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Publicado originalmente em julho de 2013 em: http://paradoxoinjusto.blogspot.com/2013/07/desocupacao-da-camara-de-porto-alegre-2.html
Com o título “Desocupação da Câmara de Porto Alegre (2)”
Em torno das nove horas da manhã do dia dezoito de julho de dois mil e treze, no pórtico de entrada de veículos da Câmara Municipal de Porto Alegre, eu, Iuri Guilherme dos Santos Martins, presenciei os fatos a seguir descritos.
Estava eu na posição de ocupante da Câmara, mais especificamente, constituindo a comissão de recepção desta ocupação, cargo assumido autonomamente e sem nenhum tipo de formalidade, contribuindo para controlar a entrada da imprensa que aguardava “liberação” para entrada do lado de fora.
Junto com a imprensa, que eu me recorde, estava o presidente da Câmara atual, auto denominado “doutor” Thiago Duarte.
Ainda registrei presença de uma mulher ao lado deste grupo juntamente com seis crianças, todas aparentemente menores de doze anos.
(Aviso prévio axs leitorxs: NÃO VOU IDENTIFICAR ESTA MULHER E ESTAS CRIANÇAS. NÃO INSISTA.)
Quando a imprensa, juntamente com o vereador Thiago Duarte, e provavelmente outros, foram “liberados” para entrar, esta mulher pediu entrada também.
Neste momento, colegas ocupantes que estavam comigo barraram a entrada desta mulher com o argumento de que segundo o acordo judicial do Bloco de Lutas pelo Transporte 100% Público determinava que crianças não poderiam estar na área da Câmara Municipal até que as outras premissas deste mesmo acordo fossem satisfeitas.
Esta mulher relatou que veio até a Câmara, neste dia e nesta hora, em decorrência de uma promessa que tinham feito a ela.
Segundo esta mulher, uma pessoa que não conseguimos identificar havia solicitado a ela que viesse até a Câmara com estas crianças para ganhar um “rancho”.
Após insistente argumentação por parte dela e de inflexibilidade por parte da comissão de recepção do Bloco, uma das pessoas que integravam esta comissão se dispôs a perguntar para o restante do grupo se ainda havia comida sobrando para doar para esta mulher. A resposta foi negativa, porque a pouca comida que havia sobrado já tinha sido levada de carro para outra doação.
Após aguardar por alguns minutos, esta mulher solicitou entrada SEM as crianças para procurar a pessoa que havia prometido o tal “rancho”. A sua entrada foi liberada. Crianças permaneceram na rua.
Como começou a chover, comecei a pressionar a comissão da recepção para permitir a entrada das crianças, para que ficassem embaixo da guarita ou da marquise da Câmara. A resposta do consenso da comissão, à qual tive que concordar, meio dividido, era de que isto configuraria descumprimento do acordo judicial.
Peço atenção a quem está lendo que esta era uma situação de impasse, e segundo a minha interpretação, exigia tomada de decisão arbitrária.
Nenhum de nós queria deixar as crianças na chuva. Nenhum de nós queria descumprir o acordo judicial que exigiu tanto trabalho para ser instituído.
Com o aumento do volume pluviométrico, conseguimos um dos cartazes de lona para cobrir as crianças. Levamos mais cadeiras para a rua para abrigar todas as seis, meio espremidas, como pode se ver na fotografia.
Alguns argumentarão que a responsabilidade das crianças era da mãe, e até podem inferir irresponsabilidade da mesma por deixar as crianças ao relento. Em defesa dela, presumo que ela confiou no bom senso das pessoas que estavam ali. Não há como culpá-la por isto.
Alguns argumentarão que deveríamos ter trazido as crianças para dentro de imediato quando começou a chover. Em nossa defesa, digo que passei minha infância parte em apartamento e parte em vila de chão batido, e sei que só tem baixa imunidade criança criada em apartamento. Não era o caso daquelas e é correto afirmar que “uma chuvinha não vai matar”.
Alguns argumentarão outras coisas, mas é isto que as pessoas fazem. Não estão lá para ver e ouvir o que realmente acontece, e mesmo assim acham que têm opiniões altamente relevantes para fornecer acerca dos acontecimentos. Sintam-se todxs seguramente ignoradxs por mim, estxs que não estavam lá vendo com os próprios olhos e ouvindo com os próprios ouvidos.
Dei um pacote de bolachas para estas crianças. Peguei uma ou duas das bolachas porque eu não comia nada há mais de doze horas. Não quero saber a opinião de ninguém sobre esta atitude. Considero sim necessário incluir isto neste relato.
Como a chuva aumentou muito, assumi a responsabilidade das crianças e impus minha opinião ao restante do pessoal que ainda era relutante em trazer as crianças para dentro. Conquistei uma ou duas concordâncias, e trouxe as cadeiras, as crianças e o cartaz de lona para baixo do pórtico da Câmara Municipal. Orientei as crianças a não saírem correndo para dentro, e fui respeitado pelas mesmas. Todas as seis permaneceram sentadas de forma comportada e sem questionamento, com a única exceção da que parecia ser a mais nova que ficou ansiosa quando sentiu, talvez por telepatia, que aquela mulher que presumo ser mãe dela estava voltando. Esta menina chegou a caminhar fora da marquise mas eu induzi ela a voltar com alguma frase que provavelmente dava uma sensação de garantia de que ela poderia esperar sentada que certamente a mãe dela voltaria, não lembro bem.
Durante o tempo que as crianças ficaram sentadas embaixo da marquise, distraí elas conversando e tocando um instrumento de percussão, ora eu tocava, ora os meninos tocavam.
Após alguns minutos, um ocupante da Câmara chegou até nós com um pandeiro e outro instrumento de percussão. Passamos a nos entreter e às crianças com uma espécie de roda de samba e músicas influenciadas por “culturas predominantemente negras”. Coloquei o termo que inventei agora entre aspas porque não estou certo da terminologia atualmente utilizada. Não tenho paciência para acompanhar a evolução do preconceito social, ou do combate a ele.
Tocamos algumas músicas de cunho religioso. As crianças não demonstraram conhecimento. Tocamos alguns pagodes, que ela pareciam conhecer. As crianças estavam particularmente interessadas em musicar e replicar a marcha “Vem! Vem! Vem pra rua vem, contra o aumento!”, que puxavam a cada dois minutos.
Passaram uma mulher com um microfone, um homem com uma câmera e mais um homem com equipamentos eletrônicos por ali. O companheiro que estava com o pandeiro puxou “O povo não esquece, abaixo a RBS!”. A mulher saiu correndo, acompanhada dos outros dois homens.
Quando a mulher voltou, ficou surpresa que as crianças não tinham sido recolhidas para dentro da guarita, ao abrigo da chuva. Levou as crianças e foi embora.
Fiquei sem entender porque é que ela foi até lá em primeiro lugar. Fiquei imaginando que talvez fosse um golpe premeditado ao Bloco e que ela era conivente com isto. Depois imaginei que ela era só uma inocente e que era um golpe de quem chamou ela ali. Depois imaginei que talvez ninguém tivesse chamado ela e aquilo era um golpe da imprensa. Depois imaginei que era pegadinha do Mallandro. Depois, sacudi os ombros e aliviei a tensão que me provocou esta situação.
Me desculpe por ter te feito ler tudo isto. São coisas que aconteceram nesta ocupação, que provavelmente passariam desapercebidas, não entendo porque estou relatando isto, não sei se é digno de atenção ou se tem real relevância. Deixo para ti interpretações adicionais.
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