EU ODEIO O SISTEMA DE 'NOTA' PARA FILMES, LIVROS E MÚSICA
Primeiramente eu tenho que estipular uma coisa pra você entender melhor o quanto é difícil pra mim entender o sistema de metragem: eu sou autista. E isso muda tudo. Palavras têm significados diferentes dentro da minha cabeça, elas têm peso, textura, cor, uma hierarquia própria de intensidade. Por exemplo: quando um terapeuta me perguntava se eu sentia raiva, eu sempre respondia “não”, porque pra mim a raiva é algo extremo, um sentimento que explode, que rasga, que me faz querer quebrar o quarto inteiro. Eu não entendia que “raiva” podia também significar irritação, rancor, ódio, repulsa, fúria. Para mim, todas essas palavras são coisas separadas, sentimentos distintos dentro de uma escala que só eu entendo.
E é aí que começa o meu problema com o sistema de nota pra filmes, livros e música. Porque, honestamente, o que exatamente eu estou avaliando? Tipo: quando eu dou nota pra um livro, estou avaliando o quanto eu gostei da história? Ou a experiência de ler? A fluidez da escrita? A construção narrativa? O quanto aquilo me agregou como pessoa? Tem mil camadas possíveis, mil jeitos de uma obra ser “boa” e um sistema de estrelas simplesmente não dá conta disso.
E pior: o sistema é diferente pra cada pessoa. O meu 2.5 significa “ok, razoável, não mudou minha vida mas não foi um sofrimento ler”. Pra outra pessoa, o mesmo 2.5 pode ser o equivalente a um pesadelo literário, uma experiência horrível. Então como isso é justo? Como isso comunica algo real?
Eu sempre quis que existisse uma forma diferente de avaliar as coisas. Algo mais universal, mais descritivo — que desse contexto. Porque, por exemplo, eu entendo que Romeu e Julieta é um clássico, que a escrita é boa, que foi o precursor de um monte de clichês, mas eu odeio a experiência de ler Romeu e Julieta. Não por ser “ruim”, mas porque eu nunca consegui lê-lo sem já saber o final. É como se alguém tivesse me avisado que a comida estava podre e, ainda assim, eu fosse comer sabendo disso. O que faz a diferença entre a minha nota pra “qualidade de escrita” (5 estrelas, sem dúvida) e pra “experiência pessoal de leitura” (1,5 estrelas).
E é por isso que o sistema de estrelas, do jeito que a gente usa, não faz sentido pra mim. Porque ele não traduz o que eu realmente quero dizer, ele transforma sensações complexas em pontinhos vazios. Ele simplifica algo que é, na verdade, intraduzível.
౨ৎ Extra das minhas redes sociais de gente chata
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