Elitismo, performance e o boom do capital cultural nas redes
Esse perfil tem uma estética a ele de Dark Academia, uma estética que nasceu na internet como uma maneira de se encaixar no mundo de pessoas ricas da elite que vão para universidades góticas eduardianas, que gastam 20k em sapatos que vão ser usados uma vez e depois jogados ao vento, mas são incrivelmente cultos e acadêmicos. Somente o fato de existir essa estética, que deve quase toda sua essência à burguesia europeia e à ideia de superioridade intelectual branca, já mostra como o elitismo se disfarça de expressão estética.
Além disso, a estética deve seu boom no TikTok junto do BookTok, o que demonstra ainda mais a conexão da arte com o elitismo. A arte sempre esteve ligada à ideia de superioridade eurocêntrica, o que é “bom”, “sofisticado” ou “intelectual” geralmente vem de um referencial europeu. O mesmo olhar que transforma o Renascimento em símbolo de pureza é o que desvaloriza manifestações culturais populares ou periféricas. E agora, com milhares de pessoas postando fotos de café acompanhadas de um trecho de Clarice Lispector, fotos em museus, indo ao teatro ,coisas que quase sempre necessitam de dinheiro, o que antes era sobre expressão virou uma forma de separação.
É aí que entra a performance. A performance vem dessa vontade de se colocar num papel, de se encaixar num grupo específico para reafirmar uma identidade. É sobre vestir um personagem que tem capital cultural, que sabe citar Virginia Woolf e Baudelaire, que lê Proust no metrô. Mesmo que seja só por estética. No fim, é a mesma lógica do consumo: você não compra só um livro, você compra o que ele representa.
A internet transformou o capital cultural em uma vitrine. Não basta ter conhecimento, é preciso mostrá-lo de forma performática, visual, desejável. E quanto mais se performa a intelectualidade, mais ela se distancia de sua função original: pensar criticamente. É um ciclo onde a arte, que deveria questionar o poder, acaba servindo para reproduzi-lo.
O que era para ser sobre paixão por livros e história virou uma encenação sobre pertencimento. A Dark Academia se tornou uma lente pela qual muita gente tenta ver o mundo, mas sem perceber que ela é feita de vidro europeu, polido pela ideia de que cultura é sinônimo de classe. No fim, a performance virou o próprio capital.
E o mais triste é como tudo isso acaba desviando as pessoas de quem elas realmente são. As redes fazem com que todo mundo queira ser visto, mas ser visto virou mais importante do que ser. Gente que antes buscava se expressar agora busca se encaixar. É como se a individualidade tivesse virado uma moeda, e cada um se apressasse pra trocar a própria essência por uma gota de validação digital. No fim, sobra um exército de perfil sem alma que regurgitam as mesmas frases, vivem do mesmo jeito como maquinas prontas para agradar a quem lhes de um misero pingo de afeição que as torne relevantes para si mesmas por ao menos 5 segundos.
౨ৎ Bibliografia
-> Pierre Bourdieu, A Distinção: Crítica Social do Julgamento (1979) -> Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço (2010) -> Jean Baudrillard, A Sociedade de Consumo (1970) -> Susan Sontag, Notas sobre o Camp (1964) -> Rodrigo de Lorenzi, ser culto está na moda? [...] (2025) -> The Book Leo, 'dark academia' has lost it's meaning (2025) -> The Book Leo, performative readers, 'book' girlies' [...] (2025)















