçando chuva forte, havia uma brecha solarenga sobre o mar. Ele tinha decidido sair mais cedo do lúgubre escritório que lhe atormentava os dias e assim arejar os pulmões com a salgada brisa marítima. Enquanto caminhava, botas castanhas de couro na areia húmida da baixa-mar, outra brisa o atingiu. Em forma de garrafa. Não sendo inédito, era certamente improvável encontrar uma Brisa maracujá naquela praia, em pleno inverno. Ainda mais inesperado era a garrafa não estar vazia. No interior, protegida das vontades do oceano por uma rolha, uma folha de papel repousava serena e docilmente. Sim, aquela cena típica de filme. Mas, já que a situação se tinha apresentado assim, porque não cumprir o clichê? Soube-lhe bem a areia molhada entre os dedos ao agarrar a garrafa fria. Pensou como é bom estar e sentir-se vivo, desperto. Desarrolhou a garrafa, abanou-a veementemente mas a folha não saía. A nortada recordou-lhe inclementemente que aquele não era o momento nem o lugar certo para descobrir o conteúdo da garrafa ou da mensagem nela contida. Refugiou-se no carro, trancou as portas, usou uns pauzinhos que trazia de recordação do último sushi para libertar, por fim a folha de papel escrita. Uma vez desenrolada, começou a ler as palavras desenhadas com cuidado que alguém lhe teria dedicado. A carta começava assim:
“Olá querido desconhecido. Quero partilhar contigo um sonho que tive esta noite e que tenho de expurgar. Por favor ajuda-me a fazê-lo…”
Quando, por fim, conseguiu pousar a folha de papel que tremia nas suas mãos, após lê-la 7 vezes, esta estava encharcada pelas suas lágrimas. Ironicamente, sofria mais maus tratos agora do que em todo o tempo que passara no oceano, na viagem até às suas mãos. Ele emocionara-se ao reconhecer a autora. Ela esperava-o em casa.












